
Durante o aprendizado do idioma japonês, o principal obstáculo de alunos estrangeiros é dominar os milhares de caracteres que formam os ideogramas — ou kanji, de acordo com a nomenclatura local —, um dos sistemas de escrita utilizados no País. A metodologia tradicional de ensino da linguagem se baseia na memorização por repetição, o que faz com que muitos estudantes desistam de aprender devido ao tédio ou à demora para obter resultados.
Com o objetivo de facilitar o estudo do idioma, um trabalho da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP na área de Língua, Literatura e Cultura Japonesa investigou a etimologia dos kanji para definir a origem e as conexões entre os caracteres. O objetivo foi construir base teórica para uma metodologia que favoreça a memorização ao inserir os kanji em um contexto amplo, ao invés de apresentá-los como elementos isolados. “Uma sequência de 20 palavras aleatórias, por exemplo, pode ser mais difícil de decorar. Mas quando essas 20 palavras formam uma frase, elas passam a fazer sentido e se tornam mais fáceis de lembrar”, aponta Augusto Mendes Duarte, autor da pesquisa.
Por meio da análise de 11 dicionários em japonês, chinês e inglês, o pesquisador agrupou e comparou ideias de diferentes teóricos acerca da origem de cada caractere. Além de se dedicar à análise crítica das linhas de pesquisa e abordagens típicas das principais obras contemporâneas sobre a temática, Mendes também reuniu informações para compor o primeiro dicionário de caracteres na língua portuguesa, que tem seu lançamento previsto para o ano de 2027.

A origem dos ideogramas orientais
Os caracteres que compõem o kanji são derivados do hanzi, sistema de escrita chinês que surgiu há cerca de 3,5 mil anos como instrumento de documentação de rituais religiosos ligados aos oráculos. Devido à influência exercida pela China sobre a Ásia Oriental durante milênios, esses elementos de sua linguagem foram adotados posteriormente por outros territórios na região, como Japão, Vietnã e Coreia. Os termos kanji, hanzi e hanja — nomenclaturas japonesa, chinesa e coreana para o sistema de escrita, respectivamente — originam-se de uma mesma palavra, 漢字, normalmente traduzida como “ideogramas” ou “caractere chinês”.
“Como esses países adotaram esse sistema de escrita para representar a própria linguagem, logicamente muitas coisas não batiam, porque são línguas diferentes”, comenta Rodrygo Tanaka, orientador do trabalho. A necessidade de adequação aos idiomas locais fez com que os caracteres chineses passassem por adaptações e, em alguns casos, fossem utilizados juntamente com sistemas de escrita complementares. Atualmente, esses caracteres são utilizados em frequências distintas em cada um dos países pelos quais foram adotados.
Na Coreia do Sul, são usados apenas para solucionar casos de ambiguidade, pois há uma grande quantidade de palavras homófonas — ou seja, com significados diferentes e uma mesma pronúncia — no vocabulário. “Em certas palavras chinesas, as sílabas são iguais, mas têm tons diferentes na pronúncia. Os japoneses e coreanos importaram muitas palavras do chinês, mas não adotaram a diferença de tons, e elas acabaram com o mesmo som”, explica Mendes. No Japão, embora os kanji também ajudem na distinção de palavras ambíguas, seu uso transcende essa função e seu emprego é feito na maior parte das frases.

De maneira distinta ao alfabeto latino, utilizado em idiomas como o português, o inglês e o espanhol, o sistema de escrita por caracteres não se baseou inicialmente em um modelo fonético. Em vez de associar símbolos a fonemas, seus caracteres foram concebidos originalmente para representar ideias, objetos e conceitos por meio de figuras. Esses símbolos gráficos são conhecidos como ideogramas.
Porém, criar novas imagens para representar todos os objetos e conceitos existentes tornou-se inviável, e alguns caracteres passaram a ser formados por junções entre ideogramas preexistentes. De acordo com Mendes, essas composições são feitas a partir de relações lógicas que representam um contexto: os caracteres para verbos como “pisar” ou “chutar”, por exemplo, contêm o componente de pé somado a outros elementos referentes à ação.
Outros elementos adicionados para diferenciar os ideogramas são os componentes fonéticos. Enquanto os elementos semânticos demonstram o significado do caractere por meio da construção de sentido feita pelas ilustrações, os fonéticos têm função de indicar a pronúncia da palavra representada. De acordo com Mendes, mais de 70% dos caracteres são categorizados tradicionalmente como fonossemânticos, ou seja, formados por ambos os tipos de componentes.
Contradições históricas
Devido a sua origem milenar e às adaptações e simplificações que os caracteres sofreram ao longo do tempo, muitos teóricos atuais têm visões conflitantes sobre seus significados. “Um dos autores mais conhecidos, Shizuka Shirakawa, faz interpretações que tendem para o âmbito religioso, o que o faz divergir de outros autores em relação a diversos caracteres”, exemplifica o pesquisador.
Além disso, os componentes fonéticos também se tornaram alvo de discussão. Enquanto alguns teóricos consideram que sua função seja apenas indicar a pronúncia, outros acreditam que essa parte do caractere também possa conter carga semântica, ou seja, ser útil para a interpretação do significado do ideograma. Em sua dissertação, que foi financiada durante a etapa final pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), Mendes buscou abordar tanto a etimologia dos kanji quanto os impactos semânticos dos componentes fonéticos, com o objetivo de tecer relações aprofundadas entre os caracteres e facilitar seu aprendizado por meio da contextualização.

Atualmente, como doutorando na Universidade de Hiroshima, no Japão, o pesquisador dá continuidade à coleta de informações que serão reunidas no primeiro dicionário de caracteres escrito em língua portuguesa. Além do compilado comparativo de pesquisas preexistentes, o material também irá conter conclusões do próprio autor e curiosidades interlinguísticas que visam facilitar a assimilação do conteúdo. Apesar do enfoque inicial da pesquisa ter sido o kanji, o dicionário também pretende contribuir para o ensino de coreano e mandarim ao incluir as adaptações e pronúncias dos caracteres nessas linguagens.
“Eu vi uma oportunidade de encaixar os caracteres — que antes eram tidos como algo separado, feitos por componentes que não faziam sentido — e correlacionar suas diferentes famílias para ajudar futuros alunos a se lembrarem melhor”, comenta o autor. Além do desenvolvimento do dicionário, Mendes também direciona a pesquisa ao âmbito social por meio da produção de conteúdos educativos sobre a temática para as redes sociais. As postagens estão disponíveis gratuitamente no Instagram e no Youtube.
A dissertação Interpretações dos Kanji está disponível no Banco Digital de Teses e Dissertações da USP: https://teses.usp.br/teses/disponiveis/8/8157/tde-27032026-145454/pt-br.html
Matéria: Hellen Indrigo | Jornal da USP.



