Antilado preferido
A decisão eleitoral vai ser pelo voto da desconfiança; um eleitor, por sinal, que prefere esperar um outro momento para decidir qual será seu candidato
Pela pesquisa Datafolha, divulgada nesta sexta-feira (24), na qual o presidente Lula aparece à frente de Flávio Bolsonaro em um eventual segundo turno da eleição presidencial, percebemos a continuidade do empate técnico entre ambos, como se o processo eleitoral estivesse praticamente congelado, com pequenas variações, desde o início.
Em um eventual segundo turno, o atual presidente aparece com 48% das intenções de voto contra 43% do senador fluminense, demonstrando assim a dificuldade de Lula disparar à frente, com tantas notícias contra seu opositor e ele tendo a máquina pública e muitos bilhões para queimar ao seu favor.
Esse fato exige uma leitura cautelosa sobre o que está acontecendo e o que pode acontecer no processo eleitoral. Se Lula não avança, mesmo tendo seu opositor na berlinda, isso significa que o voto antiLula é muito forte no país. Se Flávio não avança, isso significa que o voto antiFlávio também é muito forte no país. Por outro lado, não há um nome representativo na terceira via até o momento capaz de concentrar os votos desse eleitorado nem nem.
Bolsonaro
Flávio escorregou com as notícias sobre recursos financeiros estranhos que recebeu do Banco Master, irrigando a produção do filme “Dark Horse”, sobre seu pai, Jair Bolsonaro; Flávio escorregou quando arrumou uma treta com sua madrasta Michelle Bolsonaro, perdendo voto feminino; continuou escorregando com a notícia de que prestou serviços advocatícios para uma empresa do esquema de Daniel Vorcaro, suposto dono do Banco Master.
Mesmo com todo esse barulho contra ele, sai agora uma pesquisa do Datafolha confirmando que Flávio continua na cola de Lula em volume de votos. Dentro de um empate técnico, digamos assim.
Lula
Lula, por sua vez, está devidamente protegido pelo STF e pela Polícia Federal. Todas as investigações que poderiam envolvê-lo direta ou indiretamente e prejudicar sua campanha de alguma forma, devido a esquemas suspeitos, estão paralisadas. Campanha carnavalesca antecipada; o envolvimento do filho Fábio em mesada do Careca do INSS; o caso de Jaques Wagner com Vorcaro; o fato de ele saber dos problemas do Banco Master há muito tempo e nunca ter feito nada... Nada disso está no radar eleitoral e ele segue incólume.
Em um cenário tão favorável, seria natural que Lula capitalizasse os votos nem-nem. Mas não é isso o que acontece.
O eleitorado nem-nem representa outros 30% da massa de eleitores, ficando um volume de votos na mesma proporção para cada lado dos extremos. Isso indica que há uma parcela expressiva da população que quer mudança, sem se prender à polarização direita/esquerda, mas que não vê nascer um nome com força para representá-la. Pela estrutura que Lula tem para se projetar, estando à frente de um governo populista, era para ele estar com uma margem muito maior de votos em relação ao seu adversário.
Por outro lado, as desvantagens para a imagem de Flávio em relação à de Lula não mudam a base de apoio do Bolsonaro, composta por um eleitorado fiel e que se mantém estável. Estamos diante de um caso emblemático. Parcela expressiva antiLula não vê Flávio como alternativa. Parcela expressiva antiFlávio não quer mais Lula. Em determinado momento, a montanha nem nem vai implodir, vai decidir e o movimento que a maioria dos seus fizer vai determinar o vitorioso em uma eleição baseada na rejeição e não no apoio.
Vai ser o voto da desconfiança. Eleitor, por sinal, que prefere esperar um outro momento para decidir qual será seu candidato, enquanto o ambiente estiver assim tão contraditório e desinteressante. Mas, ao fim e ao cabo, qual será seu lado, ou seu antilado preferido?




