A diferença que você me faz
Sobre como politicamente correto pode virar uma corrente com cadeado para o pensamento, mesmo com toda boa intenção
Em filosofia, é preciso ter cuidado com as ideias fechadas e também com as ideias muito abertas. Os extremos costumam dar em bobagens, ideias fixas e até perigosas. Mas a flexibilização não é apenas uma questão de saber jogar, mas de entender.
O fato de entender, no entanto, não quer dizer que se tenha chegado à verdade, mas que se dispõe de instrumentos para a reflexão e pode-se contribuir para o desenvolvimento criativo e honesto de novas ideias importantes para o conhecimento humano.
Em um mundo pautado pelo politicamente correto, pelas teses de minorias, é muito comum se perder em clichês e pensamentos enrijecidos mais autoritários do que se imagina. Em uma conversa no Sesc Piracicaba, por exemplo, eu falei sobre os índios brasileiros.
Meu Deus, a moça que representava a instituição me disse que não se usa mais o termo índio e sim, indígena. Eu disse a ela que a maioria dos clássicos que tratam do assunto fala em índio, sem problema.
“Aqui no Sesc, seguimos uma orientação que procura a linguagem correta para evitar a continuidade de ideias discriminatórias”, ela me disse. Eu respondi que não seguiria a cartilha do Sesc, mas sim os ensinamentos de Caio Prado Júnior, Sérgio Buarque de Holanda, Antonio Cândido, entre outros.
Se você pesquisar na IA, o politicamente correto está presente e não encontrará mais índio, apenas indígena. Como se essa mudança fizesse desaparecer um mal incurável da história brasileira. A ideia de reparação histórica também está presente em todas as universidades.
É muito difícil, por exemplo, falar sobre o negro, porque vem junto a escravidão e você acaba sendo envolvido em um passado sombrio, como corresponsável por tudo o que aconteceu desde o primeiro navio negreiro aportado no Brasil. Não basta você ser responsável por você mesmo e pelo seu futuro, não basta respeitar as pessoas pelo que elas são: seres humanos como cada um de nós.
Um exemplo de conversa. Eu defendia que alimentar a diferença entre pretos (negro é melhor?, já não sei) e brancos é uma forma de segregacionismo e não de reparação. A régua deveria ser por algo que abrange a todos, independentemente da cor da pele, como a pobreza, por exemplo. Todos os pobres precisam ser ajudados de alguma forma para sair da pobreza e isso passaria pela educação.
Ter direito à educação de qualidade deveria ser a base para tudo, unindo pretos, pardos, brancos amarelos, enfim, sem insistir na ideia de que o preto tem que ser tratado de forma diferente. Ele tem que ser tratado como os demais, com o mesmo respeito e consideração. O resto é conversa fiada. É racismo travestido de reparação.
Claro que estatisticamente pode-se confirmar que a maioria dos pretos é mais pobre, como já cantava Caetano Veloso. Mas isso não muda em nada. Eles seriam somente a maioria nas escolas de qualidade e nos projetos de desenvolvimento socioeconômicos oficiais para esse público que mais precisa de ajuda. O que acontece hoje é a insistência em teses politicamente corretas e as crianças acabam por não aprender nem português nem matemática.
Cito apenas alguns exemplos, para chegarmos a um denominador comum, de unidade e não de divisão. Está bem, vamos chamar os índios de indígenas. Isso melhorou em alguma coisa a vida dos nossos primeiros habitantes do país?
Para encerrar, vamos falar dos famosos “povos originários”. Isso é uma balela, porque não existiram povos originários no Brasil. Todos vieram de algum outro lugar. A antropologia e a arqueologia explicam isso. Eu posso até dizer que os estudiosos dessa questão estejam equivocados, mas quem nos garante algo diferente? Apenas a fantasia não é suficiente.
Que os indígenas (vamos aderir para não arrumar briga por tão pouco) foram os primeiros a viver em terra brasilis, estamos combinados, até que se prove o contrário. Mas a questão central não é essa. É a loucura humana para descobrir e dominar, que até hoje perdura. Veja Trump, veja Putin, veja Xi Jinping. Ele estão aí, os homens insensatos, que não querem apenas o poder, mas sim, controlar corações e mentes.
O politicamente correto é um discurso de ditadores. Claro que estou defendendo aqui a integridade humana, o respeito e consideração, independentemente das ideias de cada um. Só destaco o fato de que tenho o direito de ser politicamente incorreto, porque o pensamento humano não pode ficar preso em caixinhas de bom parecer, senão seremos sempre vítimas de pessoas perigosas sem que percebamos.



