Um texto de Oscar Wilde encanta as pessoas há gerações: o prefácio do romance “O Retrato de Dorian Gray” (clique aqui para lê-lo). Melhor, o que as encanta de verdade é somente uma frase da abertura:
A Arte é completamente inútil.
Essa frase é uma síntese muito feliz da forma como Wilde pensava, agia e encarava a Vida, e não só a Arte. O irlandês, autor de textos, hoje clássicos da língua inglesa como “O Fantasma de Canterville”, “A importância de ser Prudente” e o romance com Gray (muito antes dos muitos tons de cinza), foi um dos defensores da “Arte pela Arte”: não há outro motivo para uma obra de Arte existir do que ela mesma.
Para o dândi, não deve haver outros motivos para se pintar quadros, esculpir estátuas ou outras formas de Arte senão o de provocar o prazer do espectador.
De forma muito resumida, Wilde pode ser encarado, quanto à arte, como um hedonista – aquele que prioriza a busca do prazer na vida. O esteticismo – a maneira de enxergar beleza em tudo – aliada ao hedonismo, gera sua forma peculiar de viver a vida. Que está direcionada para a busca do prazer através da beleza, e a Arte, para ele, era talvez a forma mais sofisticada e elevada para ser
Essa maneira, que hoje nos soa como afetada, cheia de maneirismos, um olhar blasé para tudo e todos, um tédio pelas coisas cotidianas e comuns, além de estar ligado a pessoas que não precisavam trabalhar, pois tinham dinheiro para buscar a Beleza e o Prazer na vida, é o que levou, na época de Wilde, a lhe chamarem “esnobe” (snob).
Na superfície, as pessoas viam Wilde como alguém preocupado exageradamente com roupas, elegância e a aparência pessoal. Associou-se a ele o adjetivo “dandy”, que não tem tradução exata em português; mas chamavam-se os homens com as mesmas preocupações, na cultura brasileira, de “almofadinhas” ou “janotas”. Ou ainda, “dândi”.
Não podemos reduzir Wilde, porém, a um dandy snob, como se fosse um metrossexual, ou ainda, para o que têm preconceito, um homossexual enrustido numa época em que sê-lo declaradamente era crime na Grã-Bretanha, onde o escritor nasceu e floresceu. Wilde foi um dos maiores escritores, senão da literatura europeia, mas de todos os tempos; e como autor, sabia muito bem do que estava falando, e dialogou com toda a tradição sobre Arte, literatura e filosofia da arte. Como fazem os grandes escritores.
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Wilde buscava a Beleza absoluta. E para ele, ela devia ser desinteressada, para ser pura. Aquela que existisse, na forma de Arte principalmente, não devia gerar trabalho, nem utilidade, nem dinheiro. E esta Beleza era alcançada pelo espectador perfeito, que ele chamou de “eleito”.
No texto que antecede “O Retrato de Dorian Gray”, a história do homem que recebe o presente da Beleza encarnada em si mesmo, mas com seus pecados ocultados num espelho, apresenta-se a visão moderna da Arte como um fim em si mesma, e não uma ferramenta para ensinar, para dar “lições de moral”, para “formar cidadãos conscientes”.
Wilde teria concretizado, em seu texto, a ideia já corrente em sua época, de que a Arte deveria ser libertada da servidão utilitarista. Pois para Wilde, o indivíduo é soberano, e mesmo quando propõe o socialismo, é para libertá-lo das tarefas cotidianas que o impedem de aproveitar a Beleza.
Seria o grito dos que querem consumir todas as artes somente para seu prazer individual. Como bom esteta, que só visa o autodeleite, Wilde declara neste prefácio que “Um livro não é moral ou imoral. É bem ou mal escrito. Eis tudo.”
A Arte existiria para ser usufruída, e não para ser usada como ferramenta: “Um artista é um criador de belas coisas”. E as obras de Artesão “belas coisas” que revelam a Beleza, com “B” maiúsculo, para os eleitos: “Para os eleitos é que as belas coisas significam simplesmente a Beleza”.
E a finalidade desta Arteque não deve ter utilidade é ser uma ponte entre a Beleza e o espectador “eleito”, que irá reconhecer, por fim, a Beleza nele mesmo: “É o espectador e não a vida que a Arte realmente reflete”.
A Arte pode prescindir da Moral. Ela pode estar dissociada da Beleza, ao menos naquela revelada pela Arte:
“A vida moral do homem forma uma parte do assunto do Artista, mas a moralidade da Arte consiste no uso perfeito de um meio imperfeito. (...) O Artista não deseja provar nada. Mesmo as coisas verdadeiras podem ser provadas.
