A incrível história dos Irmãos Otomanos Voadores
Conheça a história de Hasan e Ahmed, que voaram com uma asa delta e um foguete... no século 17 ???
Muito antes de Santos-Dumont e dos Irmãos Wright, houve dois pioneiros que teriam voado distâncias formidáveis no país mais avançado e poderoso do século 17.
Se você pensou na Inglaterra, Espanha ou Império Austro-Húngaro, errou feio. Pois o país é o Império Otomano, e os pioneiros, os irmãos Hasan e Ahmed.

Ao contar a história dos “Otomanos Voadores” dos anos mil e seiscentos, estamos naquela zona sombria, entre a História, o Jornalismo e as Lendas. Pois tanto a História quanto o Jornalismo dependem de testemunhos e de quanto podemos confiar neles. Antes do advento das mídias e meios de comunicação modernos, como o telefone, o telégrafo, o rádio, a fotografia e a televisão, histórias levavam anos, décadas e até séculos para serem conhecidas.
Quem já brincou daquele jogo do “telefone sem fio” sabe o quanto uma simples frase pode ser distorcida em apenas poucos minutos e participantes. Um alfinete vira um elefante; uma oração angelical vira um programa fascista; e assim por diante.
Dependemos de relatos feitos por pessoas nas quais podemos confiar, para reconstruir um fato. Eis um dos problemas mais sérios da História. Pois a fantasia, o exagero, interesses os quais podemos supor, e outros que não podemos, se embrenham nas frestas das intenções do relatante. Ou como dizem: nas entrelinhas de quem conta um conto e aumenta um ponto.
Os Otomanos Voadores
Há inúmeros relatos na cultura europeia sobre pessoas que teriam voado imitando o voo dos pássaros. Dédalo e Ícaro são só os mais antigos, e comprovadamente lendários.
Há outros relatos, como o do sábio Abbas Ibn Firnas, que teria voado na Andaluzia islâmica perto do ano 850. Firnas é considerado como um dos “Leonardos da Vinci” da cultura islâmica. Outro piloto aéreo medieval é o monge beneditino Eilmer de Malmesbury, por volta do ano 1066. Ambas as histórias têm em comum terem sido escritas muito tempo depois do suposto acontecimento – a primeira setecentos anos depois, a segunda, 150 anos depois.
Estas duas histórias somam-se às histórias dos Otomanos Voadores por apresentarem pessoas preocupadas em aplicar a ciência dos mecanismos dos voos em tecnologias funcionais.
Ahmed e o primeiro voo… de asa delta?

Hezârfen Ahmed, segundo consta no relato escrito por seu “amigo fiel”, Evliya Çelebi, estudava o mecanismo de voo dos pássaros. Assim, resolveu construir um aparato que imitasse as asas e a forma de impulso das aves. Praticou entre “oito a nove voos com asas de águia” sobre o púlpito de Okmeydani, em Istambul (um lugar de oração, vagamente lembrando um coreto de praça; veja a foto abaixo).

Segundo a narrativa, Ahmed usava “fortes ventos”, o que nos permite deduzir que planava, sem o auxílio de um motor ou catapulta; será que ele se jogava de cima do púlpito para pegar impulso? Pelas ilustrações que o representam, parece se tratar de um mecanismo parecido com uma asa delta. Evliya, única testemunha que escreveu a respeito do evento, não esmiuça as técnicas usadas por Ahmed; ficamos sem saber dos detalhes.
Ao chamar o sultão Murad IV para assistir à sua demonstração, que o governante decidiu acompanhar da sacada de um de seus palácios, no Cabo do Serralho. Ahmed teria voado da Torre de Gálata para o outro lado do Estreito do Bósforo, percorrendo por volta de 3.558 metros, impulsionado por ventos fortes, ele teria pousado na Praça Doğancılar no bairro de Üsküdar.
Teria feito a travessia da Europa até a Ásia, num voo planado... em 1632.

O sultão ficou impressionado com o feito, segundo o relato. Evliya nos conta que o sultão, ao presentear Ahmed com um saco de moedas de ouro, disse: “Este é um homem assustador. Ele é capaz de fazer o que quiser. Não é certo manter essas pessoas por perto”. Evliya encerra a história dizendo: “Portanto, o enviou à Argélia no exílio. Ele morreu lá”.
Hasan e o primeiro foguete… tripulado?

Um ano depois, mesmo sabendo que Murad IV não tinha uma política de governo que favorecia a pesquisa científica e tecnológica, Hasan ofereceu-se para fazer uma demonstração pública de um outro sistema de voo, este mais inédito que o do irmão.
Enquanto Ahmed calcava seu modelo de personagens como Ícaro e Abbas Ibn Firnas (cuja história talvez os irmãos conhecessem), Hasan utilizou o moderníssimo recurso da pólvora como meio de propulsão. Talvez inspirado por foguetes primitivos, já utilizados na China desde quinhentos anos antes, e que foram adotadas na Índia, Mongólia e Europa a partir do século 13.
Hasan construiu um foguete com sete asas, carregado com 63 kg de pólvora. Evliya não conta se o candidato a astronauta fez experimentos antes da exibição pública. No dia, ele se sentou numa espécie de gaiola, dentro da “nave”. O lançamento, segundo conta Evliya Çelebi, foi feito no momento exato do nascimento de uma das filhas do sultão Murad IV.
No momento da partida, Hasan disse ao governante: “Oh, meu sultão! Abençoado seja, eu irei falar com o profeta Jesus!”
Assim como o irmão, ele teria atravessado o Estreito de Bósforo, sobre o mar... no que seria o primeiro voo de foguete tripulado da História da Humanidade. Teria subido de 250 a 300 metros de altura.

