A morte da Arte, da Beleza, do Bom-Senso e do Ter o que Fazer
Metidos a intelectuais que se acham artistas contemporâneos são piores do que artistas de verdade... mas onde estes se esconderam, meu Deus?
Estou hoje vencido, como se soubesse a verdade.
Estou hoje lúcido, como se estivesse para morrer,
E não tivesse mais irmandade com as coisas
Senão uma despedida, tornando-se esta casa e este lado da rua
A fileira de carruagens de um comboio, e uma partida apitada
De dentro da minha cabeça,
E uma sacudidela dos meus nervos e um ranger de ossos na ida.Álvaro de Campos (Fernando Pessoa), “Tabacaria”
“Parece desenho de criança”. E é mesmo, madame: aos 8 anos, eu já era um gênio, denunciando o capitalismo estadunidense e a indústria cultural com a desconstrução de personagens da Disney. Tio Patinhas fica espantado ao saber que tem de pagar por um quadro, pensou que ia levar para casa de graça, bastando fazer “divulgação” do artista. Tá certo que o artista de hoje só quer saber de ganhar dinheiro, que ingrato, não ama a Arte como deveria, não quer mais de morrer (de fome) por causa dela, como faziam antigamente. E não quer mais trabalhar em escala 6x1.
Ah, artistas! Conheço bem a fauna. Eu mesmo faço parte dela desde, oficialmente, 1993. Antes disso, eu era um menino tonto que pensava ser um prodígio. Lia o “Caderno 2” do Estadão, a “Ilustrada” e o caderno “Mais” da Folha, meia duzia de livros da biblioteca pública (ou seja, muito mais que os meus colegas de escola, que estavam empenhados em ser jogadores de futebol, sorte a deles) e pronto, um intelectualzinho.
Ou seja, era um jovem inocente, impuro e besta, Metido a intelectual. Um naïf.
Em 1993, tornei-me artista profissional, o que não quer dizer que tinha qualidade profissional, nem postura profissional, nem nada, nem formação de artista eu tinha, que fui buscar mais tarde. O único elemento que me permitia definir como “profissional” era o o feliz acordo com o empregador, que pegava meus desenhos e os trocava por dinheiro. E ainda por cima, tinha coragem de publicá-los.
Houve um choque quando encontrei outros adolescentes em situação parecida. Não digo de situação profissional, e sim, de mentalidade: inocentes e naïves tanto quanto eu. Um deles achava que sabia desenhar melhor que todos, com pouca idade já se achava um incompreendido. Mas o grupinho formado era de nerds das histórias em quadrinhos, nós todos achávamos que sabíamos desenhar, “cada um no seu estilo”. Confundíamos ruindade com estilo. Era uma defesa, uma autoilusão para disfarçar a falta de experiência e formação.
Hoje o “gênio” que desenhava melhor que todos trabalha numa carreira que nada tem a ver com Arte. Sorte da Arte e dos apreciadores. Pois ele continua desenhando da mesma maneira de quando tinha 19 anos, ou seja, como uma criança de 9 anos. Os outros, bem, um de nós ganhou vários concursos e salões de arte, este, de verdade, desenha mais e melhor que todos nós. Outros de nós saíram do ramo e hoje estão nos secos e molhados. Eu, nado no seco ou no molhado, onde compensar mais: para o bolso ou para a alma.
Os intelectuais da cultura e artes já deram as caras por aqui, na Caipirolândia, há tempos.
São uns chatos.
Esfregam dissertações de mestrado ou teses de doutorado na nossa cara, dão aulas em lugares chatos, como faculdades chatas, graças a Deus ninguém presta muita atenção neles. A não ser outras pessoas que pretendem ser professores universitários e que estão fazendo mestrados e doutorados, e que sonham um emprego como o deles.
Mostrando seu adesismo, falam sobre “ismos”, modas e contramodas de vanguardas, não-vanguardas e pós-vanguardas, de todas as horas e lugares desde o modernismo de 1922. Alguns, entusiasmados, tentam cavar umas pré-vanguardas, ou pelo menos, os tais artistas precursores. Os mais snobs (adoro usar esta palavra) dizem que tudo isso passou, agora o legal é acompanhar a Bienal de Veneza, e esfregar na nossa cara, como quem não quer nada: “ah, na última Documenta de Kassel, eu vi vários iguais a este...”
Temos até alguns que agitam os livros que escreveram, e que meia dúzia leu, e dizem: “Tivemos os nossos modernistas!” E se vendem como se, divulgando aqueles velhos modernistas locais, também fossem algum tipo de vanguarda.
