Alerta da OMS: 75% dos casos de deficiência visual poderiam ser evitados com prevenção ou tratamento
Ruth Santo e Ana Escobar comentam a importância de consultas regulares ao oftalmologista e do diagnóstico precoce para a manutenção de uma boa saúde ocular

No dia 10/7 é comemorado o Dia Mundial da Saúde Ocular, definido pela Organização Mundial da Saúde (OMS) com a intenção de conscientizar a população mundial sobre alterações visuais e promover a saúde. Segundo a OMS, 75% dos casos de deficiência visual poderiam ser evitados com prevenção ou tratamento e, de acordo com o IBGE, mais de 6 milhões de pessoas têm algum tipo de deficiência visual no Brasil, com grande parte dessas deficiências evitáveis.
Dados do Conselho Brasileiro de Oftalmologia (CBO): cerca de 20% das crianças em idade escolar apresentam alterações visuais, sendo as mais comuns a miopia, a hipermetropia e o astigmatismo. Além das alterações comuns, condições como o retinoblastoma, um câncer que acomete crianças pequenas, mais comum em bebês, se diagnosticado tardiamente pode provocar cegueira e até levar à morte. Quando diagnosticado precocemente e tratado, pode alcançar 90% de cura, inclusive com a preservação da visão.
Cuidados na infância
A saúde ocular recebe destaque na primeira infância: a cada ano, cerca de 500 mil novas crianças ficam cegas e quase 60% delas não sobrevivem em razão das mesmas causas que as deixaram cegas. Segundo o Conselho Brasileiro de Oftalmologia (CBO), cerca de 80% dos casos de cegueira infantil podem ser prevenidos ou tratados com diagnóstico e cuidados adequados. Ana Escobar, médica pediatra e professora da Faculdade de Medicina (FM) da USP, destaca o papel dos pais e a importância das crianças passarem por exames com um oftalmopediatra.

“O sistema visual da criança não nasce pronto. Ele se desenvolve até os 7, 8 anos de idade. A criança precisa enxergar para desenvolver o cérebro: se o centro da visão não recebe as imagens nítidas de ambos os olhos nesse período, a visão não vai se desenvolver plenamente”, explicou a médica. Ana enfatiza o diagnóstico precoce dentro de um período chamado de plasticidade neuronal do córtex visual, quando o cérebro ainda tem a capacidade de mudar a estrutura e o funcionamento da visão em resposta a experiências sensoriais. “Esse período dura até os 6, 7 anos de idade e é uma janela de oportunidade gigantesca. A plasticidade cerebral diminui consideravelmente a partir dessa faixa, o que dificulta uma intervenção e resulta em uma eficácia reduzida. Em alguns casos, pode significar a perda visual irreversível.”
A professora chama atenção para doenças oculares potencialmente graves, como o retinoblastoma, o glaucoma congênito e a ambliopia. “Se diagnosticado em tempo, conseguimos reverter 100%”, destacou. O papel dos pais também é enfatizado. Eles devem estar atentos aos sinais e sintomas que possam indicar uma alteração visual: sintomas comuns são a leucocoria (conhecida como olho branco), estrabismo, lacrimação excessiva, fotofobia (sensibilidade à luz), franzir os olhos para enxergar, coceira excessiva dos olhos, entre outros sinais.
A pediatra também destacou sintomas comportamentais, como queda no rendimento escolar, desinteresse por atividades visuais, problemas para brincar, quedas e tropeços excessivos, dificuldade em participar de atividades sociais e desinteresse. “A criança deixa de ver a vida. Olhar e enxergar o que está à nossa volta é uma forma de vida”, destacou Ana.
Outro problema destacado foi a promoção de saúde ocular via saúde pública. Na maternidade é feito o “teste do olhinho”, e, após isso, a criança saudável, que não apresentou problemas, deve fazer sua primeira consulta com o oftalmologista entre os 6 e 12 meses de idade, explicou a professora. “Na rotina, as pessoas não conseguem esse acesso via sistema público. O resultado disso é que, quando finalmente vai ao médico, a criança já tem um grau de deficiência visual muito grande, o que dificulta a qualidade de vida e saúde ocular daquela criança.”
Uso excessivo de telas

Ruth Santo, professora do Departamento de Oftalmologia da Faculdade de Medicina (FM) da USP, enfatiza o excessivo uso de telas no dia a dia como fator de preocupação para a saúde ocular. “Não é só uma questão de lazer, mas também educacional. Muitos programas escolares já utilizam das tecnologias, e observamos uma grande relação com o aumento da miopia e o excesso do esforço visual de perto”, explicou Ruth.
“Para enxergar e focalizar objetos ou textos próximos, a musculatura enrijece; quando olhamos para longe, a musculatura relaxa. O que acontece hoje é que não estamos relaxando nunca, principalmente as crianças. O sistema delas é muito dinâmico, e elas não se cansam das telas. Isso tem contribuído para o desenvolvimento de miopia e acelerado o processo de pessoas propensas ao transtorno”, pontuou a médica.
Outro fator que as telas influenciam é que piscamos menos, por estarmos focados no conteúdo assistido. “O cérebro entende que, se piscarmos, vamos perder o foco, perder um momento importante. Isso deixa nosso olho mais exposto e seco, o que causa no longo prazo alterações na superfície, uma sucessão de problemas.” Ruth destaca a problemática para crianças e adolescentes, que não costumam se queixar, mas defende uma atenção para adultos e jovens adultos que trabalham com telas e também estão sujeitos a esses problemas.
Para ficar de olho
Além do diagnóstico precoce, fatores como alimentação balanceada, controle de doenças crônicas (diabetes, hipertensão) e descansar a visão de tempo em tempo são medidas que auxiliam a saúde ocular. É indispensável também a consulta regular a um oftalmologista, mesmo sem sintomas.
Ruth destaca doenças associadas à idade, como a catarata, associada ao envelhecimento do cristalino. “Quanto antes fizermos o diagnóstico, antes conseguimos a intervenção cirúrgica. Contamos com um avanço muito grande da tecnologia, das técnicas e das lentes utilizadas, promovendo um grau maior de correção. O paciente não precisa mais passar longos períodos sem enxergar até o momento da cirurgia. Após uma consulta com um oftalmologista e a indicação de cirurgia, a intervenção já pode ser realizada, garantindo uma qualidade de vida muito maior.”
Fatores ambientais também afetam a saúde como um todo, mas especialmente a ocular: baixa umidade do ar, uso indiscriminado de ar condicionado, poluição atmosférica, entre outras razões comportamentais, como o uso excessivo de telas, o uso de maquiagens. A professora destaca a educação e o acesso como dois pilares da política de saúde pública, para garantir o conhecimento e o atendimento médico. “Infelizmente o acesso da nossa população ao conhecimento é muitas vezes limitado, por isso a importância desse Dia Mundial para chamar atenção. A informação, a prevenção e o diagnóstico precoce andam juntos para garantir um tratamento precoce e uma maior qualidade de vida para as pessoas. A visão te confere autonomia, produtividade em termos de trabalho, lazer e bem-estar. A saúde ocular tem que ser uma prioridade dentro de políticas públicas de saúde”, complementou Ruth.
Matéria: Davi Milani | Jornal da USP.



