
Após uma guerra, um homem não sabe se conseguirá voltar para sua família; sua esposa o espera, enquanto outros homens tentam ocupar seu lugar; ao mesmo tempo, seu filho anseia por encontrá-lo. Uma trama contemporânea? Poderia até ser, mas, neste caso, a história que estamos contando surgiu há muito, muito tempo – provavelmente no século 8 a.C. Estamos falando da Odisseia, uma epopeia grega em versos cuja autoria é atribuída ao poeta Homero e que, desde seu surgimento, vem exercendo uma influência quase sem paralelo sobre toda a literatura ocidental.
Este ano, o relato do longo retorno do herói grego Odisseu ao seu reino na ilha de Ítaca tornou-se febre global graças ao filme homônimo de Christopher Nolan, lançado em julho, que superou a marca de US$ 1,7 bilhão em bilheteria. E a Real Academia Sueca de Ciências também deu outro empurrão, ao destinar o Prêmio Nobel de Literatura à canadense Anne Carson, que, além de ficcionista, é uma conhecedora e tradutora de mão cheia das obras clássicas gregas.
A combinação da premiação do Nobel e do sucesso do filme de Nolan nas telonas colocou na ordem do dia as discussões sobre os desafios de traduzir os clássicos gregos para as línguas atuais. Aliás, o diretor relatou que foi a leitura da tradução da britânica Emily Wilson, lançada em 2017, que despertou pela primeira vez a ideia de adaptar as aventuras de Odisseu para a tela grande. Wilson foi a primeira mulher a verter toda a obra de Homero para o inglês. E, embora o livro tenha vendido mais de um milhão de cópias, ela já declarou que não ficou totalmente satisfeita com o resultado e que outra tradução deve vir nos próximos anos.
Na Unesp, que oferece habilitação em língua e literatura gregas antigas para os estudantes do curso de Letras da Faculdade de Ciências e Letras do câmpus de Araraquara (FCLAr), um dos desafios é levar esse idioma e suas narrativas aos alunos. A formação se estende pelos quatro anos da graduação, com estudos de epopeia, teatro antigo, poesia lírica, história e filosofia, além da prática de tradução – trabalho de escrita específico e fundamental para que o estudante tenha acesso àquelas obras.
“Esse interesse continua na pós-graduação, com mais de uma dezena de estudantes, no mestrado e no doutorado, pesquisando textos gregos, seja por meio da tradução, seja em diálogo com obras de outros períodos”, afirma Emerson Cerdas, vice-coordenador do Programa de Pós-Graduação em Estudos Literários da FCLAr. Ele indica a docência, no ensino superior e na educação básica, como uma das principais formas de atuação para os profissionais formados.
No artigo Tradução e ensino: o primeiro contato com a literatura grega clássica, escrito para a Revista Eletrônica da Educação, Cerdas lembra que o ensino de línguas clássicas já fez parte da formação básica brasileira, inclusive com o ensino de latim na escola pública. Hoje, é raro encontrar quem conheça e estude profundamente essa cultura e essa literatura – e, mesmo nas universidades, esse contato tornou-se bastante restrito. “Além disso, é importante pensar que a Unesp permite a estudantes vindos de escolas públicas, muitas vezes com dificuldades financeiras, o acesso a conhecimentos que durante séculos ficaram restritos a uma elite”, pontua Cerdas.
Mas qual a principal motivação que leva um jovem brasileiro a querer conhecer uma literatura tão distante no tempo e ainda escrita em um idioma que se transformou ao longo dos séculos?
Também docente de Língua e Literatura Grega Antiga no câmpus de Araraquara da Unesp, Marco Aurélio Scarpino Rodrigues observa que o interesse do aluno de graduação por uma língua e uma literatura tão antigas quanto o grego clássico não se explica pela lógica utilitária que domina o mundo contemporâneo, mas pela percepção de que esse estudo oferece acesso a um universo cultural que permanece, de modo decisivo, na base da formação intelectual do Ocidente. “Embora a formação em grego clássico seja altamente especializada, é justamente isso que desperta, em muitos estudantes, a sensação de ingressar em um território de conhecimento que exige rigor, profundidade e deslocamento”, diz.
Nesse processo, o docente tem função determinante. Para Rodrigues, líder do Grupo de Pesquisa e Extensão Giz-en-Scène e membro do Grupo Visões da Antiguidade Clássica (LINCEU), cabe ao professor evidenciar que, apesar da distância temporal, o estudo dessas obras permite aos alunos participar de discussões sobre temas como identidade, justiça, memória, poder, linguagem e comunidade, estabelecendo, assim, vínculos com a literatura da Grécia Antiga. “A motivação central nasce da possibilidade de revelar ao aluno que, ao ler Homero, Sófocles ou Heródoto, ele não está apenas aprendendo sobre os antigos, mas também sobre si mesmo, sobre as estruturas simbólicas que continuam a moldar nossa sensibilidade e nossa maneira de estar no mundo”, acredita.
