Antes que a tragédia se instale
Grupo do Ambulatório de Substâncias Psicoativas do HC da Unicamp já reúne cerca de 30 pessoas que buscam tratamento regular por conta da dependência em apostas
A percepção de um aumento na procura por atendimentos relacionados à dependência em apostas online levou o Ambulatório de Substâncias Psicoativas (Aspa) a criar um grupo específico para pessoas com problemas relacionados às chamadas bets. A iniciativa começou em abril em uma área do Hospital de Clínicas (HC) e, desde então, a equipe passou a dedicar especial atenção a casos envolvendo endividamento, perda de controle e, o maior alerta, relatos associados a pensamentos suicidas.
A iniciativa já reúne mais de 30 pessoas que buscam regularmente esse tipo de apoio. O atendimento começa pelo acolhimento, sempre às quartas-feiras, das 8h às 11h30. Não é necessário agendamento, basta fazer cadastro na recepção do hospital e seguir para o acolhimento. O objetivo é oferecer um ambiente protegido, sem julgamentos e com garantia de sigilo. Antes do encaminhamento, os participantes respondem a um questionário que aponta o grau de presença das apostas em seu cotidiano. Geralmente, o interesse pelo jogo surge na esperança de reforçar o orçamento ou atenuar as dificuldades em um momento de desemprego, ou ainda pela ilusão de estar diante de um investimento.
A psiquiatra e professora da Faculdade de Ciências Médicas, Renata Azevedo, responsável pelo trabalho, conta que a demanda surgiu inicialmente entre pacientes que já eram acompanhados por problemas relacionados ao consumo de álcool, tabaco e outras drogas. Com o tempo, porém, pessoas sem histórico de dependência de substâncias também começaram a procurar ajuda por causa das apostas.
A estratégia, segundo a psiquiatra, é oferecer informação para que a pessoa busque ajuda o mais cedo possível, evitando avançar a um estágio mais problemático. “A equipe buscou referências em um serviço da USP [Universidade de São Paulo], que já atendia pessoas com dependência comportamental em jogos e, posteriormente, estruturou o grupo aqui na Unicamp. Em junho, profissionais da rede pública de Campinas também foram capacitados para identificar e encaminhar pacientes com problemas relacionados às apostas. A capacitação, inicialmente planejada para 40 pessoas, recebeu 110 inscrições”, lembra Azevedo. A estratégia prevê ampliar o atendimento para além do ambulatório, com a participação de Unidades Básicas de Saúde (UBSs) e dos Centros de Atenção Psicossocial (Caps) campineiros.
O serviço tem recebido principalmente adultos na faixa dos 30 a 40 anos. Atualmente, há uma maioria de homens – 75% do total -, embora também haja um número considerável de mulheres entre os pacientes.
“Adolescentes também apresentam risco de desenvolver transtornos relacionados ao jogo, mas esse público ainda não chega com frequência aos serviços de atendimento. Uma das possíveis explicações é o menor acesso deles ao dinheiro, o que pode retardar o aparecimento de problemas como o endividamento e também o momento em que as famílias percebem a situação”, diz a responsável pelo Aspa.
Vergonha
Um dos principais obstáculos para a busca por ajuda é a vergonha. De acordo com a psiquiatra, pacientes frequentemente escondem da família as dívidas e a perda de controle sobre as apostas. Alguns chegam ao atendimento no HC da Unicamp constrangidos e demoram a se apresentar quando são chamados para participar do grupo. “Quando avisamos do início do atendimento, alguns continuam sentados, esperam algum tempo e só depois levantam e se dirigem às salas. Eles não querem ter seus nomes ligados a isso publicamente”, conta Azevedo.
A responsável pelo Aspa explica ainda que a dependência de jogos apresenta uma característica particular. Ao contrário de outras drogas, em que o usuário não costuma acreditar que uma nova dose resolverá seus problemas, o jogador pode manter a expectativa de que uma nova aposta permitirá recuperar o dinheiro perdido. “Essa percepção está relacionada a uma distorção cognitiva. O paciente passa a acreditar que esteve perto de ganhar e que, na próxima tentativa, poderá recuperar as perdas e solucionar as dificuldades financeiras. É comum que essas pessoas consigam dizer exatamente o quanto já ganharam, mas têm dificuldade para dimensionar quanto já perderam”, revela a psiquiatra.
A facilidade de acesso proporcionada pelos celulares é apontada como um dos fatores que ajudam a explicar o rápido avanço das bets. Disponível diretamente no smartphone, o jogo pode ser realizado a qualquer momento, sem a necessidade de deslocamento até um estabelecimento físico, como acontecia com os bingos, por exemplo.
Desespero

A percepção de perda de controle e o agravamento das dívidas estão entre os principais fatores que levam os pacientes a procurar atendimento. A psiquiatra responsável pelo Aspa reforça a preocupação com o risco de suicídio. Segundo ela, profissionais que atuam no Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu) de Campinas têm recebido cada vez mais chamados de pessoas com ideação ou tentativa de suicídio associadas ao desespero provocado pelo endividamento decorrente das apostas.
