Publicado na edição número 11 da Revista Viletim, em 2002.
Ilustração: Mônica Santana
Na última vez em que eu vi o Infinito (há uns cinco anos), ele andava ao léu pelas ruas da cidade, bebericando cicuta e lançando ao vento seus sonetos luxuriantes. As ondas inspiradoras da deusa do amor o colocavam em êxtase a cada tragada do precioso líquido e, segundo me disse naquela tarde no bar do Alcindo, na rua Boa Morte, os poemas à Bilac que produzia eram “obras nascidas do infortúnio e da produção sob o jugo da Madre Superiora (no Lar dos Velhinhos, onde morava), mulher pela qual tenho uma admiração às avessas, mas a quem dei sempre as mãos à palmatória no dia seguinte ao retornar ao meu leito, cambaleante, quase com um pé em outro mundo”. Ou seja, completamente bêbado.
Não era a primeira vez que me encontrava com o Infinito. Várias tardes vadias gastei ouvindo esse homem fazer digressões sobre a lascívia de Afrodite. “Você é um cadáver em perspectiva”, dizia ele ao perceber minha aproximação, ciente de que teria um ouvinte garantido para os seus devaneios poéticos. Como sabia que eu era um admirador incondicional do seu estilo, enfatizava os gestos, ajeitava a boina, se encostava ao balcão, tirava as folhas do jaleco, aprumava os óculos com a lente esquerda rachada e, antes de ligar sua máquina recitatória, pedia uma bem gelada ao dono do bar (Alcindo), dando peso à sua presença:
“Filho do pecado, traz um veneno e marca aí em nome do deus Baco”. Quando a cerveja chegava, escondia o tubo com cicuta (ele sabia que eu não tomava nada destilado), enchia os dois copos e oferecia um brinde: “Antes que os anjos batam suas asas em jornada para o inferno, um brinde a Afrodite”. Eu sabia que ele estava afiando a lábia para o que vinha. Erguíamos os copos e bebíamos toda a cerveja em uma golada só. “Ao deus Baco”, dizíamos em uníssono. E assim a tarde se esvaía num tempo medido à ampulheta.
“É hoje que desbanco seu trono, Luís Vaz de Camões”, expressava ele com muito orgulho da sua produção semanal e mandava ver:
A lascívia, legado de Afrodite
E tens no corpo a morada do que há de mais belo
Seus gestos de animal errático, há quem acredite
Fazem temer até mesmo os homens forjados a ferro
Tal força é tamanha que prescinde
Do uso sequer de um gesto monumental
No momento em que os homens andam tão tristes
Em busca de algo que os despiste daquele vagar lânguido e boçal
O simples despir das tuas vestes emite
Ondas que fazem latejar o falo em riste
Que da janela os homens gritam como um cão
Em disparada, feito bestas do apocalipse
À sombra da lascívia, legado de Afrodite
À fonte da força que faz vibrar suas mãos”.
Quando terminou, eu disse só para tirar um sarro: “Isso é o que podemos chamar de uma bela punheta parnasiana”. Meio confuso com minha observação direta, ele olhou para mim com firmeza e também troçou do que tinha acabado de apresentar. “Essa pode não ter sido a melhor masturbação da minha vida, mas a que vou apresentar agora fará o caolho virar na tumba”, se referindo a Camões. Então recitava um novo soneto, mais viril, realizador e bonito.
Nunca fiquei sabendo exatamente quem era aquele danado Infinito. De onde ele vinha. Em conversas rápidas, me dizia que era carioca e que havia sido amigo de Carlos Drummond de Andrade. “Aquele sim era poeta. Aquele sim era páreo para mim”. Mas a realidade o obrigou a deixar o Rio e vir para Piracicaba, onde passou a morar. Mas que realidade era essa, ninguém sabia.
