Tem dia que a noite é assim mesmo, diria meu amigo Bonilha. No tempo do Bar Mascote, fazíamos coisas completamente ridículas, achando que éramos artistas, poetas, escritores. Mas eram apenas coisas ridículas.
O desafio era escrever um texto diferente e arrisquei-me, sem imaginar sequer no que daria. Saiu este texto surreal, que foi publicado na Revista Viletim, em abril de 2001.
Era a primeira revista da série. Tínhamos que provocar. Sem me defender mais, apenas republico a crônica e deixo para o leitor perceber o grau do surrealismo que nos comandava.
A inspiração veio do teatro do absurdo, em especial de Jean Genet, que mostrava muito os marinheiros, o submundo dos portos.
Quem ilustrou o texto? Claro, Fábio San Juan. Ele estava sempre junto quando pensávamos alguma barbaridade.
Segue o texto original:
Quando ele colocou o pé direito sobre a mesa, a expectativa geral era de que alguma coisa ridícula estava para acontecer. Mas seu gesto foi contido pela sua tia Eunice que, num ímpeto de lucidez segurou-o pelo ombro e sussurrou em seu ouvido:
- Eu arranco a cabeça da boneca se você continuar se comportando como um bailarino do cais.
Ele olhou firmemente para a tia e beijou-lhe os lábios umedecidos pelo licor de manaxe que ela consumia em doses calibradíssimas.
- A boneca já perdeu a cabeça há muito tempo. A não ser que você esteja se referindo a este maldiçoado vodu que você traz no bolso do sobretudo.
Ele enfiou agilmente as mãos no bolso direito do casaco preto de Eunice e pegou um tubo cheio de cápsulas coloridas. Abriu-o e roubou duas cápsulas azuis e colocou-as na boca.
Sem saber reagir, Eunice notou a euforia das pessoas que estavam assistindo à cena. Uma delas gritou:
- Lance fora essa dinamite e deixe a noite explodir diante dos olhos de cada um de nós com todas as cores da turbulência.
Vendo a postura ébria da tia, Fred achou melhor devolver-lhe o remédio.
- Você está precisando de mais um retoque. Seus olhos nunca estiveram tão decifráveis, disse ela.
Aproximou-se dela com a boca aberta. Ela, entendendo a intenção do seu animal de estimação, segurou-o pelas orelhas e sugou todo o conteúdo da sua língua.
- Assim você quase me sufoca. Deixe-me ao menos retribuir esse gesto com esta poesia, que escrevi exclusivamente para esta noite, disse Fred.
Com a voz postada, andando para lá e para cá, fingindo lucidez, recitou a:
A força que estava naquele gesto roubado
O peso do ar foi maior que o espasmo premeditado
E tudo soa como se fosse artifício com uma mesma finalidade inelutável
E você insistia em me ver antes da noite provocar o movimento
Em tudo está o presente ofertado por engano.
Todos ficaram em pé para aplaudi-lo, mas ele enfiou o pedaço de papel no bolso do casaco e retirou-se, abruptamente, demonstrando que tudo nele soava premeditação.
A tia seguiu-o com os olhos. Antes de atravessar a porta que daria para o escuro da noite, virou-se para ela e disse:
- A boneca deseja mais um conhaque?
Eunice correu para socorrê-lo, porque não era isso que tinham combinado. E ela sabia muito bem que o resultado seria fatal. Mas quando alcançou seus passos, o escuro da noite já havia arrancado os olhos dele, exatamente como ele havia planejado.




