por Denise Casatti - especial do Jornal da USP
Arte sobre fotos: Acervo do jornal O Estado de S.Paulo e do CENA/USP
Era 3 de novembro de 1970 quando o parágrafo abaixo foi publicado no jornal O Estado de S. Paulo. Escrito pelo jornalista Roberto Godoy, o trecho dá início à reportagem Em 2 anos, a selva e as chuvas, em que se noticia o andamento das pesquisas inovadoras realizadas pelo Centro de Energia Nuclear na Agricultura (CENA).
Arte sobre texto publicado no jornal O Estado de S. Paulo
Quase quatro mil quilômetros separam esse instituto especializado da USP, localizado em Piracicaba, no interior do Estado de São Paulo, da Floresta Amazônica. Mas a distância não impediu que o CENA se tornasse o berço de estudos seminais que levaram a uma compreensão mais aprofundada sobre o funcionamento do ecossistema dessa ainda desconhecida região, no início da década de 1970.
Naquele tempo, a Amazônia passava por um intenso processo de transformação socioambiental, capitaneado pelos planos regionais de desenvolvimento da ditadura militar, que a consideravam isolada, atrasada e vazia. O estímulo a novas frentes de ocupação do território, a abertura de estradas e o lançamento de projetos de mineração levaram à aceleração do desmatamento.
Frente àquele cenário, a hipótese do pesquisador líder das investigações, Enéas Salati, do CENA, era de que a transpiração da floresta poderia ser responsável por uma parcela das chuvas da região, mas não se sabia qual era esse porcentual nem qual seu impacto sobre as demais regiões brasileiras. Se o porcentual fosse pequeno, o processo de ocupação tão almejado pela ditadura militar poderia ser justificado cientificamente: haveria provas de que desmatar não era tão prejudicial ao ecossistema.
Assim, do ponto de vista militar, as pesquisas de Salati na Amazônia eram estratégicas e recebiam apoio financeiro majoritariamente do governo federal, por meio de convênios estabelecidos via Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEM), Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA) e Superintendência do Desenvolvimento da Amazônia (Sudam), além de recursos significativos da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA). O problema é que, literalmente, o tiro dos militares saiu pela culatra, como explica o pós-doutorando André Secchieri Bailão, da Casa de Oswaldo Cruz (Fiocruz), no dossiê Isótopos das águas brasileiras para o desenvolvimento: a hidrologia isotópica, os peritos do Centro de Energia Nuclear na Agricultura e de organizações internacionais no Nordeste e na Amazônia (1968-1978):
Propaganda da Sudam publicada em 1972 na edição especial Amazônia, da revista Realidade. Naquele tempo, glorificar o desmatamento fazia parte do plano estratégico de desenvolvimento proposto pela ditadura militar - Foto: Reprodução/Acervo Ricardo Cardim
Arte sobre texto publicado no jornal Revista Brasileira de História da Ciência
Conforme os resultados das pesquisas avançavam e traziam evidências de que, sem floresta, não haveria tanta chuva nem na Amazônia nem nos centros de produção agrícola do Sul e do Sudeste do Brasil, acontecia também uma mudança significativa no posicionamento de Salati. Se, por um lado, nos anos iniciais dos estudos no CENA, ainda no fim da década de 1960, o pesquisador parecia se alinhar à agenda desenvolvimentista do regime militar, por outro lado, no final da década de 1970, Salati se tornaria um grande crítico das transformações ambientais estimuladas pelo governo. Assim, ao mesmo tempo em que ganhava reconhecimento no campo científico, ele conquistava, cada vez mais, voz no movimento ambientalista internacional. Embora, infelizmente, as ideias de Salati nunca tenham sido ouvidas, em âmbito governamental, de modo que pudessem modificar os planos já em andamento do regime militar.
Arte sobre foto de contúdo publicado na revista Water Research Resource
A crítica ao desmatamento generalizado, que transparece no trecho destacado acima, é parte do artigo que Salati e colaboradores publicaram na prestigiada revista Water Research Resource, em outubro de 1979. Com o título Reciclagem da água na Bacia Amazônica: um estudo isotópico, o trabalho foi realizado em colaboração com Eiichi Matsui, do CENA, e com o israelense Joel R. Gat, do Weizmann Institute of Science, um dos muitos pesquisadores estrangeiros que participaram dos estudos na região amazônica.
