A arte que perde a centralidade
Com isso, a beleza e o sagrado se evanescem e nasce algo que não é mais a essência humana
Se a arte, em sua origem, carrega em si uma atmosfera religiosa mais intensa, o tempo fez com que o composto estético/sensível fosse se transformando, conforme a arte foi ganhando outras funções, a partir de novas perspectivas filosóficas do observador e do artista criador.
Essa mudança pode ser explicada como uma forma de secularização da arte. Não pelo fato de o elemento religioso desaparecer gradativamente de seu conjunto, mas sim, pelo fato de o religioso ganhar novas dimensões.
Hegel estuda o processo de mudança em sua perspectiva fenomenológica (Lições sobre a Estética). O aparente, o sensível e o religioso travam uma queda de braço com a idealização da arte, mediada pela filosofia de um novo tempo, de um novo homem.
A representação em si mesma ganha força diante da sensibilidade para trazer na arte a essência do que a natureza oferece de belo e maravilhoso, de espiritual e absoluto. A arte ganha em artifícios e perde em substância.
De acordo com Hegel, a arte moderna traz em si uma diferença enorme na sua relação com a religião. Ela deixa de apresentar e representar imediatamente o conteúdo religioso que possuía nas culturas antigas.
Conforme se acentua a mudança de perspectiva religiosa, com o protestantismo, a arte também envereda para um campo de racionalidade intensa, como se seus níveis de representação (arte/estética/beleza/religião/filosofia) perdessem em profundidade – um achatamento, talvez –, comprometendo seus níveis mais delicados.
Hegel vê, inclusive, o que ele chama de a morte da arte. Que quer dizer, em última instância, a transformação da arte como ela era conhecida, para que ela se torne outra coisa, explicável mais pela filosofia do que por seus elementos mais puros, que foram soterrados pelo processo de transformação histórica.
Críticos contemporâneos aproximam Hegel de uma teoria da secularização, uma vez que ele vê na transformação moderna o desaparecimento da transcendência da arte. Como se ela perdesse sua força como elemento fundamental para o culto e avançasse no estado de profanação, de perda do sagrado.
A dessacralização avança também pela filosofia. Leo Strauss aponta os momentos da história em que o pensamento filosófico foi perdendo sua perspectiva divina para ganhar em perspectiva humana (Introdução à Filosofia Política).
A partir do momento em que o homem se propõe a ser a medida de todas as coisas (Protágoras de Abdera), até mesmo a moral grega perde o sentido e ganha em projeção uma moral adaptável às circunstâncias, relativista.
Essa mudança de olhar se projeta para a arte e para o fazer arte. O religioso abandona gradativamente o centro das questões para a retórica (narrativas) se desenvolver com força. O verdadeiro sai de cena e, aos poucos passamos a vivenciar o mundo das fake news e uma arte que não traduz mais a essência humana.



