
Ayn Rand, pensadora bem conhecida por liberais brasileiros por suas obras como “A Revolta de Atlas”, escreve o livro Manifesto Romântico e ali, diz o que pensa sobre Arte. Seu conceito fundamental é o seguinte:
A Arte é a recriação seletiva da realidade de acordo com os julgamentos de valor metafísicos do artista.
A Beleza, para ela, é central, pois ela revela o prazer, mas um prazer diferente do de Oscar Wilde: enquanto ele vê a Arte como o espelho da Beleza presente no espectador eleito – espectador e espelho olham-se um ao outro, se refletem um no outro –, Rand encara a Beleza como uma visão de vida do indivíduo, que lhe dá prazer contemplar. Ela chama esse prazer de alegria metafísica ou amor à existência.
A obra de Arte para ela, portanto, é uma oportunidade do espectador contemplar não a si mesmo e uma beleza preexistente dentro de si, mas sim, uma visão própria da existência, em que o espectador não só assiste, mas é ativo, enfatizando o poder individual de construir o próprio destino – tanto como indivíduo, como ente de uma coletividade.
Rand encara a Arte, partindo de sua convicção de que o ser humano é capaz de construir seu destino, mesmo que a duras penas; e que as questões metafísicas - aquelas perguntas mais candentes e antigas da humanidade, que ela chama de julgamentos de valor metafísicos: de onde viemos, o que somos, para que estamos na terra, porque existe a morte etc. - estão no centro da atividade artística, tanto de produção quanto de contemplação, embora muitas vezes de maneira inconsciente.
Wilde não está preocupado, quando está definindo Arte, ou contemplando um objeto artístico, se ele irá lhe ajudar a debater sobre questões metafísicas; e sim, se a obra lhe causará prazer, mesmo que seja um prazer elevado, sofisticado, refinado. O esteta irlandês quer enfatizar, ou melhor, colocar o espectador e sua capacidade de aproveitar a obra de arte, com os sentidos corporais e as capacidades intelectuais como alvo de toda obra de arte. Um artista, portanto, faz sua obra para esse espectador preferencial, plenamente capaz de entender, sentir e aproveitar a obra em sua inteireza sensorial, intelectual e simbólica; isso é “eleição”. Para Wilde, tanto pior se a sociedade ou cultura onde ele está inserido não se importa ou não gosta dessa obra; quem fará o julgamento mais avalizado será este espectador eleito.
Rand não está preocupada com a fruição pelo espectador da mesma maneira que Wilde. No projeto filosófico da autora americana, ela coloca o indivíduo como protagonista, como reconstrutor do mundo em seus próprios termos. O indivíduo é o juiz supremo das mudanças.
Pode ser que Rand fosse vista como moralista por Wilde. Pois ela parte de sua posição filosófica objetivista (objetivismo é o nome de sua abordagem filosófica) para enxergar a arte, embora não condicione a ela a própria definição – que ao meu ver, é mais aberta que uma visão apressada sobre a autora nos permitiria enxergar. Mas um wildeano – certamente, não o próprio Wilde, me corrijo – diria que Rand está instrumentalizando a Arte para atingir seus fins – que seja, o de pregar a maneira objetivista de encarar, e viver, a vida. O que reduziria a Arte, novamente, ao papel de simples ferramenta.
Mas tanto Wilde quanto Rand prezam muito a liberdade, a deles mesmos, e a de seus interlocutores. Mesmo se Rand fosse vista como “finalista” pelo irlandês – ou por eventuais discípulos do escritor -, ele respeitaria nela seu imenso desejo de liberdade, por isso, respeitando sua ousadia de levar a Arte à realização de uma visão metafísica do artista – uma metafísica que tem alicerces na visão de liberdade da autora.
Mesmo não acreditando em realidades concretas transcendentes, espirituais – ela quer a realização das potencialidades do ser humano no tempo presente, na Terra, e não num Paraíso post-mortem – ela usa desta liberdade para propor uma definição sobre Arte que serve, inclusive, a abordagens filosóficas de linhas idealistas e transcendentalistas.
Pois a definição de Rand é muito útil até para quem não é objetivista. Quando liga a Arte à metafísica, ela amplia para além do materialismo, muito em voga na sua época e por todo o século XX, nossas possibilidades de dar um valor à Arte que nem imaginávamos, ou conseguíamos, ao menos nesta era moderna.
Procurar as origens e finalidades da nossa existência não se trata somente de busca para quem pouco ou nada para fazer – como diria minha mãe, de quem não tem uma louça para lavar, ou como diz meu pai, dos que não têm um terreno pra carpir. A arte, para Rand, é tanto melhor, mais enriquecedora, se o artista se dispõe a se inspirar por essas questões metafísicas; e nisso, ele será mais universal e atemporal que Wilde. Creio mesmo que o hedonismo e esteticismo do irlandês, se forem adotados por qualquer um como regra de vida – algo que Wilde fez, e levou até às últimas consequências -, são limitantes, redutores, e em última análise, um beco sem saída existencial.
Para mim, Rand não limita, e sim expande: não coloca, no momento da sua definição, nenhuma expectativa de onde o ser humano deva chegar – mesmo que saibamos, depois que lemos sua obra integral, qual monte quer alcançar - mas sim, de onde deve partir.
Necessário é deixar que a elevação metafísica guie, mesmo que inconscientemente, tanto a produção da obra de Arte quanto sua contemplação; a simples pergunta já é um ato de catarse, uma afirmação ativa de busca do transcendente. E isso se dá não só tirando-nos do cotidiano, do chão de nosso reles dia a dia, mas possibilitando uma visão do alto, panorâmica, como uma águia que vê a terra das nuvens.
Não sei se Ayn Rand chegaria, ou chegou, a conclusões como estas; diria eu, como cristão, que, falando somente da sua definição de Arte (e não da obra de Rand como um todo), ela não “briga” com concepções cristãs de Arte e beleza, ou pelo menos, não entra em conflito com elas em seu alicerce teórico.
Vejo mais possibilidades na forma como a criadora do objetivismo viu a Arte, do que no hedonismo e esteticismo de Wilde – que, me parece, pode levar o indivíduo, ou sociedades inteiras, a labirintos que sempre resultarão em becos sem saída existenciais.
Eu diria que a definição de Rand permite enxergar em cada obra de Arte um pedaço da realidade, recriado com a limitação dos materiais a partir da visão de um artista, preocupado em mostrar uma visão da existência; Rand nobilita o artista como preocupado com as questões últimas da vida humana sobre a terra, mas também nobilita o espectador, que contempla a obra de maneira ativa, não mais passiva.
E falando com uma linguagem não-randiana, diria ainda que a ordenação dos elementos estéticos na obra pelo artista permite-nos acessar essa realidade não só para prazer dos sentidos, mas também do intelecto e do espírito, tanto mais sofisticada for essa ordenação no sentido de provocar essas questões no espectador.
Isso é Beleza, que resulta na alegria metafísica, no amor pela existência. Abraço a visão de Rand sobre a Arte, com possíveis vieses, ou enriquecimentos, de minha base cristã filosófica e teológica: posso vê-la dizendo, alegre, como a Arte nos proporciona essa alegria, esse amor pela vida. Eu acrescento: especialmente quando admiramos aqueles milagres que chamamos de “obras primas”.
No entanto, cabe a você, leitor ou leitora, com sua convicção e valores, dizer o que ou quem causa esses milagres, quais são os propósitos deles existirem, e para onde eles nos levam.