Hollywood e Nobel
Os versos de Homero na Odisseia narram como Odisseu, após a Guerra de Troia, enfrenta a ira dos deuses, bruxarias e criaturas mitológicas, antes de conseguir retornar à sua terra. Mas o apelo da obra e sua permanência, ressalta Cerdas, não podem ser explicados apenas por seus elementos fantásticos: “Homero vai além, os personagens têm camadas. Essa história, por trás da roupagem fantástica, fala de algo mais simples. Essas narrativas míticas, especialmente as de Homero, nos tocam como seres humanos. Isso faz com que essas obras nunca morram”, analisa.
“O estímulo atual ao interesse pela Odisseia a partir do filme insere-se em um movimento cíclico de retomada dos clássicos, fenômeno recorrente ao longo do século 20 e que se intensifica em momentos de crise cultural”, afirma Marco Aurélio. Para ele, a narrativa homérica, com sua estrutura de retorno, de reconhecimento e de reconstrução da identidade, oferece um modelo universal que continua a interpelar leitores e espectadores contemporâneos e permanece como matriz simbólica para pensar a experiência humana.
O filme, acredita Rodrigues, possui qualidades estéticas e cumpre uma função importante ao reabrir o acesso à narrativa homérica para um público que, talvez, não chegasse ao texto por vias acadêmicas – embora o docente ressalte que, por se tratar de uma adaptação, a produção apresenta uma leitura particular do diretor, com elementos que distorcem o pensamento grego em direção a uma visão mais próxima do imaginário judaico-cristão, na tentativa de aproximar Homero do público contemporâneo. “Mas esse retorno aos clássicos, mesmo mediado por adaptações imperfeitas, mantém viva a circulação dos mitos e permite que novas gerações se aproximem de uma obra que continua a estruturar nossa compreensão da jornada humana”, diz.
Durante o período de lançamento do filme, foi realizada na biblioteca da FCLAr uma exposição, que teve Rodrigues como curador e reuniu diversas edições e traduções da Odisseia. O docente ainda acompanhou uma exibição do filme para os alunos da Unesp, realizada em parceria entre o Comitê de Ações Culturais do Instituto de Química e uma rede de cinemas. “Mais de 250 estudantes das quatro unidades da Unesp de Araraquara lotaram uma sala de cinema. Esse engajamento revela que, quando o universo clássico é apresentado de forma viva, ele mobiliza públicos muito além daqueles já iniciados na área”, analisa.
Ganhadora do Prêmio Nobel de Literatura deste ano, a poeta, ensaísta e tradutora Anne Carson trabalha com mitos gregos e une a tradição clássica à literatura contemporânea. Entre suas obras de grande destaque está o romance Autobiografia do Vermelho: um romance em versos (Editora 34), em que a autora transporta para os dias atuais um poema grego sobre Héracles.
“A escolha de Anne Carson para o Nobel de Literatura de 2026 tem um significado especial para quem se dedica aos estudos do mundo antigo”, afirma Rodrigues. “Sua obra mostra, com rara intensidade, como a tradição grega permanece um terreno fértil para a criação literária contemporânea.”
Segundo Cerdas, é muito gratificante ver uma professora de estudos clássicos, tão ligada à literatura grega, receber o Nobel de Literatura. “Considero bastante interessante sua atuação como tradutora: nela, traduzir é também recriar, explorar a linguagem e dar nova vida aos textos antigos. Não apenas rejuvenescer os antigos, mas, por meio disso, criar novas possibilidades artísticas e poéticas para a literatura atual.”
Homero na sala de aula
Mas como apresentar a Odisseia a jovens alunos de graduação, que têm contato com a obra de Homero pela primeira vez? Em sala de aula, Cerdas apresenta aos estudantes características do texto, como ritmos, símiles (comparações diretas), repetições e elementos formais da poesia homérica. “Mas quero também que os alunos compreendam que, por trás daquela narrativa cheia de aventuras, nascida de uma cultura tão distante da nossa, há uma humanidade que ainda nos diz muito”, afirma. “Quantas pessoas não vivem histórias marcadas pela distância, pela espera e pela incerteza?”
“Os vínculos com o presente também são muitos”, continua ele. “Os textos antigos nos ajudam a discutir questões que permanecem vivas, como a guerra, a relação com o estrangeiro, os papéis atribuídos às mulheres e o exercício do poder.” Para o professor, a literatura grega nos mostra que essas questões já foram pensadas, embora de maneiras muito diferentes. Essa combinação de familiaridade e surpresa contribui para despertar o interesse dos alunos.
Na sala de aula, Rodrigues enxerga o professor como um construtor de uma ponte entre dois mundos, “o da Grécia arcaica e clássica, com sua oralidade estruturada, seus mitos fundadores e sua visão performativa da cultura, e o do século 21, marcado pela velocidade, pela fragmentação e pela busca constante de sentido”. Assim, o aluno percebe que estudar grego clássico não significa voltar-se para um passado morto, mas compreender as raízes de questões estruturantes para o século 21 e perceber que aqueles textos continuam a ser reinterpretados e ressignificados pela cultura moderna. Para Rodrigues, “essa constatação desperta um interesse genuíno”.
