Hoje, olhando para a situação de forma grosseira, bastante generalizada, estamos divididos em dois grandes campos de crença na sociedade brasileira. E portanto, de confiança: escolhemos em quê vamos acreditar, quando escolhemos em quem vamos confiar.
Confiar ou não no que o próximo diz, hoje, é um exercício de fé religiosa. Não me entendam mal: a religião tem como ponto de partida os fatos de uma Revelação, e não da experiência concreta. Esta lógica não é a da Ciência nem da filosofia, e sim, da confiança em Deus, em profetas, em espíritos, em entidades do mundo sobrenatural.
É depois que a pessoa se converte, aceitando a Verdade Revelada, que ela procura - ou não - a justificação racional dessa fé. Assim nos diz São Tomás de Aquino, Santo Agostinho, e outros tantos teólogos. Pensamento que pode ser aplicado da mesma maneira ao Budismo, ao Islamismo, ao Judaísmo.
Mas quero tratar dos dois campos em que a sociedade brasileira se dividiu, que possuem os elementos de religiões, mas são políticos, que se exibem e agem como religiões, mas que não passam de espantalhos - que se parecem com homens, mas não são.
Aderir a uma ou outra facção representa verdadeira adesão a grupos imensos, que abrangem toda a nação. Esta adesão conforta e consola, pois nos vemos amparados por multidões que conosco concordam. É a mentalidade de corinthianos x palmeirenses, alemães x franceses, aqueus x troianos, pagãos x cristãos, gregos x persas, ateus x religiosos, presente na disputa entre conservadores de direita x progressistas de esquerda.
A tristeza surge no coração do cronista não quando constata que há divisão, um dado inescapável da natureza humana. E sim, quando vê que os dois grupos, descomunais, informes, mas convictos, afirmam deter a Verdade do Universo e Chave para Resolver Todos os Problemas em mãos. De posse da Verdade Revelada, manipulam, ambos, os seus fiéis de todas as formas possíveis e imagináveis.
Sem aliviar nem para um nem para o outro, os dois grupos têm as mãos sujas de sangue e contas em paraísos fiscais bufando com dinheiro desviado de verbas públicas.
As crenças que mantém coesos e alertas, tanto conservadores quanto progressistas, se originam nas manobras manipulatórias de seus líderes. Espertamente construídas com interpretações da realidade baseadas em mentiras, fatos não confirmados, teorias da conspiração e suposições não verificadas. Fatos e interpretações falsos, conspiratórios e mentirosos só convencem e geram adesão porque se baseiam nas convicções profundas dos grupos a que se dirigem.
Como diz o carioca, “não existe malandro sem um otário”. A pessoa que precisa desesperadamente de uma cura acredita nas promessas mais mirabolantes, desde o óleo de cobra até o milagroso suco de noni (fruta, aliás, com venda proibida no Brasil, assim como seus derivados).
A fala de quem espalha fake news, boatos, fofocas e interpretações supostamente científicas, para convencer alguém de alguma coisa, abre a boca com o jogo já ganho.
Estamos tão divididos no Brasil de 2026 que condicionamos quase tudo, até a nossa crença religiosa, às crenças políticas. Quando acompanhamos os Arautos do Evangelho, o terço do Frei Gilson ou a Igreja Universal, somos da extrema-direita, bolsonaristas; se fazemos yoga ou meditação, utilizamos terapias como moxabustão ou acupuntura, frequentamos terreiros de umbanda ou candomblé, ou citamos Leonardo Boff, certeza de que votamos no PT, PV ou Psol.
Ações e opiniões tornadas públicas são encaradas como atos de adesão a uma ou outra facção ideológica. São lidas desta forma, e não se admitem leituras alternativas.
Quando declarar que a ivermectina é eficaz na cura de Covid-19, ou cristã, ou disser que os empresários não exploram os trabalhadores, e sim, os ajudam dando emprego a eles, a pessoa estaria afirmando que é bolsonarista, de direita e conservadora. Pelos inimigos, oponentes, de pensamento supostamente contrário, é fascista, de extrema direita, reacionária, autoritária, até nazista.
Outra que disser aos quatro ventos que Dilma Roussef sofreu não um processo de impeachment conduzido de forma legítima, mas sim “um golpe”, ou que todo empresário é um ladrão do povo, pois toda relação de trabalho é uma “exploração do Homem pelo Homem”, injusta e absurda, ou que o governo deve cuidar de todos os aspectos da vida, pois é a sociedade organizada no Estado, o declarante estaria afirmando que é de esquerda, socialista ou comunista, progressista, petista, psolista ou de outro partido de esquerda. Pelos inimigos, é vista como comunista (no pior sentido), stalinista, esquerdopata, petralha.
Acordamos, pois, em pleno século XXI, depois de um sonho de 41 anos que virou um pesadelo - o sonho da Nova República, uma democracia em que o povo seria ouvido, beneficiado, e dela participante. O que aconteceu, na verdade, foi um naufrágio de um transatlântico onde dois grupos lutam pelas boias de salvação.
Dois grupos que ridicularizam, zombam, ostracizam, aqueles que apelam à razão, os que dizem que o navio ainda tem salvação, que pode ser impedido de ser afundado. Esses que apelam ao bom senso, pensando e agindo de forma moderada, cautelosa, prudente - por sua natureza, são seres que demoram em tomar decisões, pois sabem que o calor do momento é o pior conselheiro de qualquer ação. Mas eles não são perdoados em sua demora em aderir às multidões, separados em dois bandos comandados por lunáticos, espertalhões, ou ambos.
“Indecisos”, “em cima do muro”, “isentões”, serão a eles, no entanto, a quem as pessoas recorrerão, quando acordarem de mais um pesadelo autoritário, como os da Rússia Soviética ou da Alemanha Nazista. Poderão surgir, do meio destes moderados, líderes pragmáticos e conciliadores, como Konrad Adenauer, ou entreguistas, derrotistas e conformados, como Bóris Ieltsin, que acabou levando a Rússia a mais uma era de autoritarismo.
Caberá aos brasileiros decidir quando chegar a hora, mas ainda há muita pedra a rolar da montanha antes desse apocalipse político encerrar a nossa era de polarização, dominada por Gérsons manipuladores.



