Algo sobre Jorge Luis Borges e "Tlön, Uqbar, Orbis Tertius"
Ler as imaginações borgianas é como usar um óculos de realidade aumentada
Jorge Luis Borges, como Homero, brilhou e ficou cego.
SOBRE BORGES
O que dizer de Jorge Luis Borges que já não foi dito? Corremos o risco de nos perdermos na própria biblioteca de Babel. Ou de lermos a literatura de Borges com os olhos emprestados a ele próprio.
Isso já aconteceu comigo, e já aconteceu com você: ao final do livro, você retorna ao começo para relê-lo, agora com os olhos da história com a qual acabou de reaprender a ler. Ler tudo.
O risco sempre presente é cair no Labirinto borgiano. Para quem acontece isto, desesperadamente, tenta romper suas paredes, libertar-se de um caminhar inútil, num caminho escuro, embora cheio de vozes. Inútil, pois quebrar muros e paredes do labirinto somente amplia os caminhos possíveis dentro da estrutura.
Já viram, Borges é, sozinho, uma literatura que encerra um cosmo, pois encerra em si mesmo a descrição do interminável, do cíclico, como o labirinto, o Aleph, a serpente que come o próprio rabo e engole a si mesma. Todas imagens usadas ou criadas pelo argentino.
O espelho: o autor oferece um espelho não à realidade, mas ao próprio leitor e sua experiência leitora. O leitor é seu espelho. O resultado são aquelas imagens de dois espelhos que se refletem, infinitamente, no sumidouro do espelho da nossa visão. Lemos Borges, mas ele nos leu primeiro. De novo, tento quebrar os muros do labirinto, mas só digo obviedades.
O tigre e suas listras: cor sim, cor não, para mim há de render mais que a metáfora, batidíssima, da história que se tece, os fios sendo palavras, o bordado de Penélope etc. Voltarei a isto.
A biblioteca de Babel amalgamou-se com a Aldeia Global de McLuhan, e hoje temos, voilà, a internet. Um meio complicado de nos conectar com nossos mortos. Em escala global, com os nossos e com os dos outros.. Orwell: “Nós somos os Mortos”. Por isso, nós que aqui estamos, por vós esperamos. Omnes similes sumus, tantum nom.
Onde alguns de nós moramos. Onde queremos morar por toda a eternidade.
O aleph: o buraco negro, a Singularidade. Tudo em si, num único ponto. Os textos borgianos como Horizonte de eventos. Massa contida em um ponto infinitesimal: toda a literatura universal, passada, presente e futura. Densidade infinita. Uma imagem mal-disfarçada do próprio Borges.
A estrutura labiríntica, espiralada, da literatura borgiana, a biblioteca de Babel e sua mente gödeliana: M.C. Escher.
Tlön, Uqbar, Orbis Tertius
É um conto e é um mundo, que contém em si o mundo, a literatura, a sua produção e sua autocrítica. O que não foi dito sobre Tlön será tudo, pois o aleph borgiano é o coração de mãe da crítica literária, onde sempre cabe mais uma ponderação, um afago, um deleite na visão do prisma escheriano.
A história é mais uma descrição da experiência de descoberta / criação de um novo mundo. Mas o que parece ser a descoberta de um novo mundo, de facto é uma criação - que não se diferencia da descoberta.
O mundo de Tlön existe literariamente, e não fisicamente; nem por isso é menos real para Borges ou para os seus criadores, uma seita secreta que, ao longo de dois séculos, forjou “A First Encyclopedia of Tlön”.
Esta enciclopedia enumera todo o conhecimento não só de um país imaginário, como os descritos por Gulliver em suas Viagens ou Thomas More em sua Utopia, mas todo o saber de um planeta diverso do nosso.
Poderia somente emular o maravilhamento, o sense of wonder, presente em todos nós, leitores, quando descobrimos o mundo novo de experiências de um universo ficcional - de Jules Verne, de Frank Herbert, H.P. Lovecraft, Machado de Assis ou Ignacio de Loyola Brandão.
O que diferencia, porém, o conto de Borges de todos estes outros universos é que o planeta Tlön existe apenas no conceito, em uma obra literária. Foi uma criação dos homens. Borges abre o jogo desde o começo e diz que Tlön não existe.
Assistindo ao mágico muito habilidoso, esperamos que a magia se realize sem a quebra da ilusão. Que a realidade não se intrometa, que as leis naturais suspendam-se por alguns momentos. Torcemos para que o mágico muito bom não falhe, na sua mágica anunciada.
Borges não nos decepciona, e dá o “duplo salto carpado” ao sustentar o “trompe l’oeil”, a ilusão: ele nos avisa que, em Tlön, tudo é invenção dos homens. Esta invenção dos homens é inventada por ele, contudo. Como Shakespeare e Cervantes, ele cria seres que criam outros seres e mundos, gera demiurgos.
No final do texto, em seu apêndice, fala da “mania por Tlön” que assalta todo o mundo conhecido, que começa a utilizar as supostas bizarrices inventadas pelos homens da sociedade secreta, como transformar substantivos em verbos; como de “lua” deriva o verbo “lunescer”, como o mundo começa a pensar de forma berkeleyiana.
Faz uma brincadeira elaborada, certamente intencional, com a proposta enlouquecida de James Joyce, com suas “palavras-valise”. Borges dá-se ares de profeta a “prever” que sete anos depois de publicado o conto, o mundo teria sido tomado por tal “mania”.
George Berkeley e suas imaginações imaterialistas.
Ele quase acerta, pois o mundo foi tomado, não por Tlön, não por construções alternativas e imaginativas da realidade, mas por descontruções da linguagem, baseadas, aí sim, em ideologias tão distantes da realidade quanto as do bispo Berkeley (embora imaginativas, embora geniais).
Uma dessas mudanças foi na direção do 1984 de George Orwell. A distopia orwelliana prescinde da imaginação, e a odeia (assim como nós, em pleno sol do meio-dia do século XXI); a de Borges, é construída toda sobre ela, embora baseada em uma filosofia enganadora.
A Novilíngua é uma das mães da Pós-Verdade, mas não é a única. Poderia falar da psicanálise e todas as suas vertentes, da Escola de Frankfurt, da poesia concretista e de Marcel Duchamp, dos fascismo e futurismo, de John Dewey, Piaget e Paulo Freire, mas o papel acabou.



