1o MITO DESVENDADO:
Sua prima Maria Laura não era o “grande amor” de sua vida

Esta é a versão corrente, de “senso comum”, sobre a história que levou ao assassinato do pintor Almeida Júnior, em 1899:
“José e Maria Laura eram primos e namoraram até que ele foi para a Europa estudar. O pai dela não permitiu o casamento e forçou a filha a casar-se com outro homem. José e Maria Laura tornaram-se amantes. O marido de Maria Laura descobriu tudo e sem compreender o amor que os unia, assassinou José na frente de toda a família, no dia 13 de novembro de 1899.”
A maior parte das afirmações acima não são verdadeiras.
O mito do romance de José Ferraz de Almeida Júnior com Maria Laura do Amaral Gurgel foi construído pelo primeiro biógrafo do artista, Gastão Pereira da Silva, no livro Almeida Junior: sua vida e sua obra, de 1946 – e que é usado até hoje como referência. É a base de um milhão de citações em livros didáticos, livros para adultos, textos e vídeos na internet.
O principal defeito desta versão é que não é nem um pouco verdadeira. O livro está cheio de erros, histórias falsas e interpretações equivocadas.
As informações que o biógrafo não obteve ele inventou. Criou uma fantasia, bem ao gosto romântico que ainda existia (ainda existe) em 1946.
Admitir que o “grande pintor nacional” fosse um simples mulherengo que “roubou” a mulher do próprio primo, era muito para a época (mesmo para 1946, quando foi escrita a biografia por Pereira da Silva). Tinha que haver algum atenuante. E a versão de fantasia, de um “romance proibido”, do “grande amor de sua vida”, foi a que todo mundo “comprou”.
O assassinato de Almeida Júnior pelo marido traído confundiu a todos. Quem tinha razão? O marido, que na época, considerava-se que tinha o direito de “lavar sua honra”? Ou o pintor, que teve sua vida e carreira profissional interrompidas no auge?
O fato é que o crime colocou sobre Maria Laura, José de Almeida Sampaio (o marido traído) e os filhos um estigma social que traria tragédias para seus descendentes, como tentativas de suicídio, negócios fracassados e outros problemas.
É verdade que Maria Laura era prima de Almeida Júnior. José de Almeida Sampaio e o artista também eram primos (ambos eram da família Almeida). Maria Laura e José Sampaio teriam se casado num casamento arranjado, muito comum à época, entre famílias ricas, de boa posição social, conforme explica Luiz Gastão Paes de Barros Leães, num livro publicado em 2019, chamado “Coitado do Tio Juquinha”. Sampaio é tio-bisavô do autor. Segundo Leães, Maria Laura casou-se com quinze anos de idade.
Mas foi bem antes que a história de “romance proibido” foi desmistificada: o pesquisador Oséas Singh Jr., em sua dissertação de mestrado “A Partida da Monção: Tema histórico em Almeida Júnior”, de 2004, defendida na Unicamp. Ele faz ali um cálculo simples: se Almeida Júnior e Maria Laura tivessem tido um romance antes dele ir para a França a estudos, eles teriam iniciado o namoro quando ela tinha a idade de 5 anos! Pois ele embarcou para a Europa em 1876 e ela nasceu em 1871.
Embora não tenha havido o romance “pedófilo”, Maria Laura casou-se bem nova, com quinze anos, para os nosso padrões, mas não para os padrões da época. E era infeliz no casamento, segundo Leães.
No processo criminal contra Sampaio, que correu por ter assassinado Almeida Júnior, as cartas anexadas ao processo mostram que o pintor e Maria Laura eram amantes desde, pelo menos, 1892 (lembrando que o artista foi assassinado em 1899). A ponto dela reconhecer, numa dessas cartas, que um dos filhos que oficialmente era de seu marido era, na verdade, filho do artista. Ela e a família moravam em Piracicaba e o pintor vinha frequentemente à cidade, não só por razões amorosas, mas também para atender a clientes como Prudente de Moraes (que teve dois retratos pintados por Almeida Jr.).
A vez derradeira em que esteve em Piracicaba foi morto a facadas pelo marido traído, que descobriu as cartas de Maria Laura em São Paulo, já que Sampaio se hospedava na casa do pintor - eram amigos.
Um dos boatos - “fake news”, dizemos hoje - que correram depois da tragédia é que a pintura “A Noiva”, de 1886, seria um retrato de Maria Laura. Reforçaria o “fato” dele estar ainda no ateliê do artista, como se fosse um retrato do “desejo” do artista de se casar com a amada proibida.
Não há identificação, no entanto, de quem seja a retratada. Pode tanto ser como não ser um retrato de Maria Laura; não há prova nem de uma coisa, nem de outra. Mas, quando foi feito o inventário dos quadros presentes no ateliê do pintor, depois de seu assassinato, foi vendido como se fosse, com certeza, o retrato de Maria Laura: isso só reforçou o mito.
