Parte 02 de: Arte não é o que “eu e você” chamamos arte
Segunda parte de um aciocínio em construção sobre a Arte em nossa época
O nominalismo não morreu na Idade Média, ele é a própria Modernidade
A parte 1 começou a analisar a frase “Arte é o que eu e você chamamos Arte”, do crítico brasileiro Frederico de Moraes, e pode ser lida clicando aqui.
Disclaimer: parto do princípio de que é necessário partir de critérios para a validação de obras de arte, ou seja, da preservação de obras de arte, o que implica fazer escolhas do que será e do que não será guardado, fisicamente, fotograficamente, eletronicamente etc. para as gerações futuras, em livros, museus e outros tipos de coleções. É sobre este prisma que analiso a frase de Moraes, se ela nos ajuda ou nos atrapalha em definir estes critérios.
Esta análise pode ser sintetizada nas perguntas: quais obras de arte devo contemplar, que me sejam proveitosas? Quais devo mostrar para os meus filhos, netos, bisnetos? Quais obras de arte devemos exibir, guardar e proteger nos museus? E para quem devo perguntar sobre os critérios que usarei para responder às estas perguntas?
II. Nominalismo e falta de conexão com a realidade
“Arte é o que eu e você chamamos arte”. É uma daquelas frases modernas que querem aparentar informalidade, mas escondem a perversidade de uma mentalidade distorcida, com todos seus resultados nefastos resumidos em um conceito curto, sintético, simpático, falso, enganador.
Colocando a frase de forma crua, vemos que ali mora um conceito. Sabemos que os conceitos limitam, restringem, pois essa é a sua natureza: cercar uma ideia e separá-la do resto do mundo. Para que esta ideia possa explicar uma parte dele.
Ao mesmo tempo, o conceito também mostra o seu contrário, restringindo a si próprio. O oposto, “Não é Arte o que eu e você não chamamos Arte”, coloca um limite naquilo que os dois personagens da frase querem que seja Arte. Portanto, o conceito não é de liberdade irrestrita, e sim, mostra que há coisas no mundo que a dupla admite não estarem no campo da Arte.
O simples vislumbre de uma ideia que nega alguma coisa, levou a desenvolvimentos na “mentalidade Polyanna da arte” a extremos do tipo “Então, tudo é Arte”. Se você acha que não deva existir negação, então abranja o mundo inteiro na sua ideia e pronto. Tal forma de pensar, em determinados círculos, é considerada “generosa” e de “cabeça aberta”.
A frase, ainda, parte do princípio de que se chega à verdade através de consenso linguístico. Ou seja, basta chamar algo com uma palavra com a qual pelo menos duas concordem, e está tudo certo. Certo, assim funciona qualquer idioma. Mas o absurdo é querer que algumas palavras correspondam à realidade dos fatos, e outras não, torcendo as regras de consenso para o que se quer provar.
Por exemplo: um muro é feito de pedras. Na realidade concreta, o muro não pode ser trespassado por uma pessoa sem que ele se quebre – ou que a pessoa se quebre. Não é possível, na prática, passar no meio de um muro como um fantasma. Vejam, as palavras utilizadas descrevem algo que qualquer um pode verificar na prática. Mas é possível fazermos o que quisermos com as palavras: como diz o dito popular, “o papel aceita tudo”, e nele, o muro pode ser feito com barras de paçoquinha, durar mil anos e ser comido por um dinossauro do futuro. Ou pode-se escrever o seguinte: “Ele passou através do muro, enquanto se casava com uma lagartixa da Mesopotâmia”.
O poder de usar as palavras como queiramos existe de fato, e essa possibilidade é uma das grandes ferramentas da poesia, da literatura e das artes em geral, o poder da metáfora, a mentira que nos convence ser uma verdade, momentaneamente, dentro de nossas mentes. Mas ela não pode ser usada quando estamos fora do campo artístico: quando se descreve a realidade, não nos é permitido dizer que a pedra é feita de duendes, que um planeta cabe dentro do bolso, que o amarelo é verde, que 2 + 2 = 5.
E isso não é “autoritarismo linguístico”. E sim, o mínimo de consenso para podermos nos comunicar. Não há poesia na comunicação? Naquela que é funcional, utilitária, não pode haver. Se estou trabalhando na construção de uma casa, e quero que o servente me entregue um tijolo, não posso lhe pedir um carroça, porque botei na cabeça que quero chamar todo tijolo de carroça porque eu teria “liberdade para chamar cada coisa que eu quiser da forma que eu quiser”. Simplesmente a comunicação entre eu e o servente não vai funcionar.
Imaginem se um médico resolvesse chamar uma determinada doença, por exemplo, um câncer, de “incômodo”. Anunciaria ao paciente:
“Vi os seus exames, e verifiquei que encontrei um incômodo no seu cérebro. Nada que um tratamento adequado não resolva”.
“Qual tratamento, doutor?”
“Uma radioterapia, e se não tiver resultados, uma quimioterapia”.
“Mas doutor, radioterapia e quimioterapia só para um incômodo?”
“Ah sim, incômodo, vamos chamar assim, temos que pensar positivo, não é?”
Vocês já perceberam que muitos males modernos se originam desta mentalidade, que em filosofia chama-se nominalismo. Esta corrente filosófica acredita que não existem conceitos universais, e que na verdade tudo são construções mentais, nas quais se incluem os idiomas e suas palavras, geradas “exclusivamente por consenso”.
Basta recorrer a exemplos muito simples, como os que dei acima, para perceber que o nominalismo não se sustenta. É um ilusionismo, usado como manobra retórica, como recurso para enganar ingênuos ou pessoas que não percebem a “lábia” do manobrista. Tristemente, muitas vezes é crença firme e sincera da pessoa que o adota.
O ilusionismo? Fazer crer que basta mudar um nome para mudar o caráter, a essência de um ser, um objeto, um lugar. E assim, seriam consertadas injustiças do mundo real - que não é real de fato, somente uma construção mental - somente com palavras. O que é renomeado não só muda a nossa percepção sobre ele, mas também sua essência.
Uma das teorias do campo da linguística, a Hipótese de de Sapir-Whorf, há tempos, diz que o idioma molda a maneira de pensar do falante, facilitando certas formas de pensamento e dificultando outras (assim diz a teoria). O nominalismo leva isso ao extremo, quando quer “corrigir uma injustiça social e histórica” ao deixar de chamar o ato de maldizer (hoje diríamos de “cancelar”) de “denegrir” para não ofender as pessoas negras (ou como se hoje, para não ofender, “pretas”).
A língua, usada desta forma, torna-se uma ferramenta de dominação social e política. Impõe o quê, como e porquê pensamos, sentimos e falamos.
Não é à toa que no romance “1984”, de George Orwell, o torturador O’Brien impõe que Winston, o protagonista, diga que 2 + 2 = 5 , e não só porque o Partido no poder o obriga. O’Brien quer que Winston acredite que a mentira é a verdade. Ao mesmo tempo em que acredita piamente que a mentira é uma mentira.
A parte 3, disponível neste número 17 da Revista de Domingo encerra, por enquanto, esta salada mista. Mas não totalmente, senão não seria um “raciocínio em construção”, né?