E também eram poucas as pessoas que sabiam apreciar a riqueza de seu estilo. Normalmente, o confundiam com um velho bobão e palavroso, o que não era a verdade. Aquilo era um encanto de pessoa, um sonhador extemporâneo. Minha impressão era de que fora um boêmio a vida toda. Um apaixonado que se perdeu no tempo e no espaço, devido a alguma desilusão amorosa, que não foi capaz de superar.
Talvez sua musa tivesse fugido com outro homem ou então morrido. É provável que tenha sido isso. Por isso talvez tenha ficado entregue ao vício e ao ócio, sem conseguir fazer um pé-de-meia com o seu ofício.
Percebendo o risco que corria, alguém de sua família, que morava em Piracicaba, convidou-o para morar aqui e resolveu colocá-lo em um lugar mais seguro, no Lar dos Velhinhos, para que cuidassem dele. Mas, como ele não gostava desse novo estilo de vida, sempre que escapava da vigilância da Madre Superiora (a coordenadora do Lar dos Velhinhos), se entregava à boêmia. Era nesses dias que, casualmente, eu o encontrava.
Numa noite, cheguei tarde no Bar do Alcindo e lá estava o Infinito, avançado na embriaguez, com o tubo de cicuta quase vazio. Ele se lamentou para mim: “Seu cadáver em perspectiva, porque não veio antes. Pelo amor de Deus, me socorra dessas pulhas. Eles estão querendo contaminar o ar que eu respiro”.
Percebi que ele brigava com uma turma de jovens estudantes, que bebia na mesa ao lado e não entendia bulhufas do que o poeta falava, então tirava sarro do velhinho. “Afaste esses vermes do meu horizonte, senão vou ser obrigado a chamar a Madre Superiora”. Gargalhada geral. Ciente de que ele estava precisando de um descanso, resolvi convidá-lo para um passeio ao ar livre.
Naquela noite, a lua estava muito bonita. Ele se sentou no degrau da escada do Salão Nobre da Unimep e começou a conversar comigo. “Era para eu ser famoso como Bilac. No Rio, eu estava sempre junto com os grandes. Mas a lascívia de Afrodite fez com que eu perdesse o norte, o sul, o leste e o oeste. A bússola não tinha mais sentido em minha vida. Agora estou aqui, tendo que dividir meu espírito com esses malditos ratos, piolhos e vermes enquanto não sou chamado para pôr um fim nesse martírio”.
Para desfazer a tensão e tentar reduzir sua tristeza, eu procurava mudar de assunto. “Infinito, você nunca me contou nada da sua vida”. Sem sequer refletir sobre o assunto, lançou suas palavras decoradas, como quem procura fugir da conversa. “A vida é uma forma de poema. O soneto é a prova de fogo do poeta. Veja o menino Quintana (Mário Quintana). Até ele, que gosta tanto de jogar quimeras poéticas aos pardais, confirmou a tese de que só se torna um verdadeiro poeta quem passa pela prova de fogo do soneto”.
Ciente de que não tinha mesmo jeito, que jamais conseguiria fazê-lo abrandar essa sua obsessão, perguntei: “Infinito, você acredita em Deus?” Ele levou um choque com a minha pergunta. “Sempre estive à espera do Superior. Agora, mais do que nunca”, respondeu enfático. Mas era perceptível a melancolia que o abatia. Me olhou novamente com firmeza e lançou essa: “Sei que você não acredita em Deus. Porque você ainda é muito jovem para acreditar em Deus. Eu sou muito velho para ser ateu”.
Nessa noite derradeira, acompanhei o Infinito até ao Lar dos Velhinhos. Antes de se despedir, ele disse: “Agora vou enfrentar a fúria da Madre Superiora. Deseje boa sorte a mim, meu filho”. Depois, nunca mais o vi. Não sei se ele ainda está vivo, se voltou para o Rio de Janeiro. Quem sabe ele foi ao encontro dos seus iguais e esteja agora mostrando seus novos trabalhos para o Quintana e o Drummond. Quem sabe tenha definitivamente caído nos braços de Afrodite, deusa que o inspirou a vida inteira.




