
Enquanto a bela jovem se refresca sob uma ducha, é possível ver a silhueta de alguém entrando no banheiro. De repente, o vulto de uma velha abre a cortina do box com força. A jovem se vira para a velha, assustada, e solta um grito, que é abafado pelos golpes de faca desferidos pela assassina. Em outro ambiente, um garotinho pedala seu velocípede pelos corredores acarpetados de um hotel quando é surpreendido por duas misteriosas meninas gêmeas, que usam vestidos azuis claros e o olham fixamente, convidando-o para “brincar com a gente… para sempre”.
As cenas descritas são de filmes clássicos do suspense e do terror. Trata-se de Psicose (1960), de Alfred Hitchcock, e O Iluminado (1980), de Stanley Kubrick. Certamente, o frio na espinha que a memória das cenas pode provocar no leitor não se deve apenas à descrição feita em texto. Muito do terror construído por Hitchcock se deve aos enquadramentos e à montagem, ao uso de luzes e sombras e à trilha sonora inconfundível. Já Kubrick constrói uma escalada de tensão ao filmar o garoto Danny em um plano-sequência por trás do velocípede, fazendo com que o espectador siga a criança pelos grandes corredores. A diferença entre os sons produzidos pelas rodinhas em contato com os pisos de madeira e carpete também contribui para elevar a tensão até o encontro com as gêmeas.
Cada elemento no cinema cumpre uma função de produzir emoções e sentidos. Por isso, a mera descrição das cenas pode fornecer uma ideia do enredo do filme, mas é insuficiente para provocar as mesmas emoções mediadas pela visão e a audição, sobretudo nas obras de terror. Foi pensando nisso que uma pesquisa de doutorado em Linguística Aplicada realizada no Instituto de Estudos da Linguagem (IEL) da Unicamp se debruçou sobre o trabalho de audiodescrição, recurso que garante a acessibilidade de obras audiovisuais a pessoas cegas ou com baixa visão. Partindo do conceito de tradução intersemiótica, que encara a audiodescrição como um processo de tradução entre sistemas de signos diferentes – de imagens para palavras –, Marcella Wiffler Stefanini propôs inovações para a audiodescrição de filmes de terror. A tese teve orientação da professora Érica Luciene Alves de Lima.

Traduzir o medo
Traduzir vai muito além de converter a mensagem de uma língua para outra. Na visão do linguista russo Roman Jakobson, existem três tipos de tradução: a intralingual, quando buscamos sinônimos ou parafraseamos ideias dentro de nossa própria língua; a interlingual, quando trocamos um idioma por outro; e a intersemiótica, quando há uma troca entre sistemas de signos diferentes. “Há um consenso nas pesquisas de que a audiodescrição é uma tradução intersemiótica. Porém, os profissionais vêm de áreas muito diferentes, então falta um aprofundamento teórico maior sobre por que ela é uma tradução”, avalia a pesquisadora.
No caso da audiodescrição, o trabalho envolve converter signos imagéticos em elementos verbais, que são vocalizados para pessoas com deficiência visual. O desafio é traduzir em signos verbais as nuances da linguagem cinematográfica. Por exemplo, como descrever um zoom sobre o semblante de um personagem, ou uma edição de planos que gere tensão no espectador? Isso exige dos audiodescritores uma dose de subjetividade na construção textual. O problema é que isso é desencorajado pelos manuais de audiodescrição brasileiros, que recomendam a maior objetividade possível. “Eu vejo algo nas imagens, você vê outras coisas. Eu interpreto as imagens de uma forma, você pode interpretá-las de outra maneira”, diz Stefanini. Por isso, ela propõe uma forma de audiodescrição que possa dar conta desses aspectos por meio de adjetivos, advérbios e escolhas lexicais, mas também pela entonação na locução dos roteiros.
A escolha pelos filmes de terror se justifica pela facilidade com que os espectadores podem reconhecer as emoções provocadas por aquele gênero. Para testar as possibilidades de uma audiodescrição que envolvesse a subjetividade, Stefanini utilizou dois trechos do filme Enjaulado (1997), média-metragem brasileiro dirigido por Kleber Mendonça Filho. Em um primeiro momento, ela construiu dois roteiros de audiodescrição: um seguindo os protocolos convencionais, e outro com indicações de subjetividade e de locução expressiva. Após um primeiro teste com cinco espectadores cegos, optou-se por um só roteiro, com variações na locução do audiodescritor. Essa etapa contou com o apoio de uma consultora cega.
Após a construção do roteiro e gravação das duas locuções, os trechos foram exibidos a um grupo de outros 17 espectadores cegos. Todos ouviam os trechos com locução protocolar e com locução expressiva e, depois, respondiam a um questionário em que relatavam as emoções sentidas nas duas modalidades. Ao final, a conclusão foi de que 19 dos 22 participantes de uma das duas etapas do estudo preferiram uma locução mais expressiva, afirmando que esse estilo parece mais alinhado ao tipo de narrativa.

Parte do processo
Para a pesquisadora, a experiência da pesquisa impacta na forma como o trabalho da audiodescrição pode ser planejado. “Tudo depende do gênero do filme e das emoções associadas, mas eu defendo que o audiodescritor olhe para os aspectos cinematográficos, para os enquadramentos, leve em conta a trilha sonora. Isso para que a descrição não antecipe aquilo que os outros elementos trarão nas cenas”, pontua.
Essa estratégia influi diretamente no planejamento da audiodescrição. Segundo a orientadora da pesquisa, há um problema quando ela não é vista como parte do processo de produção dos filmes. “Às vezes, por conta de um segundo de tela, não conseguimos inserir uma palavra da audiodescrição. Se ela estiver presente desde o início, vários problemas podem ser evitados e várias escolhas podem ser feitas para favorecer esse trabalho”, argumenta Lima, que defende uma ampliação no conceito de tradução trabalhado nas universidades. “A audiodescrição não se restringe ao cinema. Existem a televisão, o streaming, as exposições em museus. Por isso, defendo que os cursos de tradução também contemplem a tradução intersemiótica, como é o caso da audiodescrição.”
Matéria: | Jornal da Unicamp.