O pesquisador israelense Joel R. Gat durante visita ao CENA em agosto de 1975. Professor do Departamento de Química do Instituto Weizmann de Ciência, Gat foi consultor da AIEA na área de hidrologia - Foto: Acervo CENA/USP
Voando sobre a floresta
Quem também se envolveu ativamente no processo de descoberta sobre a Amazônia e se recorda com saudade do tempo em que embarcava nos aviões da Força Aérea Brasileira (FAB) para fazer as coletas de amostras de água na floresta foi o técnico de nível superior do Laboratório de Isótopos Estáveis do CENA, José Aurélio Bonassi, carinhosamente conhecido por seu apelido de infância, Pingin: “Foi um projeto muito bacana, porque eu comecei a viajar para a Amazônia e fui coletar amostras de chuva. Depois, fizemos estudos relacionados ao projeto nas capitais brasileiras: coletamos chuva em todas as regiões do Brasil para estudar a dinâmica dos rios voadores”.
É julho de 2026 e Pingin está sentado em uma das cadeiras do laboratório onde começou a trabalhar, em maio de 1978. Seus olhos azuis se enchem de lágrimas quando veem a cópia impressa do artigo de 1979. Emocionado, lembra-se com carinho da oportunidade de estágio que lhe foi oferecida naquela época pelo professor Eiichi, quando Pingin ainda cursava o Técnico em Química, aos 23 anos. Trocou o emprego que tinha no banco pelas bancadas do laboratório e nunca mais abandonou a química. Concluiu a graduação e, na sequência, foi contratado pelo CENA.
A poucos metros dali, repousa, na sala de estudo do laboratório, um gigantesco, imponente e já desbotado mapa da Bacia Amazônica, que toma conta de toda uma parede. Ainda é possível enxergar ali as muitas marcas circulares que registram as incontáveis expedições de que Pingin participou. Tempo em que ele e os pesquisadores do CENA, literalmente, correram atrás dos rios voadores.
O técnico de laboratório Pingin acompanhou os cientistas do CENA em diversas viagens para coletar amostras de água na Amazônia. No detalhe, ele aparece ao centro, ao lado de outros dois técnicos do Laboratório de Isótopos Estáveis: Miguel Luiz Baldessin (à esquerda) e Bento Moçambique de Moraes Neto (à direita) - Fotos: Denise Casatti
Decifrando a dança das águas
Para identificar as origens das chuvas na Amazônia, o grupo de pesquisadores do CENA precisava investigar as características típicas da água em diferentes pontos da Bacia Amazônica. Como tudo o que é material no mundo é feito de átomos, portanto, de elementos químicos, é viável estudar as origens da água olhando para os átomos que a compõem: dois de hidrogênio e um de oxigênio. “A molécula de água, H2O, parece simples, mas é complexa”, revela Pingin.
Apesar da palavra “átomo” significar indivisível, sabemos que ele é constituído por partículas menores, como os elétrons, os prótons e os nêutrons. Analisando o caso específico do oxigênio, por exemplo, trata-se de um átomo que sempre possui oito prótons e, geralmente, tem oito nêutrons, somando uma massa atômica igual a 16. Esse é o mais abundante no nosso planeta: o oxigênio 16 (O16).
No entanto, existe, na natureza, uma diversidade de átomos de oxigênio: por exemplo, alguns têm massa atômica igual a 17, porque possuem um nêutron a mais. Ainda que em menor abundância, esses átomos de oxigênio 17 (O17) são mais pesados, ou seja, possuem algumas propriedades físicas diversas das do oxigênio 16. Mas note também que, apesar do oxigênio 17 ter um nêutron a mais, ele continua sendo um átomo de oxigênio. Então, tanto o oxigênio 16 quanto o 17 (e também o 18) constituem um mesmo elemento químico e, portanto, ocupam a mesma posição na tabela periódica. Daí vem o nome isótopo: iso significa “mesmo” e topos, “lugar”.
É o que ocorre com outros elementos, tal como o hidrogênio. Nesse caso, o mais abundante em nosso planeta é o hidrogênio 1 (H1), também conhecido como prótio, que possui um próton e zero nêutron, somando uma massa atômica igual a um. Similar ao exemplo do oxigênio, na natureza também encontramos uma diversidade de átomos de hidrogênio: alguns têm um próton e um nêutron, possuindo massa atômica igual a dois, como o hidrogênio 2 (H2), também conhecido como deutério.
