Ferramenta para aquicultura de precisão criada em incubadora da Unesp é premiada em evento nacional da área
Aqua-On Plus oferece monitoramento ambiental em tempo real e de baixo custo para produtores de peixes. Projeto recebeu Prêmio Inovação Aquícola 2026

O projeto Aqua-On Plus, uma estação de monitoramento inteligente desenvolvido na Incubadora Tecnológica Aquário de Ideias, no câmpus da Unesp em Registro, foi o primeiro colocado na categoria Produção do Prêmio Inovação Aquícola 2026, que celebra soluções que impulsionam a eficiência e o crescimento da aquicultura no Brasil. A premiação foi concedida durante a última edição da Aquishow, um dos principais eventos da América Latina na área de produção de peixes, realizado na cidade de Uberlândia, em Minas Gerais.
Além da premiação concedida ao Aqua-On Plus, a própria incubadora da Faculdade de Ciências Agrárias do Vale do Ribeira (FCAVR) também foi agraciada na categoria Academia, que reconhece projetos desenvolvidos por universidades e institutos de pesquisa.
O equipamento, que ao longo da sua elaboração contou com recursos da Fapesp e do governo federal, permite a coleta automatizada e a transmissão remota de informações limnológicas e meteorológicas em tempo real. Dessa forma, o dispositivo fornece dados que podem apoiar o produtor no monitoramento ambiental e na gestão dos seus sistemas aquícolas. Um ponto importante, segundo seus idealizadores, é que a tecnologia foi concebida para ser acessível, modular e adaptável às diferentes realidades da aquicultura brasileira.
O equipamento premiado no evento é uma continuação do projeto Aqua-On, iniciado ainda em 2022. Na época, a principal motivação do projeto foi desenvolver um sistema para monitoramento ambiental que gerasse informações capazes de auxiliar o produtor em geral. A nova versão, entretanto, procurou tornar a inovação mais acessível, diminuindo o seu custo, mas sem abrir mão das soluções tecnológicas para o apoio dos sistemas de produção.
“Buscamos desenvolver uma solução mais alinhada à redução de custos do sistema, pensando principalmente nos pequenos e médios produtores”, explica a engenheira de pesca Brennda Cheretti, uma das idealizadoras do projeto premiado. Atualmente cursando o doutorado na Unesp, ela explica que o acesso à ciência e à tecnologia ainda é algo caro para aqueles produtores que retêm menos lucro. Nesse sentido, a expectativa é que o barateamento do equipamento permita alcançar principalmente esses grupos.
Trajetória do projeto até o mercado pode levar anos
Apesar do reconhecimento por parte do setor aquícola observado no evento em Uberlândia, o Aqua-On Plus ainda não está totalmente concluído. Segundo seus desenvolvedores, ainda é necessário a finalização tecnológica antes de a inovação ser encaminhada ao mercado. Cofundador da Incubadora Tecnológica Aquário de Ideias e coautor do projeto, o professor Érico Tadao Teramoto explica um pouco do processo de desenvolvimento do projeto desde 2022 até aqui.
Segundo Teramoto, o processo da inovação tecnológica desde a ideia inicial até o momento de o produto ser levado aos produtores costuma levar anos. Em termos técnicos, explica o docente do curso de engenharia de pesca da Unesp, os pesquisadores elevaram, ao longo dos últimos quatro anos, um projeto que estava no nível 2 de maturidade tecnológica (TRL) para o nível 7. Em linhas gerais, essa trajetória significa que o Aqua-On Plus passou pela ideação, foi testado em ambiente laboratorial controlado e, por fim, aplicado em fazendas de piscicultura para simular o funcionamento no mundo real.
“Futuramente, nós temos a intenção de buscar o depósito da patente junto à Agência Unesp de Inovação (AUIN). Depois de depositada a patente, pensamos em fazer o licenciamento junto às startups e empresas interessadas nessa tecnologia e na sua comercialização”, explica Teramoto.
Cinco protótipos da tecnologia Aqua-On Plus foram colocados em tanque localizado no Vale do Ribeira para testar a estrutura e o seu funcionamento em um ambiente real. Crédito: Arquivo Pessoal
Uma nova geração de ferramentas para a aquicultura de precisão
Responsável por disciplinas voltadas à bioeconomia, inovação e empreendedorismo, o professor da Unesp Guilherme Wolff Bueno também está envolvido no projeto do Aqua-On Plus. Para ele, esse trabalho representa uma nova geração de ferramentas para a aquicultura de precisão. “Essa tecnologia permite monitorar continuamente parâmetros ambientais e produtivos, fornecendo informações em tempo real que auxiliam os produtores na tomada de decisão, reduzindo riscos operacionais e aumentando a eficiência dos sistemas de cultivo”, destaca. Na prática, o docente acredita que com o uso da tecnologia, os aquicultores devem ver uma menor ocorrência de perdas produtivas, além da otimização de insumos e aumento da sustentabilidade ligada à atividade.
