Parte 03 de: Arte não é o que “eu e você” chamamos arte
Terceira parte de um raciocínio em construção sobre a Arte em nossa época
III.
Neste artigo, afirmo que Arte NÃO é o que eu e você chamamos de Arte. E que aqueles que afirmam que qualquer coisa – ideias, imagens ou objetos – podem ser chamados de arte, sem critério algum para delimitar um campo específico de experiências chamado “Arte” - são relativistas, acreditam que basta mudar o nome de um conceito para mudar a verdade – ou mentira – por trás dele
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Mas também são nominalistas – dizem acreditar que há uma arte, mas que ela seria tão subjetiva, depende de eu, você ou nós dois juntos dizermos se tal coisa é ou não arte – o que invalidaria a definição de arte para qualquer pessoa que não concordasse com isso.
Ou seja, tudo pode ser arte, ou nada pode ser arte. A arte dependerá apenas de um consenso entre pessoas de um mesmo grupo, e não de critérios pré-estabelecidos.
Pela experiência que tivemos a partir do século XX, sabemos que não foi bem assim – tanto não há a liberdade geral, ampla e irrestrita de “cravar” que tal ou tal obra seja ou não arte, mas há uma pressão pelo consenso em torno de determinados artistas – igualzinho ao que sempre se fez.
O que há agora é o seguinte: as regras de validação de obras de arte são as de sempre, mas as regras declaradas publicamente são diferentes – são revestidas de demagogia, falsa inclusão e de uma intenção de enganar, para se chegar aos mesmos objetivos – dinheiro, prestígio, fama, poder, para determinadas pessoas ou grupos.
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Marcel Duchamp diz que o significado de uma obra de arte é atribuído, e não intrínseco a ela. A Fonte ou a Roda de Bicicleta possuem o significado atribuído pelo próprio artista a elas.
Joseph Beuys afirma que todo ser humano é artista. Duas coisas diferentes: qualquer um possuir potencialidade para ser artista, e declarar que todo humano É, de fato e de direito, artista.
Basta reconhecer-se como tal, chamar-se “artista” e você o será efetivamente. Artista é o que eu mesmo chamo de artista, o outro ou eu mesmo. Nominalismo.
Um ato que nossos ancestrais identificavam nos loucos, um sintoma de que a pessoa tinha enlouquecido, é quando a pessoa dizia ser Napoleão, ou Cleópatra. Hoje, é quase sintoma de sanidade ou criatividade em alto grau.
Arthur Danto introduziu o conceito de “mundo da arte” - artworld - e sugeriu que a arte é definida pelo contexto e reconhecimento que recebe dentro dessa esfera. Fazem isto também André Malraux, com seu conceito de Museu Imaginário ou Museu sem Paredes, George Dickie, e Pierre Bordieu com a ideia de “campo artístico”.
O passo que Danto não deu é dizer que, antes da arte de vanguarda do século XX, era o artworld quem reconhecia o que era arte, a partir de critérios mais ou menos universais. A partir das vanguardas, não se reconhece algo que já existe, e sim, nomeia-se arte o que quer que seja arte – uma operação bem diferente. Pois se, como disse Duchamp, o significado de uma obra de arte pode ser atribuído ao bel-prazer do observador, por que não dizer que toda a produção de uma determinada pessoa é arte, e ainda mais, que essa arte é importante?
O valor artístico, e portanto social – com suas implicações mercadológicas e culturais – pode ser atribuído, independente de critérios universais de validação. Basta o validador apresentar argumentos que sejam convincentes – e os que quiserem ser convencidos, o serem, para um determinado artista ser validado.
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No Brasil, esta frase foi popularizada em um título de um livro de Frederico Moraes: Arte é o que eu e você chamamos arte.
Mas a ideia de que qualquer grupo de pessoas pode validar obras de arte, desde que sejam importantes para ele, e que não há mais uma narrativa única da Grande Arte, foi proposta primeiro por Arthur Danto, no artigo “Artworld”, de 1964.
A ideia de que “Tudo é Arte” ou “A Vida inteira é Arte, ou tudo na realidade é Arte” vem das vanguardas artísticas, primeiramente sugerida (mas não explicitada) pelos cubistas e dadaístas, em suas colagens que utilizavam objetos do cotidiano. E depois, finalmente explicitada por Marcel Duchamp, com os objects trouvées ou ready-mades.
A arte conceitual das décadas de 1960 e 70 levou isto ainda mais longe.
Hoje, temos pessoas demagogicamente afirmando que “tudo é arte”, mas nenhuma delas deixa de validar obras de arte em galerias, museus e outras instituições, para ganhar dinheiro.
Nada contra ganhar dinheiro, tudo contra ganhar dinheiro de maneira hipócrita, afirmando uma coisa e fazendo outra.
Arthur Danto explicou o que acontecia: qualquer objeto pode ser arte, desde que contextualizado e validado. Observou que os critérios de avaliação da obra de arte foram retirados de sua natureza intrínseca, e viu que a validação passara para o julgamento exclusivo dos validadores.
Tornou-se, portanto, mais autoritário o julgamento supremo de um crítico ou acadêmico, que pode determinar, ao seu bel-prazer, o que é arte ou não.
Quem valida os validadores?



