Alzheimer: entenda como é feito o diagnóstico e quais são os critérios médicos
Academia Brasileira de Neurologia se dedica a elaboração de diretrizes nacionais para consenso clínico adotado no país; diagnóstico precoce pode melhorar a qualidade de vida de pacientes

O sistema de saúde brasileiro segue uma série de critérios para o diagnóstico da doença de Alzheimer. O Departamento Científico de Neurologia Cognitiva e do Envelhecimento (DCNCE) da Academia Brasileira de Neurologia (ABN) tem se dedicado à elaboração de diretrizes nacionais — sendo o responsável pelo primeiro consenso adotado no País em 2005. O processo diagnóstico é relatado na série de artigos de Dementia & Neuropsychologia (2022) da ABN, com participação de neurologistas e outros profissionais de saúde dedicados aos cuidados de pessoas com demência.
O diagnóstico é sobretudo clínico, isto é, baseado na análise dos sintomas e histórico médico, com comprovação por biomarcadores. O primeiro passo, uma anamnese (entrevista estruturada) detalhada, permite a confirmação do diagnóstico, estabelecendo o estágio evolutivo da doença e a diferenciando de outras doenças neurodegenerativas. As perguntas feitas ao paciente e ao seu familiar devem abarcar alterações cognitivas, funcionais e neuropsiquiátricas como depressão, ansiedade, apatia, alucinações, comportamento motor atípico e problemas cognitivos — a exemplo dos conhecidos lapsos de memória e a dificuldade para encontrar palavras ou nomear objetos e pessoas.
Também entram na lista de critérios a avaliação neurológica, que investiga o sistema motor e sensorial do paciente, e testes cognitivos. Diante da busca por diagnóstico diferencial de condições potencialmente reversíveis, exames laboratoriais e de neuroimagem são obrigatórios. “O exame de ressonância magnética afasta causas expansivas e vasculares e, na doença de Alzheimer, pode mostrar atrofia nas regiões temporais, mediais ou nas regiões parietais altas”, ilustra Sonia Brucki, professora do Departamento de Neurologia da Faculdade de Medicina da USP (FMUSP) em entrevista. Já o PET-FDG, combina a tecnologia da tomografia por emissão de pósitrons (PET) com glicose marcada para medir o consumo de glicose pelas células. Ele é usado no diagnóstico para investigar o metabolismo nas regiões cerebrais.
A comunidade médica ainda tem aperfeiçoado o diagnóstico de Alzheimer por meio do uso de biomarcadores. No líquido cefalorraquidiano, fluido que envolve o sistema nervoso central, eles se manifestam pela diminuição da proteína beta-amiloide e pelo aumento da proteína tau total e, principalmente, da p-tau (tau fosforilada). Essas proteínas conduzem, respectivamente, à formação das chamadas placas senis (ou amiloides) — associadas à danificação dos neurônios — e dos emaranhados neurofibrilares, que resultam na perda cognitiva. “O acúmulo de beta-amiloide nas placas extraneuronais e os emaranhados neurofibrilares vão levar a uma degeneração progressiva dos neurônios. E essa é justamente a característica da doença de Alzheimer, a perda celular”, afirma ela.
Sonia Brucki divide a doença em três fases: a pré-clínica, que pode corresponder à fase assintomática, porém com biomarcadores positivos ou declínio cognitivo subjetivo, em que a pessoa apresenta queixas cognitivas; o comprometimento cognitivo leve, que soma aos lapsos de memórias, complicações na linguagem e função motora; e, posteriormente, a demência. A demência da doença de Alzheimer caracteriza-se pela interferência desses sintomas nas atividades diárias e na autonomia do paciente.
Consenso clínico
Em 2024, segundo dados do Ministério da Saúde, quase 2 milhões de brasileiros com 60 anos ou mais viviam com o Alzheimer. Em um país populoso como o Brasil, que ainda enfrenta condições de atendimento médico desiguais e pouco ideais, além do envelhecimento populacional, a projeção é de que esse número triplique até 2050. O cenário explica a procura por parte dos médicos de um diagnóstico padronizado: eles buscam estabelecer condutas, normas, recomendações e sugestões que permitam a melhora na relação entre acurácia e tempo de avaliação — isso tudo, claro, com o menor custo.
Essa saga começou em 2003, quando a Academia Brasileira de Neurologia (ABN) solicitou a alguns de seus pesquisadores que redigissem temas relacionados ao diagnóstico da doença de Alzheimer no Brasil. Assim, eles analisaram consensos internacionais já publicados até chegarem a uma alternativa que fizesse sentido no contexto nacional. Os achados resultaram em uma sequência de artigos, o primeiro deles publicado em 2005, que teve seus critérios atualizados em 2011 e, mais recentemente, em 2022.
Uma das adaptações acordadas está na atenção primária oferecida aos pacientes. A sugestão é que, já nessa etapa, se façam os testes cognitivos de rastreio e os testes laboratoriais e, uma vez caracterizado o comprometimento cognitivo, o paciente pode ser encaminhado para assistência especializada. “Em muitos locais no Brasil, você não tem condições de fazer ressonância, apenas tomografia”, frisa Sonia Brucki. “A gente segue os padrões internacionais, de modo que o diagnóstico seja homogêneo no mundo inteiro, mas esses critérios foram adaptados para o nosso uso.”
Renato Anghinah, neurologista e professor da FMUSP, fez parte das duas primeiras publicações. Ele defende que o consenso clínico vai além das explicações óbvias. “A primeira necessidade, claro, é você ter um roteiro para que os médicos possam entender.” Mas, mais do que isso, o consenso evita que pacientes sejam submetidos a exames (e custos) desnecessários, principalmente no caso dos biomarcadores. “Se a pessoa já está em um estágio mais avançado e o médico pede esses biomarcadores, isso não faz nenhum sentido, nem para o paciente, nem para o diagnóstico”, diz ele.

O processo da doença de Alzheimer começa anos antes do aparecimento das primeiras manifestações clínicas, sendo possível observar a presença da condição em pessoas assintomáticas, a partir da análise de biomarcadores. Para Anghinah, pensar neles a partir do contexto brasileiro é o diferencial no diagnóstico. “Tem alguns exames [para biomarcadores] que ainda nem estão plenamente aprovados pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária, a Anvisa. Já outros, o custo versus a taxa de efetividade para o diagnóstico não se justifica, comparado a algum outro exame semelhante com um custo muito mais barato”, explica.
Um destes casos é o da tomografia computadorizada, que está amplamente disponível pelo Brasil e apresenta menor custo, sendo utilizada na atenção primária. Ela pode equivaler à ressonância magnética para descartar lesões estruturais cerebrais, por exemplo.
O artigo Diagnóstico da doença de Alzheimer: recomendações do Departamento Científico de Neurologia Cognitiva e do Envelhecimento da Academia Brasileira de Neurologia está disponível neste link.
Matéria: Amanda Nascimento | Jornal da USP.