O que importa mesmo é a lógica do funcionamento interno da obra de arte, e ela basta a si mesma, enquanto espelho (de Dorian Gray?) do espectador eleito: “O vício e a virtude são materiais.”
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Confesso que também fui fascinado pelo texto do criador de Dorian Gray. A forma como ele usa as palavras para falar das possibilidades da “Arte ser” isso ou aquilo, ou de servir para tal e tal objetivo, tem o poder da Arte divinatória de um poeta. De alguém que leu Shakespeare, e o entendeu, mesmo que com sua leitura muito pessoal . Tudo o que ele diz neste prefácio faz muito sentido e até podemos nos convencer de que o que defende é verdadeiro, se estivermos falando somente de literatura, é claro.
Mas não se trata somente de literatura – não como um mundo isolado da realidade concreta. O que antigamente chamava-se de “torre de marfim”. O papel aceita tudo, e ainda bem que é assim, pois do contrário, estaríamos privados das obras de Arte de autores como Wilde. Ele, no entanto, como bom moderno, usa muito bem da retórica, torcendo o sentido das palavras para que elas sirvam às suas crenças.
Havia Arte moralista na época de Wilde, tanto que a época em que faz parte, a “era vitoriana”, é identificada com esse moralismo em tudo, e não só na arte. A literatura naturalista é um bom exemplo: entre nós há o “O Cortiço” de Aluísio de Azevedo, história e tratamento do assunto que hoje chamaríamos “denúncia social”. Que moralizava não através da religião, mas através da Ciência, ou melhor, do que se acreditava ser Ciência por meio de um darwinismo social meio atravessado.
Wilde odiava esse tipo de arte. Assim, diz em seu prefácio, que “o vício e a virtude são materiais” e “O Artista não tem simpatias éticas. A simpatia moral num artista traz o maneirismo imperdoável do estilo. O Artista vê e pode exprimir tudo.”
Quando ele conclui o prefácio dizendo que a Arte é completamente inútil, pensa na Arte moralista de seu tempo – que hoje, realmente, nos parece datada, longe do universalismo e atemporalidade shakesperiana. E nesta operação, induz a erro muita gente, que pensa Wilde estar dizendo que não há absolutamente utilidade alguma na Arte, nem mesmo filosófica. Não servir a um fim moralista ou utilitário (no sentido de produzir ou auxiliar num trabalho) não é o mesmo que não servir a fim algum.
O autor quer declarar o seu amor pela Beleza e sua busca pessoal por ela. Que lhe irá proporcionar prazer pessoal, e não uma vida de virtudes, nem uma sociedade melhor, nem qualquer outra finalidade. Outras pessoas que queiram acompanhá-lo, o farão exclusivamente para alcançarem, também eles, seu deleite individual. Isso significa, em última análise, sua busca pela Beleza: Wilde não está preocupado com utilidade, em gerar trabalho, lucros, riquezas, benfeitorias, caridade, ser uma pessoa melhor no sentido das pessoas que seguem estoicismos ou religiões, muito menos em ser salvo do Mal, da Morte ou da perdição, a não ser no sentido em que isso o afaste da Beleza.
Mesmo quando Wilde, num outro livro, “A alma do homem sob o socialismo”, vai elogiar a Arte como “a mais intensa forma de individualismo que o mundo conheceu”, não parece muito preocupado com a utilidade social da Arte. Digo “utilidade social” e penso nos valores, ferramentas e pensamentos que tornam possível que pessoas convivam juntas, que é também uma definição válida para “cultura”. O papel da Arte como uma das “colas sociais” que faria esse papel parece não interessar muito ao dândi.
Pode parecer contraditório para quem lê o romance de Dorian Gray verificar que Dorian Gray sente culpa por manter sua juventude e beleza em troca dos pecados e imperfeições de caráter que ele não se preocupa em resolver ao longo da vida. E que essas falhas estão patentes no envelhecimento, que para Wilde significa também feiúra. O retrato pintado por Basil Hallward, que é elogiado por todos como fidelíssimo ao modelo, imita tão bem a aparência de Gray que toma para si até mesmo seu caráter, na verdade, o substitui e assume até os efeitos do tempo. Não só na aparência física, que se degrada como um ser humano faria, mas também revela que Gray não muda seu caráter.