(Ai de mim! Escrevi um livro, em coautoria com o Romualdo, editor deste Viletim, sobre o modernismo de 22 em Piracicaba… serei aquele que diz o Cristo, que olha para a trave no olho do próximo, quando ele mesmo tem uma viga no próprio? Para minha defesa, débil e canhestra, tenho a dizer que o trabalho foi uma encomenda… e ainda, nunca brandi o livro dizendo que eu era de vanguarda… desconfio das vanguardas desde que Lênin chamou a juventude de “jovem guarda” da Revolução… mil vezes a Jovem Guarda de Roberto e Erasmo, de Wanderlea, Leno e Lilian…)
Outros dizem praticar arte de vanguarda, em pleno século XXI. Mencionando o fim da Arte, Arthur Danto e Clement Greenberg, além de Joseph Beuys. Pegam um berimbau e cantam o fim. Da arte.
Mas no duro, mesmo: é o fim da picada.
Cada um escolhe um peixe pra vender. Outros só vendem história de pescador.
Estes neochatos macaqueiam seus símiles (ou símios?) nos grandes centros, e gostam de posar, discutindo conceitos de Baudrillard, Foucault e Tiririca, como a “morte da arte” ou da pintura, “questionamento do suporte”, na literatura o “fim da autoria” e o “fim do enredo”, no teatro e na dança os “atos liminais” e no cinema, “atenção flutuante” e “deslocamento do foco narrativo”. No circo, “palhaço que é tiririca, pior que tá não fica”.
Lembro-me do artista Ermelindo Nardin, já falecido, dizendo que, em 80 anos de vida, já tinha presenciado umas três ou quatro vezes a “Morte da Pintura” ser decretada…
Tudo isso embalado pela morte da Beleza e a glorificação do feio, do sujo e do malvado. Um novo evangelho, moderno, e um de seus profetas, senão o maior, é Marcel Duchamp. Este foi um humorista, mais do que artista autêntico. Enganou um mundo que queria ser enganado, foi levado a sério quando, desde o começo, anunciou que estava fazendo piada da Arte, sem excluir a moderna.
Duchamp é quem fez esta maravilha, acima, caso você não saiba, ou não se lembre. Fez não, ele nos disse ter tirado o mictório do lixo e o “ressignificado”. Dizem que, ao fazer isto, inaugurou uma nova era na Arte. Realmente, uma nova era necessariamente não quer dizer que seja uma era melhor.
Arauto da morte do Bem, da Verdade e da Beleza, ao lado de tantos outros, desejou sua consumação por mero prazer pela destruição. Como um Stockhausen, que confundiu os sinais quando comentou que os ataques do 11 de setembro e as quedas das Torres Gêmeas foram “a maior obra de arte imaginável para todo o cosmos”.
O século XX foi o espaço e tempo para a militância por esta destruição da Arte, e junto dela, o Bem, a Verdade, a Beleza, a Justiça. Por fim, a morte anunciada triunfou.
Estamos doentes hoje, como indivíduos e como sociedade, por causa dela. Eis a fonte dos males da nossa época “pós-contemporânea”, que é tão mentirosa e cínica, que não chama nem a a mentira de mentira, e sim, de “pós-verdade”.
Ah, e sim, intelectuais papagueiam esta morte da Beleza e da Arte, sem entender muito bem o que significa. E só chateiam. Um deles arranha um instrumento de cordas e acha que está fazendo música de vanguarda. Outro e outra fazem uns bordados malfeitos em cima de pano de saco - bordado é modinha, mas tem que ser feio, malfeito, para denunciar, criticar, acabar com a graça de quem queira ver ali algo bonito. Todos têm um discurso que doura tão bem a pílula, que parece até que Mozart ou Michelangelo ficam no chinelo, se comparados a eles.
Ainda bem que eles só frequentam eventos bem identificados com sua forma de pensar, agir, “difundir cultura” e “fazer Arte” do jeito certo, ou seja, do jeito que eles fazem - arte e cultura “críticas, denunciando os males do capitalismo e da sociedade pós-industrial” e “do lado dos menos favorecidos”, desavergonhadamente militantes, meras ferramentas políticas, em alguns casos banners explícitos de propaganda de tal e tal grupo partidário. Para felicidade minha e de quem mais tiver algum tutano, dá para saber que eventos são esses, onde e quando acontecem, e desviar deles.