Mas de nada adiantaria reconhecer cientificamente essa diferença no interior do átomos, se não fosse possível mensurá-la. Observe que, em todos os exemplos citados de oxigênio e hidrogênio, a diferença se dá na massa atômica dos átomos, ou seja, alguns são mais pesados e outros mais leves. Para capturar esse peso, então, foi preciso criar um equipamento específico chamado espectrômetro de massas, façanha conquistada pelo químico Irving Friedman, do Serviço Geológico dos Estados Unidos, em Denver.
Com esse instrumento, tornou-se possível, literalmente, acompanhar os caminhos dos átomos com distintos pesos atômicos. Isso porque os isótopos se distribuem de forma diversa em cada ambiente da Terra, gerando uma espécie de assinatura isotópica típica para os átomos presentes em cada local do planeta. Assim, ao coletar uma amostra de água no litoral, é possível compreender a proporção de isótopos típica daquele ambiente, que vai diferir de uma amostra de água coletada em outro local.
Friedman construiu, no laboratório do ganhador do Prêmio Nobel, Harold Urey, no Instituto de Estudos Nucleares de Chicago, o primeiro espectrômetro de massas para a medição rotineira da composição isotópica de hidrogênio, com base em projetos recebidos do físico Alfred Nier, pioneiro no desenvolvimento da espectrometria de massas. Reconhecido como pioneiro da hidrologia isotópica, Friedman efetuou, então, as primeiras medições de isótopos de hidrogênio em água oceânica e, em 1953, publicou um artigo de referência intitulado Teor de deutério em águas naturais e outras substâncias.
O pesquisador norte-americano Irving Friedman durante visita ao CENA em maio de 1973. Vinculado ao Serviço Geológico dos Estados Unidos, Friedman é reconhecido por ter construído o primeiro espectrômetro de massas para medição rotineira da composição isotópica de hidrogênio - Foto: Acervo CENA/USP
O CENA construiu uma profícua parceria com Friedman, resultando em diversas visitas do norte-americano a Piracicaba, bem como em um estágio de seis semanas de Salati em Denver, em 1970, e também de Eiichi, em 1973. O interesse de Salati pela área de hidrologia isotópica remonta a antes da fundação do CENA. Engenheiro agrônomo graduado em 1955 pela Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq), Salati concluiu o doutorado na mesma instituição em 1958 sob a orientação do professor Admar Cervellini, que liderou o esforço de criação do CENA e foi seu primeiro diretor. Já em 1958, foi contratado como professor assistente de Cervellini junto ao Departamento de Física e Meteorologia da Esalq.
Poucos anos depois, em 1964, Salati recebeu um auxílio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) para desenvolver a pesquisa Variação da composição isotópica natural do oxigênio. Dois anos depois, no ano de fundação do CENA, em 1966, ele e o professor Cervellini participaram, como observadores, do Simpósio de Hidrologia Isotópica da AIEA, realizado de 14 a 16 de novembro na sede da instituição, em Viena, na Áustria.
O primeiro espectrômetro de massas do CENA foi comprado em 1966 com recursos da CNEM, do CNPq, da Capes, da Fapesp e da USP. Chegou ao porto de Santos no ano seguinte, mas só entrou em operação em 1968. Segundo o professor Epaminondas Sansígolo de Barros Ferraz, um dos fundadores do CENA, a luta para se conseguir um espectrômetro de massas foi das mais árduas, pois remonta à década de 1950 - Foto: Denise Casatti
Responsável pelo planejamento e construção do Laboratório de Espectrometria de Massa para Elementos Leves do CENA, Salati iniciou as análises de oxigênio a partir do momento em que foi instalado um espectrômetro de massas em 1968 no CENA, o CH4, da empresa Varian MAT, fabricado na então Alemanha Ocidental. Já as análises de hidrogênio começaram a acontecer com a instalação de um segundo espectrômetro em 1970, o GD 150 da Varian MAT. O pós-doutorando André Secchieri Bailão explica quais foram os primeiros estudos realizados na época:
Arte sobre conteúdo de pós-doutorado
Segundo Bailão, diferente de outras áreas de pesquisa, como, por exemplo, a geração de energia nuclear, complexa e custosa, o campo da hidrologia isotópica utilizava técnicas mais baratas e simples, podendo ser empregada por países em desenvolvimento como o Brasil.
Inspirando futuros possíveis
O projeto Rios Voadores uniu o aeronauta Gérard Moss e o pesquisador Salati em um esforço para percorrer a trilha dos jatos de baixa altitude, evidenciando como a Amazônia mandava umidade para a América do Sul - Fotos: site do projeto Rios Voadores
Aos 88 anos, Salati morreu em Piracicaba no dia 5 de fevereiro de 2022. Em entrevista concedida ao portal do Observatório do Clima, logo após o falecimento, o professor Reynaldo Luiz Victoria, que foi orientado por Salati durante o mestrado, recordou: “Ele dizia que na Amazônia você tem um rio embaixo e um em cima [no céu], e os dois estão permanentemente em conexão”.
