por Denise Casatti
Quando pisei, pela primeira vez, no prédio que abriga as áreas administrativas do Centro de Energia Nuclear na Agricultura (CENA), fiquei impressionada com a gigantesca linha do tempo estampada na parede em frente à porta de entrada. Era 29 de abril de 2026 e, desde então, me fascina a ideia de desvendar as histórias que habitam esse lugar.
O ponto de partida daquela linha do tempo foi o que mais me impactou: não era 1966, oficialmente a data de criação desse instituto especializado da USP que faz parte do campus Luiz de Queiroz, em Piracicaba. A linha começava muito antes, em 1945, quando os Estados Unidos lançaram as bombas atômicas sobre as cidades de Hiroshima, no dia 6 de agosto, e de Nagasaki, três dias depois. Mas, por que dar início à própria história a partir de um desastre?
Foto: Denise Casatti
A partir daquela linha, fui tecendo um quadro baseado em documentos e na escuta das pessoas que fazem e fizeram parte dessa trajetória. Só então passei a entender por que o poder destrutivo da energia atômica marca tanto a história do CENA, apesar de aqui nunca ter existido um reator nuclear nem a produção de energia nuclear. A questão é que, se não houvesse Hiroshima e Nagasaki, talvez também não houvesse uma disputa militar acirrada para justificar os pesados investimentos necessários ao desenvolvimento científico da tecnologia nuclear.
Talvez, sem Hiroshima e Nagasaki, não teríamos o histórico programa Átomos para a Paz da Organização das Nações Unidas (ONU). Nome também dado ao famoso discurso do presidente norte-americano Dwight D. Eisenhower, na Assembleia Geral da ONU, em 8 de dezembro de 1953.
A proposta de utilização da energia nuclear para fins pacíficos, lançada pela ONU depois daquele discurso, reverberou em um grupo de pesquisadores da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq). A partir dali, passou a fazer ainda mais sentido o sonho de construir um centro especializado, no interior do Estado de São Paulo, voltado especialmente para investigar as aplicações pacíficas daquela nascente tecnologia na agricultura.
Hiroshima, de John Hersey
No clássico livro-reportagem Hiroshima, o jornalista John Hersey traz a história dos impactos da bomba atômica que devastou a cidade de Hiroshima em 1945. A primeira parte da obra, escrita um ano depois da explosão, traz um retrato de seis sobreviventes. Na segunda parte, o autor relata o reencontro com os entrevistados, ocorrido quarenta anos mais tarde.
Fotos: National Archives, Hiroshima Peace Memorial Museum e United States Army
Os saltos de Epaminondas
Talvez seja ainda um pouco cedo para se escrever a história do Centro de Energia Nuclear na Agricultura, pois os fatos, muitos deles, são ainda recentes. Porém é necessário, às vezes, no meio da jornada, olhar para trás rendendo homenagem à etapa vencida e, então, com forças redobradas, empreender novos desígnios.
Esta não é propriamente uma história de homens, mas sim, de imaginações, de sonhos e de delírios. De idealismos e de lutas. De reivindicações e de perseverança. De confiança no futuro e de amor a uma causa.
Nesta história não há heróis, não há vencidos. Somente vencedores: todos nós.”
Piracicabano, o professor Epaminondas Sansígolo de Barros Ferraz foi um dos fundadores do Cena - Foto: Denise Casatti
Os três parágrafos acima dão início às notas históricas escritas pelo professor Epaminondas Sansígolo de Barros Ferraz, no início de 1976. Passados 50 anos, ligo para o telefone fixo de sua casa, na intenção de agendar uma entrevista. Ao mencionar o documento, ele logo completa: “É um livro de capa preta, que tem minha assinatura à caneta logo no começo?”. Respondo que sim, admirando a capacidade de rememorar desse professor que, no próximo dia 9 de setembro, completará 91 anos.
Alguns dias depois do telefonema, já em seu escritório, ele me mostra no computador as apresentações que elaborou para contar a trajetória do CENA, apontando as pessoas presentes em cada imagem. Mas era a foto pendurada na parede que mais se destacava: a captura do momento em que o corpo de Epaminondas sobrevoa curvado uma trave, após um de seus muitos saltos em altura. Antes de se tornar professor na Esalq, Epaminondas foi campeão de um esporte em que o salto em altura era feito de frente e a descida ainda não podia ser amortecida por um acolchoado. Resultado: um dos braços do futuro professor, aquele que sustentava todo o peso do impacto do corpo no chão, tinha um diâmetro bastante superior ao do outro.
