Aprendizado motor independe dos níveis iniciais de autoeficácia e de motivação, conclui estudo
Estudo mostra que a autoeficácia, crença na própria capacidade pessoal, pouco influencia a aprendizagem de uma nova habilidade motora

Um trabalho de pesquisadores do Laboratório de Comportamento Motor (Lacom) da Escola de Educação Física e Esporte (EEFE) da USP trouxe novos dados sobre os fatores que influenciam a aquisição de habilidades motoras. O estudo, realizado por Eduardo de Souza Paula, sob orientação do professor Flavio Henrique Bastos, investigou se a autoeficácia, a crença da pessoa em sua própria capacidade, influencia a motivação intrínseca e o desempenho durante o aprendizado de uma nova habilidade motora, ou seja, os movimentos do corpo direcionados para uma meta.
A hipótese inicial partia da ideia, amplamente discutida na literatura científica, de que pessoas mais confiantes tenderiam a apresentar maior motivação e melhores resultados de aprendizagem. No entanto, os resultados apontaram um cenário diferente: os níveis iniciais de autoeficácia e motivação intrínseca explicaram apenas 1% da variação no desempenho final dos participantes. Segundo a pesquisa, as descobertas sugerem uma dinâmica inversa: no primeiro contato com uma habilidade complexa, é a própria prática que fortalece gradualmente a autoconfiança e a motivação intrínseca.
O estudo contou com a participação de 93 universitários sem experiência prévia na atividade experimental. A tarefa consistia em sincronizar um clique do mouse com o momento exato em que um alvo móvel atingia um ponto fixo na tela. Para aumentar a dificuldade, o alvo desacelerava e desaparecia instantes antes do ponto de chegada, reduzindo pistas visuais e aumentando a dependência do feedback recebido durante a prática.
Logo após a prática, e novamente 24 horas depois, os participantes realizaram testes sem receber qualquer tipo de feedback, permitindo verificar se o aprendizado havia sido consolidado. Durante o experimento, os pesquisadores também aplicaram questionários com o objetivo de avaliar os níveis de autoeficácia e de motivação intrínseca dos voluntários na tarefa.
A hipótese inicial era de que níveis mais altos de autoeficácia levariam a maior motivação intrínseca e melhores resultados na aprendizagem motora. Para aprofundar a investigação, o estudo também acompanhou a forma como os voluntários solicitavam feedback ao longo da prática.
Impacto da autoeficácia no desempenho
Participantes tinham de sincronizar clique do mouse com momento em que alvo móvel atingia ponto fixo na tela; alvo desacelerava e sumia antes da chegada, reduzindo pistas visuais e aumentando dependência do feedback recebido durante prática – Foto: Livia Borges/EEFE
Os resultados mostraram uma queda significativa nos erros para a maior parte dos participantes ao longo da prática. Os níveis iniciais de autoeficácia e de motivação intrínseca explicaram apenas 1% da variação no aprendizado final, o que sugere baixa influência desses fatores na aquisição da nova habilidade.
Ao mesmo tempo, tanto a autoeficácia quanto a motivação intrínseca aumentaram durante o experimento, sugerindo que a prática em si fortalece a autoconfiança e o engajamento dos participantes. “Isso sugere que, em novas habilidades, talvez não seja a confiança inicial que determine a aprendizagem. Na verdade, é a própria prática que ajuda a construir confiança e motivação ao longo do processo”, comenta Souza Paula.
Para o pesquisador, os achados ajudam a compreender melhor os fatores envolvidos na aprendizagem motora. “O estudo mostra insights importantes em relação ao início da prática de uma nova habilidade motora, na qual a motivação intrínseca e autoeficácia inicial parecem não ser tão importantes para o sucesso da aprendizagem”, enfatiza.
Outro dado observado foi a alta frequência de solicitações de feedback, presente em cerca de 88% das tentativas realizadas. Em vez de buscarem feedback de forma estratégica para confirmar seus acertos, a maioria admitiu uma decisão prévia de solicitar ajuda em quase todas as tentativas. Segundo o autor, esse comportamento pode tornar o aprendizado mais superficial, já que reduz a oportunidade de autoavaliação e aumenta a dependência de respostas externas.
A dissertação aponta limitações, como o uso de apenas uma tarefa motora e de um único grupo experimental. Ainda assim, os resultados reforçam que, embora fatores psicológicos tenham papel importante no processo de aprendizagem, eles não substituem a prática estruturada nem o uso estratégico do feedback na construção de novas habilidades motoras.
A pesquisa é relatada na dissertação de mestrado O papel da autoeficácia na relação entre motivação intrínseca e aprendizagem motora e pode ser acessada na íntegra neste link: https://teses.usp.br/teses/disponiveis/39/39136/tde-08052026-141730/pt-br.html
Matéria: Luiza Caires | Jornal da USP.




