Um ilustre senhor
Cena de um cartório eleitoral no fim da década de 80 e suas consequências catastróficas
Esta história ocorreu exatamente às vésperas da eleição à Presidência da República de 1989, quando Luis Inácio Lula da Silva disputou pela primeira vez e perdeu para Fernando Collor de Mello, o caçador de marajás.
Havia uma fila longa no cartório eleitoral de Piracicaba para regularizar títulos de eleitor. Eu estava lá, morrendo de tédio pela demora do atendimento, quando chegou um senhor magro, pardo e cheio de energia.
Como o homem andava de cá para lá e de lá para cá, sem parar, a atendente resolveu antecipar a situação e perguntou o que ele precisava. Todo mundo ficou atento à cena. Parecia até uma peça de teatro.
“Moça, eu perdi meu titu. Revirei meu barraco de ponta-cabeça e nada. Todos os meus decumentos tão lá, na caxa, menos o tito, O que eu devo fazê?”
“O senhor vai ter que voltar para casa e encontrar seu título, para que a gente possa regularizar o documento”, ponderou a moça.
“Mas eu perdi meu titu. Não adianta procurá mai. Além de que, se eu voltá pra casa, perco a oportunidade de atualizá o decumento e votá nessa eleição”.
“Mas como o título não está regularizado, o senhor não vai poder votar mesmo. E hoje é o último dia. O senhor trouxe pelo menos o seu RG?”.
“Não, deixei lá na caxa, por segurança. Pensei que era só o titu”, observou o senhor.
“Infelizmente, o senhor precisa trazer seus documentos, senão, nada feito. Não tenho outra forma de certificar que o senhor é o senhor mesmo”.
O homem ficou muito irritado. “Craro que eu sou eu memo. A senhora não credita? Tá bão, se eu num posso votá, num voto. Mas desejo que oceis elejam um presidente bem FDP”.
Logo em seguida, o homem se mandou, esbravejando pelo caminho.
Eleger Collor foi uma praga desse senhor. Mas eleger Lula também seria praga daquele mesmo senhor. A história não parou por aí.
Quando chegou a minha vez de ser atendido, a moça errou no formulário. No lugar da profissão, ela ia escrever o nome da cidade de nascimento.
“Agora que errei, não teria como a gente ajustar a sua profissão”, disse ela.
Coloca aí Pintor”, eu disse.
“Pintor artístico ou de parede?”
“Já que está tudo danado mesmo, coloca de parede”.
Depois daquela cena deprimente, eu tive que ir ao banco do Brasil e pagar uma multa de R$ 3, seguindo com paciência mais uma fila gigante.
Pelo fim da história, resolvi não votar em nenhum dos dois candidatos. Como pintor de parede, votei em branco. Esta foi a minha forma de me manifestar e para não cair no feitiço do ilustre senhor.




