O romantismo e a dor dos homens
São pensadores que invadem o inconsciente humano e fazem um diagnóstico da opressão
Thomas Mann é um escritor incomparável. O que ele coloca no papel tem nobreza. É sofisticação estilística e profundidade. O alemão não apenas domina o que escreve, como sabe desenvolver seus ensaios para que o leitor mergulhe com ele em um oceano de ideias e beleza.
Seus ensaios sobre Nietzsche, Wagner, Schopenhauer e Freud são uma aula de modernidade. Faz parte do que se chama obras não-ficcionais do mestre, em que ele capta argumentos sofisticados, coerentes e vívidos, formatados em um ambiente cultural que ele conhece muito bem pela proximidade temporal. Pelas suas mãos, acompanhamos um raciocínio brilhante.
Para entender a relação entre todos esses pensadores, o primeiro passo é descobrirmos como operava o pensamento romântico alemão, matriz do pensamento dessas figuras lendárias. Revelam-se então a natureza, a liberdade, a força viva que participa do embate entre o homem e seus desejos para forjar uma cultura de dor e sofrimento.
Thomas Mann vê nesse duelo entre homem e natureza a matriz da reflexão de Nietzsche, que retrata uma sociedade composta por seres submissos, que não conseguem se livrar da força esmagadora que os controla.
Ao invés do enfrentamento em campo aberto, com ideias de liberdade, o homem escolhe ideias que o protejam da voracidade da vida aberta e se torna refém de princípios que o corrompem e o oprimem, construindo desejos subvertidos, artificiais e doentios.
Todas as suas obras pegam uma faceta deste homem diminuto, que precisaria se livrar do sufoco da opressão e colocar a força voraz da vida a seu favor, como um super-homem. Suas críticas ao cristianismo, por exemplo, são uma dessas forças, pois para ele a religião opera como um escudo, arquitetado por ideias de submissão, que além de isolar o homem da realidade, o condiciona, negando a ele sua própria realidade e o impedindo de ser livre.
Mesmo assim, o pensador alemão chega a elogiar o cristianismo pela sua habilidade para construir um local de conforto para a alma humana, com pensamentos elevados e eficazes.
Os grandes líderes são vistos como modelos possíveis nas circunstâncias dadas de homens livres, pela sua grandiloquência. Por isso se faz relação entre Nietzsche e Napoleão ou Nietzsche e Hitler, sem sequer saber que o pensador nunca imaginou defender ditadores, mas sim, homens capazes de vencer qualquer tipo de controle dos seus desejos e capazes de viver a vida com desenvoltura e criatividade.
Freud capta os impactos dessa submissão tratada por Nietzsche e observa como eles fragilizam o inconsciente, forçando-o a se adaptar à crueldade externa, controlando os desejos humanos, redesenhando assim um ser preso a uma conduta patológica e oprimida.
Quando menos se espera, o homem está adoecido e escondido em várias camadas de códigos que ele não consegue mais decifrar, mas que o transformam em um ser menor encolhido entre sua capacidade de reagir selvagemente ao que lhe provoca e sua habilidade para se calar diante da moralidade que simplesmente o condiciona a algo que ele não é.
São muitas as doenças observadas por Freud, com variações do inconsciente, que precisariam ser tratadas em um divã. Tratam-se, segundo Mann, de pensadores iluministas, que acreditam no poder da racionalidade para romper as barreiras que aprisionam os sentimentos humanos e os fazem sofrer.
Não está longe dessa linhagem o filósofo Schopenhauer, que escreveu inclusive manuais para a juventude saber se cuidar diante da vida. Ele analisou as variações de sentimentos que podem afetar o homem fragilizado e o expor às dores do mundo. Para todos esses pensadores citados, há uma natureza selvagem que age à revelia do ser, e o homem, como ser, precisa saber disso e não se curvar às manifestações avassaladoras dessa natureza que provocam assustadoramente o desejo humano.
Por sua vez, Richard Wagner faz música dessa força destruidora da natureza e cria seres imaginários que vivem nesse movimento, sempre enfrentando adversários ocultos em cenários deslumbrantes, como aqueles criados a partir de sua obra icônica, a “Cavalgada das Valquírias”.