Quando acabou a queima da pólvora, em pleno ar e a centenas de metros acima da água, Hasan teria aberto suas “asas de águia”, um dispositivo que, na prática, seria como um paraquedas. Ele pousou suavemente no oceano, chegando até a costa a nado. Quando chegou à presença de Murad IV, teria brincado:
“Meu Sultão, o Profeta Jesus lhe envia saudações!”
Hasan também recebeu uma bolsa com moedas de prata, como seu mano, e foi agraciado com um cargo de oficial militar no governo. O feito foi encarado como parte das comemorações do nascimento da princesa, visto como uma espécie de queima de fogos de artíficio exótica; o sultão levou “na esportiva”.
Porém, tempos depois, Murad declarou que Hasan tinha sido “ousado demais”: foi também enviado ao exílio, para um dos reinos vassalos do império turco otomano, a Criméia. Tão distante de Istambul, na época, quanto a Argélia.
“Se non è vero, è ben trovato”
Hasan e seu irmão Ahmed, na História turca, assim como o autor dos únicos relatos sobre seus feitos, Evliya, levam o título “Çelebi”, que significa “cavalheiro” ou “homem educado”, conferido a intelectuais. Os três são figuras tão importantes para os turcos quanto Leonardo da Vinci, Michelangelo ou Isaac Newton são para os ocidentais. A era em que viveram é considerado uma espécie de Renascimento otomano, similar ao europeu.
Hasan é conhecido como “Lagari Hasan Çelebi”. “Lagari” quer dizer “magro”, em turco; ser leve supostamente favoreceu seu empreendimento foguetório. E como nós brasileiros consideramos Santos-Dumont como “Pai da Aviação”, Hasan é considerado, na Turquia, como o “Pai da Astronáutica”.
Ahmed é chamado de “Herzâfen Ahmed Çelebi”. “Herzâfen” vem da língua persa, e significa “o homem de mil ciências” ou “aquele que possui mil talentos”. Como uma espécie de Leonardo da Vinci turco.
As histórias dos irmãos Ahmed e Hasan foram registradas por Evliya Çelebi, cujo nome verdadeiro era Derviş Mehmed Zillî. “ Evliya Çelebi” é um título de honra, que significa “nobre homem educado e santo”. Assim como Voltaire, o nome pelo qual François-Marie Arouet é conhecido até hoje, se quisermos nos referir ao escritor Dervis Mehmed Zillî, importantíssimo intelectual na cultura islâmica e turca, devemos chamá-lo por Evliya Çelebi.

O livro no qual narra as histórias dos Otomanos Voadores é o “Seyahatnâme”, palavra turca que significa “Livro de Viagens”, um livro com 10 volumes que abrange 50 anos de experiências de viagem do autor por todo o império. É considerada a principal fonte, quase única, da vida cotidiana do Império Turco Otomano do século 17.
Mas não se engane aquele que procurar na obra um relato preciso de historiador, jornalista ou documentarista da época. Ele mistura descrições precisas de arquitetura e linguísticos de vários dialetos do império com relatos de bruxas lutando no céu, peixes que falavam e, claro, os voos dos irmãos.
Sobre as entrelinhas, das quais falei lá no começo do texto? Acredito que o autor tinha o interesse não o de glorificar o Império Otomano, nem questionar a visão sobre pesquisa científica de Murad IV. Talvez fosse sua intenção glorificar os irmãos pioneiros da aviação e da astronáutica. Ou quem sabe, quisesse mesmo só contar uma boa história, bem imaginada e bem narrada, para deleite de seus leitores. Histórias de maravilhas, como combates de feiticeiras e peixes falantes, em um livro repleto de engenho e arte, fonte jorrando criatividade como uma Pixar seiscentista, ou como faz jorrar Xerazade no tradicionalíssimo ciclo das historias das Mil e Uma Noites.

Ai de nós se lermos esse tipo de literatura como uma fonte histórica. Desse ponto de vista, temos de ler o “Livro de Viagens” com tantas reservas quanto o diário de Marco Polo, do século 13. Polo, assim como Evliya, conta fatos verdadeiros, mas também muitas “fake news”, supostamente notícias do Oriente, próximo e extremo, como a existência de pássaros tão grandes que carregavam elefantes, ou homens com cabeças de cachorro.
Ambas as obras estão no mesmo pé, correm na mesma raia, caminham na mesma estrada. Surpreende-nos e encanta-nos, igualmente, que relatos assim inspiraram verdadeiros cientistas, exploradores e engenheiros, como a de Marco Polo que inspirou Cristovão Colombo, ou as histórias de Julio Verne sobre canhões enviando passageiros numa Bala gigante à Lua, inspiração para pioneiros dos foguetes como Konstantin Tsiolkovsky, Robert Goddard e Werner von Braun.