No texto do Observatório do Clima, outro entrevistado é o climatologista Carlos Nobre, do Instituto de Estudos Avançados da USP. Ele contou que seu primeiro trabalho no Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), em 1975, foi ao lado de Salati: “Ele me incentivou a fazer doutorado e me inspirou muito no começo da minha carreira”. Hoje, Nobre é referência global nos estudos sobre mudanças climáticas na Amazônia e, recentemente, foi nomeado pelo papa Leão XIV como membro do conselho que vai tratar de desenvolvimento humano no Vaticano.
Quem também foi inspirado pelas pesquisas de Salati foi o climatologista José Antonio Marengo Orsini, atualmente coordenador-geral de pesquisa e desenvolvimento no Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden). Um dos artigos científicos escritos por Salati o motivou a estudar a Amazônia. Em 2004, Marengo publicou um trabalho sobre os “jatos de baixa altitude”, correntes de ar e água que saíam da Amazônia, batiam nos Andes, faziam uma curva e levavam umidade até o Rio da Prata, entre a Argentina e o Uruguai, depois de passar pelas regiões Centro-Oeste, Sudeste e Sul do Brasil.
Pouco tempo depois dessa publicação, Marengo foi convidado por Salati para colaborar em um projeto, juntamente com o aeronauta Gérard Moss, destinado a percorrer a trilha desses jatos em um avião e mostrar como a Amazônia mandava umidade para a América do Sul. Com patrocínio da Petrobras, o projeto recebeu o nome de Rios Voadores.
Seguindo o caminho contrário ao desses rios, as cinzas de Salati voaram do interior de São Paulo de volta à Floresta Amazônica, ecossistema ao qual ele dedicou grande parte de sua vida. A pedido do próprio Salati, elas repousam hoje na Reserva Ducke, uma área de mata que pertence ao INPA, perto de Manaus.
O mundo cabe em Piracicaba: parcerias científicas sem fronteiras
No dia 15 de setembro de 1972, o auditório do CENA ficou lotado: além da assinatura do convênio do governo federal, por meio da CNEM, com o PNUD (sob administração da AIEA), houve a inauguração do atual prédio principal - Fotos: Acervo CENA/USP
Um dos marcos da história do CENA é o projeto Desenvolvimento da produção agrícola através da aplicação de técnicas nucleares, resultado de um acordo de cooperação técnica assinado em 1972 pelo governo federal, por meio da CNEM, com o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), sob administração da AIEA, órgão autônomo das Nações Unidas com sede em Viena. Por meio desse convênio, o CENA passou a sediar o único escritório exclusivo da AIEA na América Latina fora das embaixadas, o qual funcionou até 1991.
Com duração inicial prevista de cinco anos, o projeto foi prorrogado até o final de 1978 e renovado para uma segunda fase até 1981, seguido na sequência por outros convênios, como o chamado Projeto Amazônia I. Na primeira fase, houve o repasse de mais de US$ 1,6 milhão (valores da época). “Para Viena, o CENA representava uma porta de entrada no Brasil e na América Latina, para a realização de um grande projeto de cooperação na área agrícola, e foi o terceiro instituto no mundo a receber esse tipo de apoio, depois da Iugoslávia e da Índia”, explica o pós-doutorando Bailão.
“Graças aos peritos que, através do projeto, têm visitado o CENA e às bolsas concedidas aos seus pesquisadores, o CENA tem tido a oportunidade de formar novos pesquisadores que vêm atuando de modo decisivo em seus programas de pesquisas”, destaca o relatório de atividades 1968/1977 do centro, na página 71. Na página seguinte, constam os nomes de 22 especialistas que visitaram Piracicaba no período, provenientes de 13 diferentes países: Austrália, Canadá, Dinamarca, Escócia, Estados Unidos, Holanda, Inglaterra, Israel, México, Noruega, Porto Rico, Suécia e Suíça. Entre eles estão nomes como o de Gat, coautor do artigo publicado em 1979 por Salati e Eiichi; Irving Friedman, reconhecido como pai da hidrologia isotópica; e Peter B. Vose, químico britânico que foi diretor internacional da AIEA. Em parceria com Vose, Salati publicou outro importante artigo, desta vez na prestigiada revista Science, em 1984: Bacia Amazônica, um sistema em equilíbrio.