Por tudo o que foi demonstrado, Maria Laura não era o “grande amor da vida” do artista; Almeida Júnior teve, comprovadamente, mais um relacionamento. (Falaremos dele mais adiante). Talvez tenha havido outros.
2o MITO DESVENDADO:
Ele não era como os caipiras que pintava
Existe uma visão sobre o artista ituano de que ele tão caipira quanto os caipiras que retratou em suas obras que o tornaram famoso, como “Caipira picando fumo”, “Os violeiros”, “Amolação interrompida”, e muitos outros.
Enquanto o artista ainda estava vivo, já iniciou-se a construção desse mito do “artista caipira”, “filho da terra que manteve-se puro” apesar de ter estudado no exterior. Dizia-se que usava roupas simples e tinha um sotaque caipira muito forte, e que fazia questão de mantê-lo.
Na biografia de Gastão Pereira da Silva, é narrado que Almeida Júnior foi um aluno tímido na Academia Imperial de Belas-Artes do Rio de Janeiro, que recusava contato com os colegas. Em Paris, teria declarado “estou morto por mi pilhar no Brasil!”, ou seja, “não vejo a hora de voltar para o Brasil”. Imaginem um caipirão falando a frase com o “r retroflexo” do interior paulista, arrastando seus lápis e tintas pelos sítios e fazendas paulista, e a imagem romantizada estará formada.
Apesar de ser natural de Itu e ter vivido na cidade até os 19 anos; de seu apelido familiar do artista ser “Jujuquinha” (porque seu pai tinha o apelido de “Jujuca do tanque”) e ter viajado muito pelo interior paulista depois que voltou da Europa, Almeida Júnior não era um “matuto”, muito menos um retraído, que preferisse viver entre os caipiras e que só se sentia à vontade entre eles.
O artista foi estudar no Rio de Janeiro com 19 anos e ficou lá até os 26 anos. Depois de um período breve de em Itu, ganhou bolsa de estudos na França do próprio imperador D. Pedro II. Ficou cinco anos na Europa, falava francês fluentemente e passou um período na Itália - com certeza, falava italiano também. Antes de sua morte, em 1899, voltou mais três vezes à Europa, para mais estudos, tratamento de saúde e também a passeio.
Mantinha amizade e conversas frequentes com fazendeiros do interior paulista, profissionais liberais como engenheiros, médicos e advogados, além de altos funcionários do governo estadual paulista e federal no Rio de Janeiro, todos eles pessoas que costumavam ir à Europa com frequência, e estavam “antenados” com o que havia de mais moderno e avançado.
Foi amigo tanto de monarquistas quanto dos republicanos que derrubaram a monarquia em 1889.
Além das telas dos caipiras, pintava alegorias com figuras mitológicas gregas, cenas religiosas, cenas de gênero (pinturas com temas domésticos) inspiradas em Johannes Vermeer, pintor holandês do século XVII (famoso entre nós hoje pelo quadro “Moça do Brinco de Pérola”).
Assim que chegou da Europa, recebeu uma encomenda de Dona Veridiana Valéria de Silva Prado, pessoa rica e bem-relacionada, na cidade de São Paulo, de uma pintura mural para decorar seu novo casarão. Ele atendeu prontamente à encomenda e ainda resolveu montar seu ateliê na capital paulista para atender clientes particulares, fato que ia contra a “lógica” de trabalho dos artistas, já que o principal cliente na época era o Governo Federal, que estava no Rio de Janeiro.
Essa visão empresarial do artista, fruto de uma mentalidade muito incomum entre os artistas dessa época, mostrava suas qualidades de empresário, pessoa com um ótimo “networking” , que tinha circulação entre pessoas influentes. Temos relatos de jornais da época falando de conversas dele com “barões do café” em trens e reuniões privadas.
Ele admirava Victor Hugo, Verdi, Balzac Beethoven. Era sócio do Clube Haydn, que promovia concertos. No seu inventário de bens, constavam livros em italiano, francês e latim. E foi o único artista que fez parte da fundação do IHGSP – Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo em 1894.
Parece um matuto caipira pra você?
Vendo os seus retratos, tanto pinturas quanto fotografias, observamos que o artista era um “tipão”, um homem charmoso, que projetava uma imagem bem-apessoada, cosmopolita. O fato de ter tido relacionamentos com mulheres diferentes, incluindo a prima que era casada, também é um indicativo de que, no mínimo, ele tinha charme, e na linguagem de gíria de hoje, “sabia xavecar”.
