Todo filósofo procura uma forma distinta de abordar a filosofia, de acordo com suas preocupações e interesses. Alguns elaboram, de uma forma ou de outra, ideias no afã de contribuir com o avanço do conhecimento. Mas, nesse terreno carregado de sutilezas, dúvidas e vaidades, há aqueles que acabam, sem pensar nisso, ou até de forma deliberada, por fincar estacas em pontos nevrálgicos da teoria filosófica a partir dos quais nascem controvérsias infinitas e dissensões entre seus pares. Rupturas praticamente incontornáveis.
A depender da habilidade argumentativa, temos a impressão de que tais pensadores trabalham com um material de fácil manuseio, com teses verdadeiras e estão em posse mesmo de algo novo e inquestionável, que vai virar tudo de cabeça para baixo. Mas quando avançamos um pouco mais com a lente da reflexão, descobrimos que seus argumentos estabelecem apenas novos limites, sem romper necessariamente com o passado, e todo passo seguinte vai continuar gerando novas dúvidas e apreensões.
Kant é um pensador bem simbólico para explicar o que tento escrever. Quando ele assume a tese de Protágoras, de que o homem é a medida de todas as coisas, dá um sentido para sua teoria crítica. Seus argumentos tornam-se robustos e convincentes. Mas as verdades que ele parece alcançar se desmancham no ar rapidinho. Nem por isso deixam de se perpetuar e construir novas linhas de pensamento para a filosofia.
De forma bem caseira para esta ocasião, recordo que Kant entende que a natureza, como objeto do conhecimento humano, é aquilo que elaboramos racionalmente sobre ela. Segundo ele, não temos acesso à natureza como ela é de fato, o que ele chamava de ‘coisa em si’, pois está fechada para nós. Nossa capacidade se limita, portanto, a construir uma natureza explicável por nós mesmos. Autoexplicativa, eu diria.
Ou seja, Kant considera todo o conhecimento humano fruto dessa elaboração do ‘logos’. Uma construção do intelecto. Em sala de aula, costumávamos dizer que Kant fez um serviço monumental para nos separar da natureza, construindo uma muralha no meio do caminho.
Sendo assim, Kant acabou dividindo de forma inusitada a filosofia em dois campos bem distintos e antagônicos: daqueles que seguem Aristóteles, e consideram a natureza em si nosso eterno objeto de estudo científico, em outro polo, temos Platão, argumentando que há uma forma acima da nossa capacidade de entender o ‘mundo sensível’ (a natureza) que nos permite não sermos enganados pelo que é mutável (a coisa em si), a qual só gera dúvidas e incertezas quando encarada diretamente. Por isso precisamos refletir sobre a verdade, que nasce desse exercício dialético.
O que era para ser complementar e amigáveis, Platão e Aristóteles tornam-se rivais para muitos das novas gerações de filósofos. Na academia tem muito aluno de filosofia que não lê mais Platão nem Aristóteles. Consideram que eles estão mortos e não são mais base para coisa alguma. Essa postura horrenda gera um vazio assustador no campo da teoria e muita distorção. Há ainda a galera que tenta adaptar tais pensamentos para o mundo moderno e sem filtros. Fazem muito barulho com reflexões fora do foco.
Eu estava uma vez em uma palestra com meu amigo Fábio San Juan e uma moça nos disse, com ar de sabedoria, que Aristóteles não tinha nada a ver com Platão, pois eram antagônicos. Eu perguntei se ela de fato leu Platão e Aristóteles e a resposta veio de forma tão desconexa que ficou evidente seu desconhecimento da matéria. Acredito sim que ela teu um monte de artigos sobre o assunto. Mas nada dos originais.
Jamais existiria o pensamento de Aristóteles, como o conhecemos, se não houvesse existido anteriormente o pensamento de Platão. Assim como jamais existiria o filósofo Platão se não existisse Sócrates (pai dos diálogos). Ou ainda, jamais existiria Platão se não existisse Pitágoras, por exemplo, pensador que o inspirou sobremaneira.
O próprio Platão deixa claro que ele só se aventurou em sua ‘Segunda Navegação’ depois de ler Pitágoras e não encontrar a resposta que procurava sobre o conhecimento humano.
Aristóteles só traz a forma, colocada por Platão em uma espera de difícil acesso, para as coisas em si (o mundo material) depois de discordar de Platão, que foi seu mestre. Quero dizer que o conhecimento filosófico também pode ser comparado, em alguma ocasião, com uma escada. Só há o degrau de cima porque havia o degrau anterior.
Mesmo que determinada tese perca sua grandeza e seja derrubada pelo próximo pensador, esse avanço só foi possível graças ao pensador anterior, vai saber, que trocou os pés pelas mãos e escreveu coisas que não se sustentavam. Há teses erradas que servem de fermento para o amadurecimento de novas formas de pensar e proporcionam muito sucesso aos seus sucessores.
Por isso não se deve fazer terra arrasada quando se entra no campo da filosofia. Se assim agir, você será mais para fomentador de equívocos do que para pensador responsável.
Na física moderna há ainda pensadores que se dizem aristotélicos, porque o estagirita (Aristóteles era da cidade de Estagira) é um grande contraponto a Kant, que colocou a natureza no plano do inatingível e abriu espaço para os sofistas nadarem de braçada, dando vazão a retóricas mil. Algumas até verossímeis. Mas nada disso diminui Kant. Sem ele não teríamos essa dimensão do pensar. Ninguém falou para você pensar como quem busca o inimigo da vez. Assim você só estará fomentando a idiotice.
Dou esse pontapé inicial para uma série de artigos filosóficos que pretendo escrever sobre o tema na Revista de Domingo. Mas antes, insisto que filosofia não é campo para ideologias, que buscam trazer os dogmas para cercar frangos atropelados. Não é terra de missionários, que professam sua fé como se ela fosse filosofia.
Filosofia é sim campo da dúvida. Se você só tem certezas, sorry, baby, seu lugar não é este. Corra à sua igreja e resolva isso com o seu padre ou pastor. Não digo isso para criar novas cisões, mas para deixar claro que a fé, quando assumida de forma responsável, deve ser sempre muito respeitada, mas se torna assim uma questão para convertidos.
A filosofia e a fé devem manter respeito mútuo, para que uma não queira ocupar lugar da outra, mas para que sejam auxiliares. Essa confusão é a mesma que ocorre entre dogmáticos, convertidos e filósofos (no sentido platônico do termo). O dogma religioso é parte integrante da fé. Mas o dogma político e científico é parte integrante do sofisma e da manipulação. Não se deixar perder nesse triângulo das bermudas é a função da filosofia.




