Pesquisadores propõem ação global contra ciclones, que ameaçam espécies
As ações do projeto também podem ser aplicadas ao contexto brasileiro.
A Lista Vermelha da União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN) é uma velha conhecida dos ambientalistas. Criada em 1964, o catálogo traz dados sobre o estado de conservação de diversas espécies de animais, plantas e fungos, classificando-os de “pouco preocupantes” a “em risco de extinção” ou “extintos”. O índice separa as espécies ameaçadas dentro de alguns critérios, sendo um deles “Mudanças climáticas e clima severo”. Essa, no entanto, é uma classificação ampla que acaba deixando de lado um fenômeno atmosférico específico: os ciclones.
Um artigo publicado na revista Nature Ecology & Evolution sugere que os ciclones estão ficando mais intensos e, consequentemente, torna-se necessário olhar especificamente para as espécies insulares que são atingidas por essas tempestades e correm riscos de extinção. O trabalho é fruto de um encontro da IUCN realizado em Cali, na Colômbia, em 2025, em que membros do Grupo de Especialistas em Planejamento de Conservação (CPSG) da União se reuniram para discutir novas ações globais em prol da proteção das espécies.
“Pensando na questão do planejamento, ciclone é uma coisa super difícil de lidar. Eventualmente está tudo bem e, repentinamente, ele chega e destrói toda uma região”, explica Fabio Stucchi Vannucchi, professor do Departamento de Ciências Biológicas e Ambientais do Instituto de Biociências da Unesp, câmpus do Litoral Paulista, e membro do CPSG. O pesquisador compara a ameaça do fenômeno a outras com efeitos graduais, como a perda de habitat na Amazônia, que é igualmente preocupante, mas permite aos especialistas e governantes um maior tempo para agir. Além disso, Vanucchi aborda a questão humanitária relacionada ao impacto dos ciclones. “O planejamento prévio para a diversidade permite que os recursos sejam direcionados para onde são mais necessários diante de cenários críticos”, explica Vannucchi.
Novas ações podem evitar a perda de espécies
Os ciclones sempre existiram, mas o pesquisador, que trabalha com a modelagem matemática das populações de espécies, caracteriza a importância de olhar para esse fenômeno e seus efeitos na biodiversidade em um contexto de maior intensidade das tempestades combinadas ao chamado vórtice de extinção.
“Quando a população está muito pequena, ela pode cair no vórtice de extinção. Toda a vida e reprodução dessas espécies envolve aleatoriedades. Podemos falar que a arara tem, em média, dois filhotes. Mas isso é a média – às vezes são três, às vezes só um e às vezes nenhum. Quando a população é muito grande, essa flutuação não faz muita diferença. Mas quando a população é muito pequena, essas flutuações são devastadoras”, caracteriza Vannucchi.
Dentre as sugestões levantadas pelos pesquisadores, está a criação de uma lista de atenção para juntar espécies ameaçadas por conta dos ciclones. Esses animais vivem, sobretudo, em ilhas na região do Caribe, Madagascar e Micronésia. Os répteis e as aves são os principais alvos dessa defesa. Em estudo anterior, outros pesquisadores que também estiveram envolvidos no artigo publicado na Nature já haviam listado as espécies que merecem maior atenção, embora essa seja uma classificação acadêmica e ainda não oficial.
O trabalho de conservação envolve um “antes”, um “durante” e um “depois”. Após a confecção da lista e da sua adoção por parte da IUCN, os pesquisadores sugerem, por exemplo, a retirada de alguns indivíduos de espécies insulares ameaçadas, formando populações de segurança. Esses grupos de animais seriam deslocados do habitat natural antes mesmo da ocorrência de um desastre, sendo mantidos em zoológicos ou instituições de pesquisa para garantir a manutenção da espécie.
Há ainda a possibilidade de montar biobancos a partir da obtenção e do congelamento de tecidos dos animais ameaçados. Isso permitiria, no futuro, a reconstrução da espécie, embora Vannucchi considere a iniciativa de difícil execução e pouco efetiva. “Reconstruir uma espécie é muito difícil. Você vai ter um monte de clones, mas a espécie é mais do que um DNA. É preciso uma diversidade genética. Em um grupo pouco diverso, por exemplo, se houver uma doença, todos responderão igual, podendo morrer da mesma forma”, explica.
Há ainda medidas que podem ser tomadas para evitar diretamente o efeito dos ciclones nas populações que continuam nas ilhas. É preciso observar quais são as espécies mais ameaçadas para criar planos de contingência em que, logo após o alerta severo de condições meteorológicas, seja possível enviar um grupo ao local para retirar o máximo de animais da ilha e colocá-los temporariamente em abrigos seguros. Além de extrair as espécies do ambiente, devem ser criados ainda espaços de acolhimento reforçados dentro das ilhas, em que a fauna pode ser colocada sem riscos durante a passagem dos ciclones.
Após o desastre, não basta soltar ou devolver o animal à ilha. Os cientistas defendem a mobilização de equipes para auxiliar na reconstrução do ambiente e, consequentemente, na alimentação dos animais. Na falta de plantas e presas naturais, deve-se considerar a inserção temporária de ração na dieta das espécies afetadas, entre outras medidas.
Mais de 60% das extinções terrestres conhecidas ocorreram em ilhas oceânicas tropicais. No artigo, os pesquisadores usam como exemplo o caso do papagaio-de-porto-rico (Amazona vittata), que viu sua população na Floresta Nacional El Yunque (EYNF) diminuir de 56 para apenas três aves em 2017, após a passagem dos furacões Irma e Maria. Em 2022, a população local aumentou para 32 papagaios após esforços de conservação que incluíram populações selvagens e populações de segurança, cujos animais já haviam sido separados em instalações para trabalhos de recuperação a longo prazo antes do desastre natural.
Aplicações no Brasil
No Brasil, vale uma atenção especial para as regiões costeiras do Sul e Sudeste. Essa parte do país tem sofrido com os chamados ciclones-bomba, fenômeno caracterizado pela queda brusca da pressão atmosférica em seu centro, de pelo menos 24 hectopascais em 24 horas.
Embora menos frequentes do que nas ilhas citadas anteriormente, os vendavais no Brasil também colocam espécies ameaçadas em uma maior situação de risco, como é o caso do mico-leão-da-cara-preta (Leontopithecus caissara), que habita os municípios de Guaraqueçaba, no Paraná e Cananéia, em São Paulo. Outro animal vulnerável é o papagaio-de-peito-roxo (Amazona vinacea), presente na região da Mata Atlântica e que necessita de florestas preservadas para prosperar, já que usa os buracos ocos dos troncos para fazer seus ninhos.
Apesar do artigo focar na questão dos ciclones, Vannucchi reforça que as medidas de preservação podem ser projetadas para outros eventos climáticos extremos, como incêndios florestais. “Tudo isso cai em um grande assunto, que é o planejamento para a conservação. A Unesp tem potencial para amparar políticas públicas. Estamos focados agora na IUCN, mas podemos ter até mesmo uma ação coordenada com o Ministério do Meio Ambiente”, reflete o cientista sobre o potencial da pesquisa.
Matéria: Carolina Fioratti | Jornal da USP.







