Grupo de extensão da USP investiga qualidade da areia comercializada na cidade de São Paulo
Projeto Areia Viva revela discrepâncias na qualidade de insumos vendidos no varejo e aponta subnotificação na produção nacional, evidenciando falhas na fiscalização do setor

Com o objetivo de investigar o uso de materiais sustentáveis na construção civil e alertar para problemas relacionados à qualidade da areia comercializada na cidade de São Paulo foi criado o projeto Areia Viva, iniciativa de extensão universitária da Escola Politécnica (Poli) em parceria com a Faculdade de Arquitetura e Urbanismo e de Design (FAU), ambas da USP. O projeto também busca destacar lacunas regulatórias que permitem que parte significativa da produção nacional permaneça fora dos registros oficiais.
Originado da atividade de extensão Insumos Minerais e Construção Civil Sustentável: o caso da areia, o projeto reúne estudantes de graduação em engenharia da Poli e arquitetura da FAU, sob orientação dos professores Maurício Bergerman, Carina Ulsen, André da Silva e Douglas Gouvêa, da Poli, e da professora Maria de Lourdes, da FAU. O objetivo é evidenciar a importância técnica, econômica e social da areia e promover seu uso sustentável.
Foi a partir de várias preocupações que surgiu o Areia Viva. Segundo recurso natural mais consumido no mundo, atrás apenas da água, a areia, junto com a brita, integra o grupo dos agregados minerais, responsáveis por cerca de um terço de todos os bens materiais consumidos pela humanidade. Apesar de sua presença constante na infraestrutura urbana, o setor de extração e comercialização desse insumo opera com baixa visibilidade e fiscalização limitada.
De acordo com um estudo do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA), cerca de 50 bilhões de toneladas de areia são extraídas anualmente no mundo. Esse volume cresceu significativamente nas últimas duas décadas e tende a continuar aumentando. Ainda assim, o material frequentemente é subestimado pela própria comunidade da construção civil.
No Brasil, o problema se agrava com a extração irregular. Pesquisa conduzida por Luis Fernando Ramadon, professor do Departamento de Engenharia de Minas e de Petróleo da Poli, indica que a exploração ilegal pode representar, em média, 60% da areia produzida no país. Isso significa que uma parcela expressiva do material comercializado não passa por fiscalização adequada, o que coloca em dúvida sua qualidade e origem e pode gerar impactos relevantes para a sociedade e o meio ambiente — desde a sonegação de impostos até riscos estruturais nas construções, além de desmatamento e degradação da fauna e da flora.

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Extração fragmentada
Diferentemente da mineração de metais, dominada por grandes corporações e com ampla visibilidade pública, a extração de areia é realizada principalmente por pequenos e médios produtores distribuídos pelo território nacional. Essa fragmentação, segundo Bergerman, dificulta a fiscalização. “Tendo em vista que a mineração de areia é realizada por pequenas e médias empresas, existe um grande número de minas em operação. Por si só, essa fiscalização já é complexa”, explica o professor.

Ele acrescenta que o problema é agravado pela estrutura limitada de órgãos responsáveis pela regulação do setor, como a Agência Nacional de Mineração (ANM) e entidades ambientais estaduais. “As equipes reduzidas tornam essa fiscalização ainda mais difícil.”
O impacto dessa fragilidade institucional chega ao consumidor final. Análises realizadas pelo projeto identificaram que amostras de areia comercializadas em sacos na capital paulista não atendem às normas técnicas vigentes. “O projeto mostrou que areias vendidas em alguns pontos da cidade de São Paulo não cumprem os padrões de qualidade e quantidade informados nas embalagens”, afirma Bergerman.
A baixa qualidade do insumo não é apenas uma questão comercial. Ela pode comprometer a segurança das construções. Segundo o especialista, a areia influencia diretamente o consumo de cimento e a durabilidade do concreto e da argamassa. “Uma areia de má qualidade pode gerar problemas importantes em uma construção”, alerta.
Além das análises técnicas, o estudo cruzou dados de produção declarada com o consumo de cimento no país, revelando um significativo vazio estatístico. A diferença entre o volume oficialmente extraído e o efetivamente utilizado sugere que parte relevante da produção não é declarada, resultando em evasão de impostos e prejuízo aos cofres públicos.
Para enfrentar o problema, Bergerman defende uma ação coordenada. “A solução é complexa e exige a atuação conjunta de órgãos públicos, entidades de classe e organizações de defesa do consumidor.” Nesse cenário, a universidade desempenha um papel estratégico na produção de conhecimento e na transparência das informações. “A Universidade pode mostrar a importância de utilizar areia de qualidade e contribuir com estudos que revelem o que está sendo comercializado”, afirma.
Clique no player abaixo para conferir o vídeo do projeto:
Pesquisa e formação acadêmica e social
A USP também tem avançado em pesquisas relacionadas à bioconstrução e ao uso sustentável de minerais, área em que se insere o projeto Areia Viva. A iniciativa busca alternativas para reduzir os impactos ambientais da extração e contribuir para a preparação das cidades diante das mudanças climáticas.
Além das análises laboratoriais, o grupo promoveu oficinas de construção sustentável para os estudantes envolvidos e realizou entrevistas e diálogos com comerciantes e comunidades para incentivar o uso consciente e sustentável da areia na construção civil.
As análises realizadas em amostras coletadas em 14 depósitos da cidade de São Paulo indicaram que uma parcela significativa da areia comercializada está em desacordo com as normas técnicas. As principais irregularidades incluem excesso de argila, variações na granulometria e peso inferior ao declarado nas embalagens — fatores que afetam diretamente a qualidade das construções e podem elevar os custos para o consumidor.
Além dos resultados técnicos, o projeto também contribuiu para a formação acadêmica e social dos estudantes, para a construção de uma casa modelo sustentável na comunidade Irmã Alberta e para a produção de materiais didáticos, como folhetos e um livreto informativo.
Para saber mais sobre o projeto Areia Viva, acesse o Instagram.