Epaminondas foi campeão paulista de salto em altura em 1957 pelo São Paulo Futebol Clube. Também venceu competições representando Piracicaba e a Associação Atlética Acadêmica Luiz de Queiroz - Foto: Denise Casatti
Mas aquela imagem lembrava apenas um dos muitos saltos que permearam a vida de Epaminondas. Outro deles é o Salto de Itapura, uma imensa e imponente queda d’água do Rio Tietê, perto de sua foz com o Rio Paraná, que ficou totalmente submersa e desapareceu em 1968, devido à construção da Usina Hidrelétrica de Jupiá. “Antes de alagar, tinha uma turbina enterrada lá embaixo d’água: fui eu que projetei, desenhei o rotor da turbina.” Logo depois de se formar na Esalq, em 1958, como engenheiro agrônomo, Epaminondas trabalhou durante um ano na indústria metalúrgica e foi assim que conheceu o Salto de Itapura.
Só que o salto mais alto que Epaminondas deu não demandou sequer que saísse do chão: “Um dia, não sei por que cargas d’água, estava atravessando o centro de Piracicaba, atravessando o jardim e, no canto assim, tinha a antiga Leiteria Brasileira. Em uma cadeira, em frente a uma mesinha, tomando chope e olhando a paisagem, estava o professor Cervellini. Eu atravessei e o cumprimentei respeitosamente. Ele falou: ‘Vem aqui’. Sentei na cadeira e ele perguntou: ‘Quer trabalhar na Física? Segunda-feira, apareça lá’. Resumindo: pedi demissão da metalúrgica e, assim, eu fiquei no Departamento de Física da Esalq por 50 anos”.
Naquele tempo, Admar Cervellini era professor catedrático na Esalq, já conhecia Epaminondas e tinha autonomia para contratar seus próprios professores assistentes. O ex-aluno tinha cativado o professor quando realizou alguns trabalhos no Departamento de Física, como radioamador e ministrado aulas de eletricidade. O que Epaminondas não desconfiava, naquele momento, era que ser professor assistente de Cervellini também levaria, alguns anos depois, a outro salto: tornar-se um dos fundadores do CENA.
Crônica de uma Grande Excursão, de Epaminondas Ferraz
Parte da coleção 2023 do Instituto Histórico e Geográfico de Piracicaba (IHGP), a obra Crônica de uma Grande Excursão, agronomandos da Esalq de 1961 traz o relato do diário criado pelo professor Epaminondas Ferraz sobre a excursão aos Estados Unidos de um grupo de 20 estudantes do curso de Engenharia Agronômica da Esalq. Durante um mês, eles visitaram propriedades agrícolas, sistemas agroindustriais, além de estabelecer contato com representações universitárias e de outras entidades pelo caminho. Líder da excursão, o professor conta em detalhes, no livro, os impactos da tensão geopolítica da Guerra Fria na viagem.
Fotos: Acervo CENA-USP
As sacadas de Cervellini
No ano em que Epaminondas retornou à Esalq como professor assistente de Admar Cervellini, vários professores já estavam aplicando técnicas nucleares em pesquisas na agricultura. O próprio Cervellini, que viria a se tornar, posteriormente, o primeiro diretor do CENA, publicou, em 1951, a tese de livre-docência Determinação de energia da radiação beta por métodos de absorção. O trabalho foi sucedido por muitos outros e, naquele início de 1960, já havia cerca de 20 estudos científicos produzidos na Esalq sobre o uso de técnicas nucleares na agricultura.
Jogador de tênis, Cervellini lançou uma jogada arriscada: a ideia foi reunir todos aqueles pesquisadores pioneiros em um mesmo ambiente, fértil o bastante para promover uma maior interação entre eles e romper as barreiras que a maioria enfrentava, em especial, a dificuldade de obter recursos para o desenvolvimento das pesquisas e para a aquisição de equipamentos. Além de Epaminondas, uniram-se à empreitada os professores Almiro Blumenschein, Akihiko Ando, André Martin Louis Neptune, Darcy Martins da Silva, Enéas Salati, Eurípedes Malavolta, Frederico Maximiliano Wiendl, Henrique Bergamin Filho, Klaus Reichardt, Otto Jesu Crocomo, Renato Amilcare Catani e Valdomiro Corrêa Bittencourt. Juntos, elaboraram o projeto para a criação do Centro Nacional de Energia Nuclear na Agricultura (Cnena) como órgão da Esalq. Encaminhada ao Conselho Técnico Administrativo da instituição, a proposta foi aprovada no dia 11 de setembro de 1961 e referendada pela Congregação da Esalq no dia 28 do mesmo mês.
Admar Cervellini foi professor catedrático na Esalq - Fotos: Acervo Cena/USP
Nascia ali o embrião do que viria a se tornar o CENA. Quase um ano depois, em 1º de agosto de 1962, o Cnena foi oficializado por meio da assinatura de um convênio entre a Esalq, a USP e a Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN). Nos dois anos que se seguiram, foram desenvolvidos alguns estudos de ponta, realizados 12 cursos e adquiridos novos equipamentos.
