Parte 01 de: Arte não é o que “eu e você” chamamos arte
Primeira parte de um raciocínio em construção sobre a Arte em nossa época
A validação de artistas e obras nunca foi feita unicamente por consensos - atenção para o advérbio: unicamente.
Parto do princípio de que todas as declarações sobre Arte são proveitosas para o público se nos auxiliam a preservarmos obras de arte, para serem devidamente apreciadas pelo maior número de pessoas no presente e no futuro. Ou seja, se ajudarem a escolhermos quais obras valem a pena serem guardadas, protegidas, para que possamos apreciá-las com atenção, cuidado, tempo, no tempo presente e também para os nossos filhos, netos, e todas as gerações que possamos alcançar com esse gesto. Do ponto de vista restrito da Arte, isso inclui critérios artísticos-estéticos, que por sua natureza, sempre serão restritivos.
I. Efeitos de uma frase inocente (na aparência)
Arte é o que eu e você chamamos arte é frase do crítico brasileiro de arte Frederico Morais. A frase de efeito intitula um livro que reúne perto de 800 frases de artistas e outros personagens do campo artístico, que pretendem definir Arte... ou não (como diria Baiano e os Novos Caetanos).
A frase “soa bem” aos ouvidos daqueles que, alegres e ingênuos, acreditam que “hoje pode tudo”, e que “basta se expressar” para participar do mundo no papel de artista. Não quero estragar a festa de ninguém, mas mesmo usando credenciais como essa frase para entrar no salão, aviso que você pode ser barrado no baile.
A ilusão moderna de que tudo deve ser permitido, que a liberdade não pode ter limites, senão nem liberdade seria; de que a liberdade não precisa, não pode e não quer ter consequências nem responsabilidades; tudo isso é aumentado quando tratamos das Artes. Pois o entendimento moderno é que as Artes são o campo onde a imaginação reina absoluta, e esta não pode ter nenhuma trava, nenhuma cerca. Nenhuma placa de “proibido”.
A Imaginação e a liberdade seriam amantes inseparáveis, que teriam gerado uma filha bonitinha (porém ordinária), a Arte Contemporânea.
É possível que você, ao ler o parágrafo, já tenha entendido que não é bem assim, mesmo na modernidade ultracontemporânea, ou seja, a que foi atualizada às 18h do dia de ontem (ou há um segundo atrás). Há várias cercas e placas de “proibido” na Arte Contemporânea. A maioria destas placas, ao contrário do que sua autoimagem lhe diz nos ouvidos, monta uma imagem da Arte atual como moralista e inquisidora, brandindo palavras de ordem e cancelamentos e, olhem só, até apagamentos (embora não admitam isto jamais).
Mas não me anteciparei. Antes de entrar em detalhes, deixem-me dizer quais são os efeitos da frase pretensamente inclusiva de Frederico Moraes, enganadora, falsa. Diria até que plena de má-fé. Antes de me chamarem cruel, por querer fechar uma cancela na porta dos “criativos”, digo que a frase, sim, está fundeada na crueldade, porque explora a ingenuidade dos que querem ser enganados por declarações do tipo.
Vejo na frase as pretensões de:
Parecer democrática, inclusiva: fica parecendo que a Arte, em sua totalidade de manifestações é acessível a qualquer um. De forma alguma isso é verdadeiro. Todos nós queremos que a arte seja acessível a todos, mas, na prática, no mundo real, não é o que infelizmente acontece.
Fazer parecer que a Arte somente é validada por consenso puro e simples: a frase declara que depende somente de “eu e você” nomearmos uma obra como “arte”, bastando nossa vontade e acordo a respeito. A validação artística, nesta mentalidade, resume-se, por não ter critérios estéticos-artísticos, a um ato político, de consenso.
Tornar completamente subjetiva a definição de arte, ou seja, coloca-a nas mãos do(s) apreciador(es), o(s) sujeito(s) que a contempla(m). Por si, tal viés é político pois tiraria o poder do circuito de validação artística (historiadores, críticos, curadores, museus, universidades, mercado de arte etc.) para consagrar novos artistas, e questiona os já validados. Seria o “primado do público”, do espectador / fruidor / consumidor, o que se liga a uma outra frase corrente (e demagógica): “quem faz o artista é o povo”. Que ignora a complexidade das relações emissor-receptor. Em resumo, também neste aspecto, é falsa e demogógica.
Ser charmosa e empoderadora, porque quando diz “eu e você”, está piscando um olho para o interlocutor, incluindo-o em algo que antes, parece, não fazia parte. Tira da frente o “autoritarismo” de críticos e outros validadores da arte, que estariam “impondo” artistas para o público, “ditando” os que são dignos de atenção, estudo e admiração.
Quem faz a afirmação está premiando o apreciador. Ato generoso e simpático. Que esconde uma “benevolência” e “sabedoria” de um poder superior (só pode conceder poder quem o tem, e só o recebe quem não tem), uma condescendência condenada pela própria mentalidade que gerou a frase sobre Arte. Ou, dirão outros, o poder já existe para todo e qualquer apreciador, ele só não sabe que o tem. Como, na realidade concreta, esse poder não existe da forma igualitária descrita, a frase pode ser chamada de demagógica com segurança.
Apelar para o narcisismo, egocentrismo, autocentramento, do interlocutor. Se cada um pode decretar, empoderar ou “debater consensos”, em seu próprio quadrado, cravando que a arte do Zé das Couves é tão boa quanto a de Leonardo da Vinci, a partir de critérios que não serão universais, e sim, apenas válidos naquele quadrado, porque qualquer conjunto de critérios é válido “porque ninguém é melhor que ninguém”... equivale dizer que cada um é rei ou rainha em seu próprio espaço. Desde que consiga convencer um grupo de pessoas, com argumentos que podem ser políticos, econômicos, revolucionários, e raramente artísticos, que aquele artista é válido. Ou convencer somente uma segunda pessoa, além de si mesmo: “Arte é o que eu e você chamamos arte”.
Ainda neste número 17 da “Revista de Domingo”, a parte 2 deste quiproquó.




