A censura não resolve, apenas maquia o problema
As bets precisam entrar na cultura coletiva apenas como lazer, como brincadeira, coisa para se fazer esporadicamente.
A quantidade de viciados em bebidas alcoólicas no Brasil não teve força o suficiente para restringir a venda delas em qualquer boteco de esquina. A loucura daqueles que arrebentam o orçamento doméstico com as bets teria força suficiente para fechar as bancas de apostas?
Podemos usar como exemplo também o cigarro. Após tanta campanha contra o vício, depois da obrigação de os próprios maços trazerem a informação de que eles são letais e causam câncer, qual é a censura real para que as pessoas deixem de consumi-los?
Suponho até que as bets movimentem mais dinheiro do que as fábricas de bebidas alcoólicas, não tenho a menor ideia. Independente disso, quais seriam as chances de elas serem impedidas de atuar no país e com quais argumentos? Suponho que muito baixas, se for uma decisão democrática.
A solução para conter o vício e o descontrole, creio, é a educação escolar e familiar. As famílias organizadas costumam ter um freio interno para aqueles que extrapolam seus limites. A mãe e o pai estão sempre de olho para saber se o filho ou a filha está fumando escondido, se está consumindo álcool fora do controle. Aí sim funciona a censura.
Mas nem sempre a ação familiar é suficiente. Na média, funciona porque está baseada na moral, na religião e na tese que o filósofo Cortella costuma afirmar em suas palestras de autoajuda: “Nunca faça aquilo que você não possa contar para a sua mãe”. A consciência pesa.
Valores morais são fundamentais e devem valer também para os jogos de azar. Está claro que as bets são eletrizantes e parecem inofensivas. No entanto, sabendo brincar com elas, não vejo problemas. Assim como uma bebida bem-feita de vez em quando também é um atrativo especial para o lazer. O cigarro já é um caso mais complicado, mas creio que não seria tão devastador quando seu consumo é mínimo. Não tenho informações médicas para sustentar isso.
No âmago desta conversa toda estão o vício e o descontrole, que são demolidores quando associados. Mas não é porque certas pessoas se viciam que as padarias deixarão de vender sonhos. E o açúcar também é um ingrediente letal se consumido em excesso e se a pessoa tem propensão à diabetes.
A lógica é o equilíbrio, que precisa ser alcançado com muita persistência, com muita conversa, com muita cobrança, com muita vigilância, com muita educação. O mundo é mesmo perigoso para quem não tem controle de si mesmo e de seu potencial para se viciar.
Tudo isso para falar das bets. Em tese, bebida alcoólica não pode ser vendida para crianças. Cigarro não pode ser vendido para crianças. As bets são obrigadas a impedir que as crianças joguem. Onde está o problema? Penso que na desordem familiar, no desequilíbrio psicológico, na falta de bom senso das pessoas que extrapolam seus limites.
As crianças precisam ser educadas para alcançar esse ponto de responsabilidade sobre si mesmas. Só assim estarão a salvo. Fechar a porta das bets não resolverá o problema, porque ninguém controla o que é clandestino. A clandestinidade é o caminho natural do que pode dar muito dinheiro. Olha que nem falamos das drogas ilegais. Mas a palavra final, no meu entender, é que a censura oficial não ajuda em nada, pois não é educativa e ela apenas maquia o problema.





