Impacto do álcool na microbiota intestinal varia entre camundongos machos e fêmeas
Estudo da USP identificou alterações na diversidade bacteriana e possíveis biomarcadores de disbiose associados ao consumo de etanol

Oconsumo de álcool pode alterar a composição das bactérias que vivem no intestino, e esses efeitos podem variar de acordo com o sexo e com o padrão de ingestão da bebida. Estudo realizado na Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (FMRP) da USP demonstrou, em modelo animal, que o etanol — principal tipo de álcool presente em bebidas alcoólicas — promove redução significativa da diversidade bacteriana em ambos os sexos, mas de forma diferente, e também dependente do padrão de consumo.
Diante das lacunas no conhecimento sobre como diferentes formas de consumo de álcool influenciam o microbioma intestinal (interação das bactérias com os genes), a pesquisa investigou de que maneira o padrão de ingestão de etanol e o sexo biológico modulam essas alterações na microbiota de camundongos. O objetivo foi compreender não apenas mudanças na composição microbiana, mas também suas possíveis repercussões no organismo.
Segundo Carla Brigagão Pacheco da Silva, uma das autoras do estudo, quando há um desequilíbrio nas bactérias que vivem no intestino — condição chamada de disbiose — podem surgir efeitos prejudiciais ao organismo, incluindo maior risco de doenças cardiovasculares e lesões associadas ao consumo de álcool. “Considerando que já existem evidências de que homens e mulheres respondem de maneira distinta ao álcool, investigamos se essas diferenças também se manifestam na microbiota intestinal e se poderiam estar relacionadas aos danos vasculares induzidos pelo etanol”, explica a pesquisadora.
Carla Brigagão Pacheco da Silva – Foto: Cedida pela pesquisadora
DNA das bactérias da microbiota intestinal
Para testar suas hipóteses, os pesquisadores utilizaram camundongos, que foram submetidos a diferentes protocolos de exposição ao etanol, a fim de reproduzir distintos padrões de consumo observados em humanos: consumo crônico excessivo, consumo episódico excessivo (conhecido como binge drinking — termo usado para descrever a ingestão de grandes quantidades de álcool em um curto período de tempo) e a combinação de consumo crônico com um episódio agudo de binge.
Após os períodos de ingestão do álcool, foram coletadas amostras de fezes dos camundongos para analisar o microbioma intestinal. A partir dessas amostras, foi extraído o DNA das bactérias presentes. Em seguida, uma região específica do material genético bacteriano, amplamente utilizada para identificar diferentes tipos de bactérias, foi sequenciada por meio da plataforma Illumina, equipamento de última geração em sequenciamento genético.
Esse processo permitiu identificar quais bactérias estavam presentes no intestino dos animais e em que proporção, possibilitando avaliar tanto a composição quanto a diversidade da comunidade microbiana. Os dados obtidos foram analisados com o auxílio de ferramentas de bioinformática especializadas no estudo de microbioma, como o software QIIME.
A partir disso, dois aspectos principais foram avaliados. “A diversidade alfa bacteriana, que mede a diversidade dentro de uma amostra, e a diversidade beta bacteriana, que compara as diferenças entre os grupos experimentais”, explica Carla. “Também analisamos a abundância relativa das bactérias e utilizamos uma ferramenta chamada PICRUSt2 para prever o perfil funcional da microbiota, ou seja, quais vias metabólicas poderiam estar sendo afetadas”, diz.

Bactérias associadas à disbiose induzida pelo etanol
Os resultados mostraram que a exposição ao etanol promoveu alterações significativas no microbioma intestinal dos camundongos, e que esses efeitos variaram conforme o padrão de consumo e o sexo do animal.
“Nos machos, a combinação de consumo crônico com um episódio de binge provocou uma disbiose mais intensa, marcada por uma redução significativa da diversidade bacteriana. Já nas fêmeas, o consumo crônico isolado apresentou impacto mais acentuado sobre a microbiota”, explica a pesquisadora.
“Essa redução está frequentemente associada a uma maior vulnerabilidade a doenças, pois indica um desequilíbrio na microbiota”, afirma a pesquisadora, que acrescenta ainda ter identificado alterações no metabolismo, no processamento de informações genéticas e até em mecanismos associados a doenças neurológicas.
Além disso, a pesquisa também identificou que alguns grupos de bactérias — como Faecalibaculum, membros da família Lachnospiraceae e Alistipes — podem atuar como potenciais biomarcadores de disbiose associada ao consumo de etanol. “Essas bactérias podem estar envolvidas em processos inflamatórios e metabólicos, o que reforça a possível ligação entre alterações na microbiota intestinal e danos provocados pelo etanol”, afirma.
Alterações na microbiota podem influenciar doenças associadas ao álcool
O estudo concluiu que o consumo de etanol altera a microbiota intestinal de forma dependente do padrão de consumo e do sexo. Alterações essas que “podem preceder o aparecimento de sintomas clínicos e contribuir para a progressão de doenças por meio de inflamação sistêmica e translocação de metabólitos bacterianos para a circulação”, alerta Carla. Ela adianta que “a microbiota intestinal pode ser um elo importante entre o consumo de álcool e o desenvolvimento de doenças cardiovasculares”.
Segundo a pesquisadora, o próximo passo da pesquisa é investigar se o desequilíbrio das bactérias intestinais provocado pelo álcool pode levar à liberação de substâncias produzidas por esses microrganismos na corrente sanguínea, entre elas, o fMLP, um tipo de peptídeo — molécula pequena formada por aminoácidos, que são os blocos que compõem as proteínas.
Substâncias como o fMLP, continua Carla, podem ativar receptores presentes nas células do corpo e contribuir para alterações nos vasos sanguíneos, especialmente na região abdominal e nos tecidos que os envolvem. “Nosso objetivo é compreender melhor os mecanismos que conectam microbiota intestinal, inflamação e lesão vascular induzida pelo álcool.”
Matéria: Hugo Carcci | Jornal da USP.