Você sabia que o CENA possuía dois barcos que foram construídos especialmente para facilitar as coletas de amostras nos rios da Amazônia? O primeiro deles, o Amanaí, ficou pronto em 1980; já o segundo, o CENA I, chegou a Manaus em 1990. Os dois foram posteriormente doados ao INPA - Fotos: Acervo CENA/USP
Essa intensa e extensa rede internacional de colaboração científica constituída na primeira década de vida do CENA possibilitou a circulação de ideias, recursos e materiais entre o Brasil e o mundo. “Apesar do fluxo de recursos das agências internacionais ao CENA, e a vinda constante de peritos estrangeiros que auxiliavam os brasileiros nas pesquisas, da elaboração dos projetos à interpretação dos dados, o fluxo de conhecimentos e técnicas não foi unidirecional. Pelo contrário, os experts do centro foram protagonistas na constituição de suas próprias agendas de pesquisa, em que os peritos internacionais desempenharam, na verdade, o papel de apoio”, revela Bailão. “Os brasileiros definiram as agendas de trabalho, os planos das visitas de campo e levantaram as principais hipóteses. Além disso, publicaram suas conclusões como autores principais em conferências científicas e em importantes publicações internacionais”, adiciona o pós-doutorando.
Mas Salati não se restringiu a levar os resultados de suas pesquisas ao conhecimento de outros cientistas, ele buscou ir além dos muros da academia e alcançar a população por intermédio de grandes veículos de imprensa. No dia 10 de setembro de 1978, por exemplo, ele publicou o texto Desmatamento e o ciclo da água na Amazônia no suplemento cultural do jornal O Estado de S. Paulo:
Arte sobre texto publicado no jornal O Estado de S. Paulo
Ainda que tivesse adotado um perfil combativo em relação aos projetos de desenvolvimento em vigor à época, Salati foi nomeado, pela ditadura militar, diretor do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa) em 1979, cargo em que permaneceu até 1981, e que voltou a ocupar de 1991 a 1992. Vale ressaltar que o fato de não ter sido aparentemente perseguido pelo regime, como aconteceu com diversos outros pesquisadores brasileiros, Salati tampouco conseguiu efetuar as transformações que tanto desejava em relação à ocupação da floresta.
Além de diretor do CENA de 1981 a 1985, Salati também exerceu o cargo de diretor do antigo Instituto de Física e Química de São Carlos da USP, de 1976 a 1979. Como consultor, atuou no Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), no Banco Mundial e na International Financial Corporation (IFC)
Em cena, Chico Mendes
Entre os inúmeros visitantes ilustres que o CENA recebeu ao longo dos seus 60 anos está o ambientalista Chico Mendes: ele participou de um painel realizado no dia 7 de dezembro durante a II Semana do Ambiente do CENA. Quinze dias depois, ele foi assassinado em Xapuri, no Acre - Fotos: Acervo CENA/USP
A voz do ambientalista e seringueiro Chico Mendes ecoou no Auditório Admar Cervellini, do CENA, apenas 15 dias antes de ser assassinado. Era 7 de dezembro de 1988, terceiro dia da II Semana do Ambiente, quando Chico participou do painel Desenvolvimento e ambiente, moderado pelo jornalista Randau Marques, do jornal O Estado de S. Paulo.
Segundo reportagem publicada no site da Fundação Perseu Abramo, naquele ano de 1988, a cada vez que proferia uma palestra e viajava de volta ao Acre, Chico sempre se despedia dos amigos como se fosse a última vez que o veriam: “Isso ficou muito patente nas palestras proferidas em Piracicaba, no Estado de São Paulo (7 de dezembro), e na cidade do Rio de Janeiro (9 de dezembro), quando, ao falar das ameaças de morte, frisou que talvez estivesse voltando para sua terra para ser morto”.
De acordo com Zuenir Ventura, autor do livro Chico Mendes: crime e castigo, o seringueiro acertou quando anunciou que ia ser morto, mas errou ao achar que sua morte poderia ser inútil: “Aquele estouro que Ilzamar [esposa de Chico] ouviu, no começo da noite de 22 de dezembro de 1988, chegou ao mundo todo. Nunca um tiro dado no Brasil ecoou tão longe ― até hoje.”
Matéria: Denise Casatti | Jornal da USP.


