Parte do problema está relacionada à maneira como essa atividade é apresentada ao público, avalia Azevedo. Influenciadores, atletas, artistas e outras pessoas com grande exposição nas redes sociais transmitem a falsa ideia de que apostar é divertido e permite obter lucro rápido e fácil.
A psiquiatra destaca que o perfil socioeconômico dos apostadores com problemas reforça a preocupação e a necessidade de uma ação. Dados de estudos epidemiológicos indicam maior concentração de dependentes entre pessoas de baixa renda, incluindo aquelas que recebem até um salário mínimo. Nesse contexto, a expectativa de obter uma renda adicional pode funcionar como um dos fatores que levam ao início das apostas. Neste caso, não é algo pela “aventura de ganhar”, mas a busca por reforço em um orçamento familiar já bastante apertado.
A recuperação
A psiquiatra Renata Azevedo, atua há cerca de 30 anos com dependências dos mais variados tipos e considera totalmente possível a recuperação dos envolvidos em apostas online. Ela defende a regulamentação e maior fiscalização da prática, com amplo acesso do público a informação e tratamento para reduzir os danos do jogo.
Entre as medidas disponíveis até o momento está o sistema de autoexclusão, criado pelo Governo Federal, que permite ao indivíduo bloquear o próprio acesso a plataformas legalizadas.
Acesse para mais informações sobre o serviço.
É um passo importante, mas não é tudo. Empresas consideradas ilegais seguem atuando no país. O Governo Federal já bloqueou mais de 50 mil sites, aplicativos e plataformas clandestinas, mas os envolvidos continuam driblando a fiscalização por meio de servidores internacionais e alternativas como os canais do Telegram.
Além do Aspa na Unicamp, pessoas com problemas relacionados ao jogo ainda podem buscar ajuda em unidades de saúde, Caps ou serviços especializados. O tratamento combina avaliação individual, acompanhamento em grupo e, quando necessário, medicamentos para o controle dos impulsos.
A participação da família, segundo Azevedo, também é fundamental. Os parentes são orientados a não fornecer dinheiro para apostas nem tratar o jogo como investimento. No próprio Aspa, parentes de dependentes já se organizam dessa forma, para trocar informações e apoio. Dos especialistas, eles ouvem a orientação.
A docente aponta ainda a necessidade de uma maior responsabilidade sobre a publicidade de bets. “Ampliar o debate sobre os riscos das apostas é essencial para estimular a busca por ajuda antes que o problema se agrave”, reforça a psiquiatra.
Pensamentos “mágicos” e a falsa sensação de domínio sobre a máquina
Outro aspecto observado pelos profissionais que atuam no Ambulatório de Substâncias Psicoativas (Aspa), localizado no Hospital de Clínicas (HC) da Unicamp, é a crença de que o conhecimento sobre o funcionamento das apostas aumenta as chances de vitória. O apostador pode interpretar uma sequência de resultados como evidência de que aprendeu a “jogar melhor”, mesmo diante de perdas sucessivas.
Esse mecanismo pode alimentar os chamados pensamentos “mágicos” e gerar a falsa sensação de controle. A pessoa passa a atribuir significado a acontecimentos aleatórios – como sonhos, sinais ou sequências de vitórias e derrotas – e acredita que consegue antecipar o resultado.
Para a psiquiatra, é necessário ampliar o conhecimento da população sobre o funcionamento dos jogos de azar – por meio de um maior letramento digital, por exemplo –e deixar claro que compreender as regras não significa controlar o resultado.
Assista ao programa Analisa com a psiquiatra Renata Azevedo:
RAIO-X DA DEPENDÊNCIA
A Organização Mundial da Saúde (OMS) reconhece a ludopatia como um transtorno mental e uma dependência comportamental
Entre 2018 e 2023, o número de atendimentos a dependentes em jogos aumentou 1.094% no Brasil
As apostas online, conhecidas como bets, provocaram uma saída líquida de R$ 62,5 bilhões do orçamento das famílias brasileiras em 2025, segundo a terceira edição do Boletim Fiscal dos Estados Brasileiros.
EM BUSCA DE AJUDA
Frases de dependentes em apostas online (depoimentos concedidos sob sigilo):
“Este mês não resisti: usei o dinheiro do aluguel para jogar e tive que pedir ajuda para a minha família, que tem poucos recursos.”
“Sei que não posso jogar, mas ainda não consigo parar.”
“Eu não tinha com quem conversar; aqui sinto que posso falar sem sentir medo ou vergonha.”
“Existem horários em que as plataformas pagam mais e é mais fácil ganhar, porém não consigo sacar o dinheiro ganho porque continuo jogando e acabo perdendo tudo novamente.”
“Estou há mais de um mês sem jogar, entendi que tenho que parar.”
“Ninguém sabe que eu jogo e estou endividado. Tenho vergonha de falar até para a minha mãe.”
“Sempre paguei minhas contas certinho, mas depois que viciei passei a dever para muitas pessoas, inclusive no meu trabalho.”
Matéria: Fábio Gallacci | Jornal da Unicamp.