Ou seja, de caipira, no sentido pejorativo, ele não tinha nada. A não ser pela sua ligação com a cidade de Itu, com o interior paulista, dos quais escolheu suas paisagens e o sertanejo, o “caipira paulista”, como temas de suas pinturas.
Em resumo, se era um caipira, era no “bom sentido”.
3o MITO DESVENDADO:
Ele não era piracicabano, não tinha ateliê em Piracicaba e não pintou obras na cidade
A cidade de Piracicaba, interior do estado de São Paulo, homenageia Almeida Júnior com uma mostra de arte anual (a “Mostra Almeida Júnior”, da Apap - Associação Piracicabana de Artistas Plásticos), uma praça pública e uma rua (na verdade, uma travessa) com o nome do artista. Além de ter seu corpo sepultado no Cemitério da Saudade (a Prefeitura de Itu solicita a transferência do jazigo há anos, mas os piracicabanos não deixam).
Indo além do fato óbvio da tragédia que lhe aconteceu na cidade, Almeida Júnior teria tido uma atuação na vida artística da cidade e ainda teria feito “dezenas” de discípulos na chamada “Noiva da Colina”.
É duro ser um estraga-prazeres, mas Almeida Júnior não tinha ateliê em Piracicaba, nem deu aulas na cidade. O ateliê do pintor estava em São Paulo, na rua da Glória, onde também residia. Como já dissemos acima, ele nasceu e cresceu em Itu, e teve forte ligação com a cidade natal até a morte.
É verdade que o pintor teve alunos piracicabanos, mas não eram “dezenas”. A História registra o nome de somente dois: Joaquim Bueno de Mattos, que era de Campinas, expôs duas vezes em Piracicaba antes de vir morar na “Noiva da Colina”, estabelecendo ateliê e dando aulas de pintura até falecer, em 1933; e João Baptista de Oliveira, que não seguiu carreira de artista profissional.
É verdade que Almeida Júnior pintou pelo menos um quadro que têm explicitamente a paisagem de Piracicaba como tema (“Paisagem do rio Piracicaba”, data ignorada, acervo do Masp). Levando-se em conta que a obra do artista possui mais de trezentas pinturas, a cidade não lhe foi muito inspiradora…
Os artistas que se autodenominaram “acadêmicos” em Piracicaba tomaram a sua figura como referência. Em seu, digamos, “entusiasmo”, acabaram fantasiando e criando novos mitos.
…e 02 fatos que você não sabia!
1o FATO:
Almeida Júnior foi morto no fim do mundo.
O livro “A morte no fim do mundo”, de Domício Pacheco e Silva, uma biografia de Almeida Júnior publicada em 2013, tem esse nome porque havia uma “previsão” que o mundo ia acabar no dia em que ele foi morto, 13 de novembro de 1899.
Os jornais da época fizeram um grande estardalhaço, repercutindo as afirmações do astrônomo Rudolph Falb. Em fevereiro daquele ano, o jornal Minas Geraes reproduziu uma notícia atribuída ao Almanach Hachette, francês: Falb teria anunciado o fim do mundo para 13 de novembro, entre 14h e 17h, descrevendo a colisão da Terra com um cometa e a destruição da humanidade.
David Antunes mostra em sua novela “Piracicaba” (1955) como as pessoas se comportaram diante da notícia, que “viralizou” e derrubou o ânimo de uns, e transtornou a outros, quase todos acreditando na notícia:
“O nervosismo contagiava uma parte ponderável da população. O desalento público inferia-se da circunstância de muita gente passar a viver dentro das igrejas, reclamando até em grande vozeria a clemência divina. Os noivos não pensavam em casar senão antes de 13 de novembro. Queriam morrer em cheiro de santidade. (…) [segundo a notícia da imprensa] … o cometa de Biela deveria reaparecer a treze de novembro de 1899 e chocar-se com a terra, produzindo-lhe a destruição. Para julgar o vaticínio, reuniram-se os doutos em Bruxelas e confirmaram-no. Daí passaram a estudar os meios de livrar a terra da hecatombe”.
“Irrompeu uma epidemia de peste bubônica em São Paulo e Satos, com ameaça de alastrar-se pelo interior, que se desprevenira de quaisquer recursos sanitários. Mas, se o mundo ia acabar, dias depois, em que poderia a calamidade interessar?”
Segundo Pacheco e Silva, ao ser advertido, no dia fatídico, para que não saísse do sítio de Porto João Alfredo, onde se hospedava, para que não fosse ao centro da cidade de trem, pois “o mundo ia se acabar”, Almeida Júnior teria dito: “Então, se vou ver o mundo acabar, que seja na cidade”. E partiu.
Com certeza, foi o fim do mundo para o maior pintor nacional.
