A imoralidade em uma democracia em declínio
"Porque não há mais julgamento sobre o certo e o errado; a transgressão só vale para o outro"
Dois artigos sobre eleição presidencial me chamaram a atenção na revista Crusoé desta semana. Um de Maristela Basso (clique aqui!), outro de Roberto Reis (clique aqui!). O que eles trazem de tão importante? A mudança nos critérios dos eleitores na escolha dos seus candidatos. Ambos os artigos se complementam.
Maristela aponta para o fato de a integridade do candidato ter ficado de fora no momento da escolha. O que conta, segundo ela, é de que lado ele está. Se está do nosso lado, todos os desvios éticos e morais serão devidamente ajustados para serem absorvidos pelo grupo.
Isso quer dizer que os desvios de conduta não contam mais. Um eleitor fechado com o grupo pensa apenas em como combater o adversário, que, nessas condições polarizadas, torna-se o único inimigo. Os erros e a imoralidade estão sempre com o outro, que precisa ser combatido. Não importa o que o seu candidato aprontou.
Porque não há mais julgamento sobre o certo e o errado. A transgressão só vale para o outro. Há nessa avaliação moral uma assimetria crescente, diz ela. Maristela pergunta, após considerar ensinamentos de José Saramago e Alexis de Tocqueville, “A democracia sobrevive quando ninguém mais quer enxergar? Porque o verdadeiro perigo para uma República não é eleger maus governantes. É perder a capacidade coletiva de reconhecê-los como tais. Uma democracia começa a adoecer quando os governantes deixam de ter caráter. Mas começa a morrer quando os eleitores deixam de exigir que eles o tenham. Toda cegueira política começa nos líderes. Mas só se transforma em epidemia quando encontra abrigo nos cidadãos”.
Reis aponta para o mesmo problema da polarização e da falta de noção para se avaliar o próprio candidato, uma vez que ele precisa ser protegido do inimigo independentemente do que ele faça. Segundo ele, o candidato é protegido porque ele se encontra no “campo do pertencimento”.
Como exemplo, ele cita o fato de Flávio Bolsonaro ter mantido seu eleitorado fiel, mesmo após ter sido pego nas gravações do celular de Vorcaro, pedindo dinheiro. “A informação chega, mas encontra uma estrutura psicológica rígida e montada para absorver o impacto, reinterpretar o episódio e preservar a crença anterior”, afirma. Reis cita como fonte de suas observações um livro de Décio Fábio, “Divergent: How to Outsmart the Herd”, a ser lançado.
A diferença dos artigos é o avanço dado por Reis em relação ao eleitorado do meio, que não está preso a nenhum polo dessa disputa. Trata-se dos eleitores não-ideológicos e que, segundo ele, vão decidir a eleição. Então, toda a disputa que estão ocorrendo agora nas redes sociais, que parece fortalecer esse ou aquele lado, a depender do fato em questão, é ainda um tanto quanto ilusório, precipitado, visto pela ótica do resultado final, de quem vai ganhar.
Para o analista político, esse eleitorado do meio ainda não entrou no jogo em peso. Está distante das polêmicas e quando começar a se preocupar com o assunto, terá uma visão mais ampla, sistêmica, vai avaliar a moral de cada candidato e o que eles fizeram no verão passado, só então vai se decidir se vai para cá ou para lá. É esse movimento que vai importar de fato e decidir a disputa.
“Ele não participa diariamente dessa guerra cultural das redes sociais. Também não carrega a mesma necessidade de proteger um campo político. Essa menor intensidade ideológica produz instabilidade eleitoral e preserva muita liberdade de movimento”, afirma ele sobre o eleitorado do meio.
Reis observa ainda que a perda de voto de Flávio nesses últimos dias vem da borda desse eleitorado indeciso. “A perda atual mais perigosa ocorre nessa borda, entre os eleitores do meio flutuante, os mais exigentes, que vinham admitindo votar nele e na direita, mas exigem um padrão mínimo de segurança, clareza e idoneidade. Esse grupo possui importância fundamental e Flávio tem poucos dias para retomar o pulso da campanha e rezar para que não haja fatos novos”, conclui Reis.





