Na minha infância, o presente de Natal mais desejado pelos meninos era bola de futebol, dessas de couro, número cinco. Uma bola era festa para cinco crianças, só em casa, e para 20, no campo de futebol da Esalq. Sim, ficava na Esalq o nosso campo de futebol oficial.
As meninas ganhavam bonecas, dessas grandes, das que davam para tirar e pôr roupas vistosas. Só que o capricho com as bonecas ia até o sexto dia. No sétimo, elas perdiam os braços, as pernas e o lugar de exposição, sentadas sobre algum móvel da casa.
Se os meninos encontrassem uma boneca sem braços nem pernas jogada em um canto da casa, tiravam dela também a cabeça, que virava bola de futebol. Ao fim e ao cabo, tudo para os meninos virava bola de futebol. Porque a bola, propriamente dita, acabava furando em um coqueiro que ficava ao lado do nosso campo oficial, só esperando para nos causar esse dissabor.
Consertar bola de couro era caro, e o próximo Natal estava sempre muito longe. Era preciso improvisar. Na quadra da escola, digo, Jaçanã, havia, sim, alguns visionários que levavam no bolso do jaleco uma bola de meia. Mas, caso não existisse a bola de meia, uma pedra qualquer era a bola, e o jogo seguia, em alto estilo.
Uma pedrada na canela, devido a um chute em direção ao gol, era normal. Mesmo uma pedrada na cabeça não chegava a ser o final do mundo. O pior era quando não havia nem pedra/bola. Aí, sim, perdíamos a cabeça.
Uma vez, algum esperto inventou de roubar manga na chácara vizinha à quadra nos intervalos de aula e isso virou moda. O muro era muito alto, e o aluno precisava ser ninja para cumprir a função. Os demais ficavam na torcida, em cima do muro. Corri várias vezes o perigo de ser mordido por um pastor-alemão, mas nunca desistimos de uma aventura daquelas.
Outra coisa possível era jogar bolinha de gude na parte de terra da escola. Chegávamos em casa com o jaleco imundo. Minha mãe nem falava nada. Colocava a roupa branca no tanque, fervia no latão, e estava resolvido. O mundo, para nós, era redondo. Esta era a figura geométrica que dava a dimensão da nossa existência. Até que cresci e descobri que, de fato, existiam outras formas geométricas.




