Tira-gostos e outros serviços dos botecos de antigamente.
Minhas "madeleines" tomando um gorpe de jurubeba
Boteco de pinguço. Que sempre a gente chamava de “bar”. “Boteco” era um bar muito sujo, muito xumbrega. Olha o respeito!
Em Piracicaba, a gente comia pão com MORTANDELA, com esse “n” no meio, mesmo. E comprava fiado na venda ou no bar, que tinham uma caderneta para marcar o que a mãe mandava a gente comprar. No começo do mês, no pagamento, o pai pagava a conta. Ou não. Às vezes acumulava para o mês seguinte.
Pão com mortandela.
Naquela época, bar, boteco, vendia “mortandela” e pão. Imaginem, boteco vendendo pão – e era verdade, vendiam um pão francês chamado “bengala”. A bem da verdade, não só nos botecos, mas também nas padarias. Assim como alguns produtos que hoje compramos nos supermercados. Talvez fosse uma reminiscência das “vendas”, “mercearias”, de antigamente, que também vendiam pinga e cerveja. Como os botecos.
A bengala não era uma baguete, era uma bengala: não tão comprido como uma baguete, bem mais largo. Tinha duas pontas que eu adorava, pois sempre vinham torradinhas.
Bengala. Você não, baguete.
E o pão francês pequeno, por aqui, o chamávamos (e ainda chamamos) de “filão” ou “filãozinho”. Piracicabano chega na padaria e não pede “Por favor, cinco pãezinhos”, e sim, “Vê cinco filão”.
E é engraçado que aqui, mesmo sendo uma cidade tradicionalmente produtora de cana-de-açúcar, não temos o costume de comer pastel com caldo de cana (bem da verdade, por conta dos novos tempos da internet, quem quer dar uma de chique quer dar uma de paulistano, deram de oferecer pastel com caldo de cana. Frescuraiada.) Aqui, pastel se come com refrigerante caçulinha, daqueles de garrafa de vidro, de preferência da marca Orlando, de limão ou guaraná.
Caldo de cana aqui é chamado de “garapa”, e se bebe só ele, sem comer nada junto, misturado com limão ou abacaxi, feito na hora, naquelas moendas embutidas nas peruas Kombi.
Perua de garapa. Essa tá bem montadinha.
Aliás, falando em refrigerante, era muito comum chamarmos qualquer um deles de “guaraná”. Podia acontecer o seguinte diálogo:
- Moço, vê dois guaraná grande [garrafa de um litro, retornável].
- Qual cê qué?
- Uma Fanta e uma Gengibirra.
Como você sabe, nenhum deles tem sabor guaraná.
A caçulinha, ou seja, a menor das garrafas da época. A melhor pedida para degustar um paster de carne, ou de parmito.
(Nada de “lata ou KS”. KS é algo muito recente – eu fui saber muito recentemente que “KS” queria dizer “garrafa de vidro”; os jovens acham que o termo sempre existiu, como a internet, os celulares e o Felipe Neto. É o susto que tomo, quando vejo que algo firmemente estabelecido para mim mudou. Como quando as pessoas começaram a se referir a “cinco quilômetros” como “cinco cá-eme”, lendo por extenso a abreviação: 5 km. Cá-eme, pombas??? Mas estou divagando).
Outra coisa que lembrei que vendia nos botecos era gás. Esse gás de botijão de 13kg (a gente chamava de “bujão”), igualzinho o de hoje. Imaginem um lugar apertado, não mais que 20 metros quadrados (apertado para conter meia dúzia, ou mais, de pinguços), com estantes abarrotadas de garrafas de bebidas e latarias. No balcão refrigerado, o leite de saquinho, disponíveis os tipos “B” (mais caro e mais gostoso), e o “C” (basicamente, uma lembrança de leite, bem aguado). Neste balcão, também tinha linguiça calabresa, “mortandela”, chouriço caipira e queijos, para os “tira-gostos” da turma que frequentava o botecão.
E, como fui me esquecer das salsichas no vinagre??? Ás vezes, também tinha sardinha crua enrolada na cebola. A sardinha era pré-cozida, e curtia com o tempo naquele líquido salmorado. Tudo em conserva, num potão de vidro. Para pegar a salsicha ou sardinha, não me esqueço: a ferramenta chama-se “fisga”.
Olha elas aí. Aqui, versão chique, com picles.
Num outro balcão, normalmente a caixa registradora, ou a gaveta onde o dono do bar guardava e tirava o dinheiro para o troco. Nesta época, nem pensar em cartão de débito ou crédito, no máximo cheque. Às vezes tinha um aviso: “Não aceitamos cheque pré-datado” ou “Não aceitamos cheque”, ponto. Neste balcão, também, o mostruário dos cigarros, ainda sem as ameaçadoras fotos de pulmões cancerosos.
Atrás dos balcões, uma caixa grande de papelão, onde estavam as bengalas e os filõezinhos. E ao lado, os botijões de gás, mais ou menos uns cinco ou seis, empilhados. Dependendo do bar, não estavam atrás do balcão, estavam na entrada-saída, ou num outro canto.
Hoje, percebo o quanto era perigoso, Imaginem um ambiente onde as pessoas fumavam da forma mais natural que vocês possam imaginar? Sem restrições? Nem mesmo se preocupando com a perigosa equação “gás + cigarro aceso”?
Mesmo assim, pelo que me lembro, nunca ouvi falar de um boteco que tenha explodido por descuido de um bebum que tivesse tacado fogo no mundo por conta de um Minister, ou de um Hollywood (“O sucesso”).
“O sucesso”.









