Para quem já conhece, parabéns. Pode se considerar um privilegiado. Não existe obra tão brilhante quanto A Chuva Imóvel (1963) na literatura do gênero, escrita pelo mineiro de Uberaba, Campos de Carvalho. Minto. Existe sim. São elas: A Lua Vem da Ásia (1956), Vaca de Nariz Sutil (1961) e O Púcaro Búlgaro (1964). Todas, evidentemente, do mesmo autor. No entanto, A Chuva Imóvel é o lume que revela a escuridão humana. A nossa escuridão.
A Chuva Imóvel é um livro existencialista. Não passa perto de Sartre. Eu diria que é muito superior às obras do francês pelo humor infinito de Carvalho e sua capacidade de brincar com o absurdo. Um absurdo que só um mineiro como ele poderia dominar com tanta destreza. É um existencialismo mineiro, um exercício de contradições e impossibilidades, como o próprio título da obra deixa evidente. Segundo os críticos, é a contradição que marca a existência do narrador.
Cá com o meu senso comparativo e humor desvairado, pensei em Campos de Carvalho quando eu estava elaborando uma forma de analisar a eleição presidencial deste ano. Há um sentimento antigo, arraigado em jovens como eu, que já passaram dos 60, de que o Brasil é incorrigível. Gosto de lembrar também a tese de Stefan Zweig, de que o Brasil é um país do futuro. Mas vejo essa expressão pela ótica de Campos de Carvalho. Porque se trata de um futuro que fica em lugar algum, como se o buscássemos no escuro e, mesmo que o alcançássemos, jamais saberíamos sê-lo.
A eleição presidencial, por sinal, é uma chuva imóvel. Nem mesmo o autor mineiro com seu astrolábio cabalístico conseguiria dimensionar o amanhã das urnas envolto em tantos absurdos. Quem é mais perigoso do que Lula? Quem é mais perigoso do que Flávio? Meus heróis de jogatina em questão brincam com a roleta dos outros e fazem riqueza sequestrando o crupiê, corrompendo o crupiê. Eles são o crupiê e são os jogadores, ao mesmo tempo. As fichas são nossas e eles as levam, todas, com a destreza de um ilusionista.
As minhas frases de efeito não fazem mais efeito algum. Como A Chuva Imóvel de Campos de Carvalho, que marcou os anos 1960, década em que eu nasci. Esta é a mesma década em que O País do Futuro foi decididamente engolido pelo buraco negro de Brasília. Hoje vivemos o sonho de entender algo que não carece mais de qualquer esforço cognitivo. Somos um país sem enigmas a serem desvendados, como diria Adorno. Somos também o país do futuro enterrado com Zweig, nos anos 1940. Lá fora, uma chuva imóvel em um país que continuará sendo o mesmo, mesmo que haja qualquer mudança, o que é imprevisível de tão óbvio.





