Lutei muito para não envelhecer. Pelo bem da verdade, ignorei a possibilidade do envelhecimento a vida toda. No entanto, meu espelho me joga na cara que o tempo passou. Os sinais são evidentes. “Mas que passe o tempo e que ele não se intrometa na minha vida”, eu disse uma vez a alguém que admirava minha disposição para a ironia.
Minha mulher insiste para que eu tire a carteira de idoso. “Facilita o estacionamento do carro”. Eu me nego. “Dane-se o carro. Não vou assinar esse atestado assim de mão beijada. Enquanto eu puder resistir, resistirei”. Ela acha esse meu princípio uma teimosia, uma bobagem.
Envelheci sem me planejar. Eu era jovem até ontem mesmo. Agora tenho até doença autoimune para deixar evidente que a natureza é senhora do processo. “Mas não precisa me esculachar assim em frente de todo mundo”, penso quando meu filho me chama a atenção, dizendo que meu comportamento é de 60+, cheio de frases de efeito de outra época e que não fazem mais sentido.
“Alto lá, meu jovem. Vou fazer um quadro com o meu retrato e ele vai continuar envelhecendo e eu não”, respondo ao meu filho. “Pai, também li ‘O Retrato de Dorian Gray’ e isso não funciona. Além de que, o personagem era um devasso imoral, que morre no final, com envelhecimento acelerado e doentio. E o quadro volta a retratar quando ele era jovem. Aceite a velhice que dói menos.”
Me pego então tomando cerveja zero, postura que me joga em uma cadeira de balanço. “Isso não!” Desespero-me. A médica me orienta: “Nada de álcool. Seu fígado e rins estão bons, mas eles precisam ser preservados para os medicamentos diários. É isso ou acelerar a morte.”
Se não tem escolha, rendo-me. Preciso me acalmar. Vou aprender a jogar gamão, voltar a ler Machado de Assis, tirar a carteira de idoso e reler Oscar Wilde. Mas uma coisa manterei até a morte. Porque sei que senso de ironia não mata e rir da velhice me parece o melhor remédio para que o jogo continue. Afinal, hoje tem Flamengo, no Maracanã.