Gray se consome pela culpa de não envelhecer e se manter com a graça e beleza da juventude, mas também por não mudar sua vida de vícios. Wilde estaria, como Hamlet, “estendendo um espelho à natureza”, usando para isso o recurso da fantasia literária?
O pecado de Dorian Gray seria aceitar que a Arte “serve para alguma coisa” além da própria busca da Beleza? Ou que o ser humano não pode, por impossibilidade física, encarnar a Beleza eternamente, pois esse papel estaria reservado à Arte – que no caso de seu retrato “mágico”, seria tão fiel à Natureza que até acompanharia suas alterações físicas mas não de caráter, porque este não muda – uma declaração de que a tragédia humana é encarar, desde que o mundo é mundo, tudo o que lhe acontece sem melhorar em virtudes muito menos em sabedoria?
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Embora pareça que o prefácio do romance seja um “fechamento de questão”, a história em si levanta perguntas em vez de responder qualquer dúvida. Podemos falar até que Wilde levanta a bola para pensarmos sobre a nossa fuga contemporânea através da Arte – não só pela Grande Arte, como queria Wilde, mas de quaisquer formas artísticas que se possa consumir hoje – magnificada pela internet e a facilidade em ter acesso a elas.
Hoje, as expressões artísticas soariam para o dândi como o Lobo mau, vestido de vovozinha da Chapeuzinho Vermelho: tem focinho de lobo, patas de lobo, garras de lobo, mas quer parecer a vovó, e assim se declara.
Pois o prazer que Wilde perseguia era, em última análise, uma forma de elevação – embora não uma elevação que pretendia chegar além do próprio indivíduo. Nesse sentido mais superficial, poderíamos dizer que o mundo, hoje, é wildeano, na sua busca pelo prazer através do consumo de expressões artísticas.
O prazer que o mergulho no mundo editado de uma obra de Arte proporciona – um romance, um filme, uma pintura, uma sinfonia ou uma canção pop – é muito sedutor, e é nessa tentação que o mundo moderno mergulhou de cabeça. O esteticismo de Wilde tornou-se um ponto de partida para fugirmos para territórios seguros que a Arte cria. A frase que Monteiro Lobato escreve, em uma de suas cartas a Godofredo Rangel, “Ainda acabo fazendo livros onde as nossas crianças possam morar”, é moderníssima. Mas nem Wilde imaginaria que chegaríamos a esse mundo: ele ficaria extenuado se colocasse em marcha, em pleno século XXI, uma busca por pessoas com preocupações quanto à Beleza purificada como a entendia.
Pois, como queria Lobato para sua própria obra, há muitos outros mundos criados pela Arte e para qual as pessoas não só habitam, mas para onde fogem e neles habitam. E não trata de encontrar o mundo perfeito de uma Arte elevada, mas universos inteiros: Star Wars, Star Trek, Harry Potter e Percy Jackson, canções dos Beatles, Michael Jackson, músicos de MPB, BTS, Raul Seixas, os livros de J.R.R. Tolkien, a “Nárnia” de C.S.Lewis, telenovelas e séries de streaming. A lista é quase infinita; milhares de outros exemplos se encaixam.
Muitos, senão todos, seriam rejeitados por Oscar Wilde pela baixa qualidade artística. Ele constataria que esses espelhos, presentes no século XXI na nossa cultura, refletem de forma muito embaçada e distorcida alguma Beleza, mas longe de “estenderem um espelho à natureza”, refletem melhor mundos de imaginação pessoal, por vezes adoecidos, fracos e autorreferentes.
Ironicamente, esses espelhos, criados sobre as diretrizes wildeanas do hedonismo artístico, hoje são usados não só para o prazer, mas porque as pessoas procuram neles... orientações de como viver suas vidas. Enfim, o círculo deu a volta e voltamos à moral e aos costumes. Em sua face woke / politicamente correta, um moralismo tão rigoroso e condenatório quanto o moralismo vitoriano que Wilde condenou, e do qual foi vítima.
Mas temos de tudo, para todos os gostos e desejos de “ser a melhor versão de si mesmo”. São lugares os mais variados, onde o público procura “manuais de como viver”, onde os próprios criadores só viram fontes de diversão, entretenimento e dissipação. Obras de Arte como ferramentas de sabedoria e orientação de vida retornam como ilustradoras e difusoras de modos de vida e respostas para questões tão velhas como a vida sob o sol.
Na parte 2 deste artigo, concluo o raciocínio, apresentando a visão de Ayn Rand, em confronto com a visão de Oscar Wilde sobre a Arte.