Para testar o seu funcionamento no mundo real, os pesquisadores realizaram duas simulações: na primeira, o protótipo foi colocado em um tanque escavado na região do Vale do Ribeira, possibilitando à equipe verificar se o equipamento conseguiria realizar leituras, como de parâmetros de qualidade da água, sem apresentar erros ou sofrer danos estruturais.
Depois, o Aqua-On Plus passou para um reservatório em maior escala, no município de Chavantes, no interior de São Paulo, o que permitiu à equipe obter dados mais precisos de como o equipamento se comportaria em um ambiente próximo da realidade produtiva, com estresses reais causados por mudanças no clima e precipitações, por exemplo.
A ferramenta demonstrou um desempenho positivo durante as avaliações, mas deve passar ainda por uma última rodada de testes e aprimoramento antes do pedido de patente. Cheretti acrescenta que o Aqua-On Plus não se restringe ao uso em tanques de peixes. Quando produzido em larga escala e comercializado ao público, o equipamento poderá ser usado também em outras produções aquícolas, como camarões e moluscos. “Esse tem sido o ano de colher os louros”, brinca Cheretti sobre o atual estado de desenvolvimento do projeto, que já começa a receber reconhecimento na área e ser indicado a premiações.
Teramoto destaca o modelo de desenvolvimento do Aqua-On Plus baseado na coletividade, com participação de diferentes atores, desde startups até empresas do setor aquícola e produtores rurais. Para se ter uma ideia dessa ação conjunta, além do câmpus de Registro da Unesp, o desenvolvimento da ferramenta também envolveu pesquisadores da Embrapa, Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) e Instituto Federal de São Paulo (IFSP) – câmpus de Registro. “A gente acredita em inovação aberta, que eu considero que deve ser o caminho daqui para frente”, diz o professor.
Um espaço para alunos tirarem as ideias do papel
Os cientistas também destacam a participação de diferentes alunos de graduação e pós-graduação da FCAVR ao longo do projeto, que contribuíram para o seu sucesso. “O Aqua-On Plus é mais do que uma simples tecnologia, mas também um modelo de formação de talentos, empreendedorismo científico e transferência de conhecimento para a sociedade”, destaca Bueno. Para o professor, esse é justamente o diferencial que tem caracterizado a atuação da Unesp Registro e da Incubadora Tecnológica Aquário de Ideias. “Elas são estruturas capazes de transformar pesquisa em soluções, formar pessoas e criar oportunidades econômicas sustentáveis para o Brasil”, afirma.
Além da premiação pelo projeto inovador, o docente voltou de Uberlândia com um segundo troféu, conquistado na categoria Academia, que recebeu como representante da Incubadora. Bueno é um dos idealizadores da estrutura criada em 2016 a partir do alinhamento de instituições públicas e privadas localizadas no Vale do Ribeiro e no Litoral Sul do estado de São Paulo. A princípio, a proposta era ser um living lab para colaboração com empresas, governo e instituições de ensino. O projeto, contudo, foi ganhando corpo ao longo dos anos e atualmente integra redes de empreendedorismo e inovação em âmbito local, regional e nacional. Em Registro, a incubadora dispõe de uma estrutura de 1800 m2 dedicados a laboratórios, escritórios e salas para apoiar o desenvolvimento de projetos e estimular os estudantes e empreendedores da região do Vale do Ribeira a tirarem as suas ideias do papel.
Para Bueno, a dupla premiação em um dos principais eventos de aquicultura do país evidencia a capacidade da universidade pública de transformar ciência em impacto real para a sociedade. “Esse reconhecimento amplia a visibilidade da Unesp não apenas no cenário nacional, mas também internacional, demonstrando que é possível desenvolver tecnologias de ponta a partir do interior do país e gerar soluções alinhadas aos desafios globais de segurança alimentar, sustentabilidade, transformação digital e adaptação às mudanças climáticas”, celebra o docente.
Matéria: Carolina Fioratti | Jornal da Unesp.