Domiciano brinca também com outro sentido da expressão “fim do mundo”. Um sentido o qual, obviamente, os piracicabanos de hoje não gostam: “fim do mundo” pode ser referência ao fato de que Piracicaba era muito longe (na época) de São Paulo, e muito mais ainda do Rio de Janeiro, capital do país.
Longe dos centros mais sofisticados, urbanizados. Em alemão, a hinterland, como diziam os chiques na época do pintor; o significado de hinterland é “interior”. Pays, em francês, tem o mesmo sentido e quer dizer “campos”, onde predominava a agricultura e a rusticidade das pessoas; seus habitantes, os nossos caipiras, seriam chamados em francês de paysannes.
Ou seja, o “interiorzão”. O fundo do mato. Uma lonjura. Um “fim de mundo”, como se dizia na expressão popular. Almeida Júnior, então, em vez de morrer num grande centro, incensado e celebrado como um “grande artista nacional”, teria morrido… no fim do mundo. Sem as homenagens, sem um pomposo enterro, que um grande artista do seu quilate merecia.
2o FATO:
Almeida Júnior tinha uma esposa e um filho
Quase ninguém sabe. Almeida Júnior teve pelo menos um filho reconhecido por ele, Mario Ybarra de Almeida, nascido em 1893, lembrado em seu testamento em 1898. Ele era fruto de um relacionamento com Rita de Paula Ybarra.
Ela, nos padrões de hoje, seria chamada de “esposa”. Por não serem casados nem no cartório, nem na igreja, na época seria chamada de “concubina”. Resumindo: Rita Ybarra era a “mulher fixa” de Almeida Júnior (por mais machista que isso pareça, assim foi chamada).
Alguns estudiosos, como Oséas Singh Júnior e Maria Cecília França Lourenço, levantaram a hipótese de que a pessoa retratada no quadro “A Leitura”, seja Rita Ybarra, pela semelhança dos traços físicos da mulher mostrada e fotos de Rita. A versão de que a mulher seria Maria Laura, como afirma Gastão Pereira da Silva, parece ser tentativa de reforçar a tese do “romance proibido”.
Mas ambas as suposições carecem de comprovação documental ou testemunhal.
Mario estudou na Escola Nacional de Belas-Artes (a mesma Academia Imperial de Belas-Artes onde seu pai estudou, com outro nome depois da proclamação da República) e foi premiado com uma bolsa de estudos no exterior, tendo estudado na França, Itália e Holanda. Seguiu carreira na mesma profissão do pai.
Foi professor de artes nas cidades de Araraquara e Boa Esperança do Sul, desta última foi prefeito duas vezes. Participou de muitos salões e foi premiado em vários deles. Sua obra é preservada principalmente na Pinacoteca Municipal de Araraquara, que tem seu nome e possui 300 obras de sua autoria no acervo.
Ele esteve em Piracicaba em 1947 para assinar os papeis para a exumação do corpo do pai, que foi transferido para um novo jazigo no Cemitério da Saudade.
O novo jazigo, que tem pretensões de monumento, foi projetado por Archimedes Dutra, e foi a culminância de uma campanha iniciada pelo discípulo Joaquim de Mattos para que o poder público financiasse um novo túmulo. Dutra e Mattos eram rivais: em meio a uma “guerra de narrativas” pela liderança do grupo de artistas acadêmicos em Piracicaba, Mattos faleceu em 1933, e Dutra assumiu a campanha, cuja reivindicação foi atendida pelos poderes constituídos depois da 2.a Guerra Mundial. Dutra venceu a “guerra”, assimilou a herança de Almeida Jr. ao grupo por ele liderado, e apagou Joaquim de Mattos da história das artes visuais piracicabanas. Mas esta é uma outra história, que contarei em outra ocasião.
REFERÊNCIAS (PARA VOCÊ SABER MAIS)
ARAÚJO, Raquel Aguilar de. Desmistificando Almeida Júnior: a modernidade do caipira. 19&20, Rio de Janeiro, v. IX, n. 1, jan./jun. 2014.
LEÃES, Luiz Gastão Paes de Barros. Coitado do Tio Juquinha. São Paulo, SP, Editora Singular. 2021.
NAVES, Rodrigo. Almeida Júnior: o sol no meio do caminho. Novos Estudos, CEBRAP, São Paulo, n. 73, nov. 2005.
PACHECO E SILVA, Domício. A Morte no fim do mundo: a história do pintor Almeida Júnior. São Paulo: Editora Terceiro Nome, 2013.
SILVA, Gastão Pereira da. Almeida Júnior: sua vida, sua obra. Rio de Janeiro: Editora do Brasil, 1946.
SINGH JR., Oséas. Partida da Monção: tema histórico em Almeida Júnior. 2004. Dissertação (Mestrado em História da Arte) – Universidade Estadual de Campinas, Campinas.