A assinatura do convênio da USP com a CNEN, em 1º de agosto de 1962, marca a criação do Cnena. Na imagem, em pé, da esquerda para a direita, estão: Antonio Barros de Ulhôa Cintra, Jesus Marden dos Santos, Epaminondas Ferraz, Eurípedes Malavolta, Admar Cervellini e Enéas Salati. Sentados, vê-se o diretor da Esalq, Hugo de Almeida Leme (à esquerda) e o presidente da CNEN, Marcello Danny. Foto: Acervo CENA-USP
Mas, na madrugada do dia 31 de março de 1964, um golpe militar foi deflagrado no Brasil, levando à deposição do presidente democraticamente eleito João Goulart. O impacto atingiu o Cnena em cheio: em 31 de dezembro do mesmo ano, a ousada iniciativa chegava prematuramente ao fim, asfixiada pela descontinuidade do repasse de recursos via convênio com a CNEN.
Cervellini e os demais pesquisadores não desistiram e continuaram desenvolvendo suas pesquisas, aguardando o momento certo para que o solo estivesse propício e, novamente, pudessem plantar o sonho de ter um centro dedicado às pesquisas nucleares em agricultura no interior do Estado de São Paulo. Felizmente, não demorou para o tempo mudar.
Em 1965, outro projeto de centro foi criado, agora retirando o termo “nacional” do nome. Outra vez, a proposta foi enviada à Esalq e, em março, aprovada pelo Conselho Diretor da instituição. Mas a espera continuou: apenas no dia 22 de setembro de 1966 o CENA, finalmente, ganharia sua certidão oficial de nascimento. Publicada no Diário Oficial do Estado de São Paulo em forma de decreto (número 46794), a certidão foi assinada pelo governador Laudo Natel, anunciando a criação do centro como um instituto anexo à Esalq.
No jornal O Estado de S. Paulo do dia 5 de outubro de 1966, notícia destaca a criação do CENA - Fotos: Diário Oficial do Estado de S. Paulo e jornal O Estado de S. Paulo
No dia seguinte, às 8h44 no horário de Brasília, começava a primavera no Hemisfério Sul, presenteando aquela semente recém-lançada, que vem crescendo de vento em popa. Tanto que, ao completar dez anos de vida, os frutos já eram celebrados durante a 20ª Conferência Geral da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), órgão autônomo das Nações Unidas, realizada no Rio de Janeiro em 1976. Naquele evento, Cervellini confessou: “Se, há dez anos, alguém me dissesse que eu teria a honra de me dirigir a vocês, nesta tarde, sobre o desenvolvimento e o trabalho do CENA, eu ficaria francamente surpreso. É verdade que o CENA celebra seu 10º aniversário oficial durante esta conferência, pois foi em setembro de 1966 que ele se constituiu como entidade jurídica, na qualidade de instituição da USP, vinculada à Esalq. No entanto, foi somente em 1968 que o primeiro edifício de laboratórios foi concluído e nos tornamos um instituto de fato, e não apenas uma ideia em nossas mentes.”
Ao criar o CENA, Cervellini conseguiu dar vida ao futuro que ele enxergava: “Considero nossa tarefa conceber, desenvolver, comprovar e testar na prática novas ideias e técnicas que envolvam métodos nucleares, bem como disponibilizá-las a pesquisadores da área agrícola, tanto no Brasil quanto em quaisquer outras situações onde possam ser aplicadas. No entanto, caso nos visite — e deixo aqui um convite cordial para que o faça —, você verá que realizamos muitas atividades cotidianas que não envolvem diretamente o uso de isótopos*. Isso ocorre, simplesmente, porque o componente de isótopos ou radiação de muitas dessas técnicas aplicadas à pesquisa agrícola — se não da maioria delas — constitui apenas uma parte, embora absolutamente essencial, de todo o trabalho de pesquisa. As técnicas nucleares estão, e inevitavelmente devem estar, integradas aos métodos clássicos.”
Foto: Acervo CENA-USP
É devido à ousada sacada de Cervellini que, hoje, 37 cientistas e 120 funcionários técnico-administrativos de diversos campos do saber encontram no CENA as condições de que necessitam para fazer brotar da ciência inúmeras soluções que estão presentes, não só no campo, mas nos pratos e nas vidas dos brasileiros. Além de contribuir com a formação de futuras gerações de pesquisadores, essa comunidade vibrante tem transformado os laboratórios do CENA em um palco para muitos espetáculos nas áreas de biologia, química, física e na aplicação de várias técnicas nucleares na agricultura e no ambiente.
Que espetáculos são esses? Quais técnicas são utilizadas? Que outros personagens, além de Epaminondas e Cervellini, atuam nesse palco? Quais contribuições já trouxeram para a sociedade?
Para responder a perguntas como essas, o Jornal da USP e o Viletim publicarão uma série especial de quatro reportagens, celebrando os 60 anos do CENA.
Matéria: Denise Casatti | Jornal da USP.



