O que não significa deixar de olhar criticamente para o pensamento dos gregos, inclusive para os preconceitos e as exclusões que existiam. “Respeitar essa cultura não é idolatrá-la”, diz Cerdas. “Ao contrário, como brasileiros, podemos construir uma leitura singular da Antiguidade a partir de nossas próprias histórias e experiências.” O mesmo vale para a Ilíada. Outro poema épico atribuído a Homero, a Ilíada narra acontecimentos do último ano da Guerra de Troia e destaca particularmente dois guerreiros, o grego Aquiles e o troiano Heitor.
Para Rodrigues, “a apresentação da Ilíada e da Odisseia em sala de aula deve permitir ao aluno compreender que essas obras integram um sistema de pensamento próprio da Grécia arcaica; é fundamental situar os poemas homéricos dentro de uma cultura marcada pela oralidade, pela transmissão tradicional de mitos e pela ausência inicial da escrita. A épica, antes de ser literatura, é memória coletiva”.
Do grego ao português
Uma etapa de extrema importância no ensino dessas obras envolve a tradução do grego antigo para o português. “Traduzir a Odisseia para o português exige, antes de tudo, a consciência de que se trata de um poema composto e transmitido pela e para a oralidade”, diz Rodrigues. “Sua força estética não reside apenas no conteúdo narrativo, mas na forma específica pela qual esse conteúdo é transmitido. A tradução deve equilibrar fidelidade filológica e potência poética. A precisão sem poesia, reduz Homero a prosa documental; a poesia sem precisão transforma o texto em recriação livre.” Sustentar uma coerência que respeite o universo épico e sua imagética é essencial para que o trabalho do tradutor resulte num poema que possa ser reconhecido como a obra de Homero, adaptada à língua portuguesa.
Cerdas reconhece que nenhuma tradução consegue preservar todos os elementos do texto original. “Mas penso que o trabalho do tradutor é decidir, a cada passagem, como fazer com que o leitor em português encontre não só os acontecimentos narrados, mas algo da experiência de ouvir essa poesia.” “Na tradução, precisamos buscar outros recursos, como o número de sílabas e a posição das sílabas fortes, para recriar um efeito rítmico que dialogue com o original.”
Tanto a Odisseia quanto a Ilíada têm traduções inclusive para o grego – no caso, a variante contemporânea do idioma. “Embora continuemos a chamar a língua de ‘grego’, esta passou por muitas transformações ao longo dos séculos. Falar grego moderno, portanto, não significa conseguir ler Homero sem uma formação específica”, explica Cerdas. Nas universidades brasileiras, usam-se principalmente traduções para o português.
“As versões em grego moderno podem ser consultadas por pesquisadores que conheçam essa língua, inclusive para comparar soluções de tradução, mas não costumam ser o caminho de acesso a Homero em nossas aulas. Já na formação especializada em grego antigo, trabalhamos com o texto original, recorrendo às traduções como apoio.”
Um problema surge quando a tradução para o português é feita a partir de uma segunda língua, como o inglês ou o francês. “Traduzir diretamente do grego antigo é uma experiência radicalmente distinta. Traduzir a partir de uma segunda língua significa trabalhar sobre um conjunto de escolhas que não são neutras, mas pertencem ao tradutor intermediário”, critica Rodrigues. Para ele, sem o original, perde-se o acesso ao sistema que produz o sentido. “O texto grego não é apenas um conjunto de palavras, é uma forma de pensar o mundo”, resume.
Final e começo
Cerdas ressalta o período histórico em que Homero teria vivido. Vivia-se o final de uma tradição de cultura oral marcada pela atuação dos aedos (poetas que peregrinavam pela Grécia Antiga recitando ou cantando poemas), enquanto a escrita surgia e se disseminava. “Homero é o final e o começo de algo. As lendas estavam sendo contadas e há um fundo histórico, pelo qual os gregos podem entender sua sociedade, sem levar a narrativa ao pé da letra”, afirma.
Rodrigues também busca contextualizar Homero para que os alunos possam situá-lo como fundador da civilização ocidental, mas também como integrante de uma cultura complexa, anterior à escrita e profundamente enraizada em práticas comunitárias. “A escrita não apenas preserva a tradição oral, mas transforma a relação do homem com o conhecimento, com o tempo e com a própria memória”, considera. “Ler Homero hoje é, portanto, ter o ponto de inflexão entre dois modos de pensar: o mundo da performance (pela oralidade) e o mundo do texto.” “Quando lemos grego antigo, não estamos apenas aprendendo uma língua para decifrar textos. Vamos descobrindo outras maneiras de narrar, de pensar a vida coletiva, de falar do amor, da guerra e da morte”, diz Cerdas.
Matéria: Dênio Maués | Jornal da Unesp.







