Estamos tratando de artistas esquecidos pelo público, e também pelas mídias. Mas não são esquecimentos voluntários, e sim, gerados por má gestão de carreira, ou esgotamento de uma fórmula criativa; às vezes, o próprio artista opta por deixar os microfones de lado, como aconteceu com Eduardo Araújo e Beto Guedes (ambos por um período, depois voltaram), Lílian, Belchior, e mais recentemente, Vanessa Rangel.
Mas existe outro tipo de esquecimento. Este é intencional: ativa-se o que hoje chamamos de cancelamento e também apagamento. Nas décadas de 1970 e 1980, antes de existir o termo atual, falava-se em “ostracismo”, “linchamento moral” e “boicote”. Para artistas, isso equivale a serem ignorados pela mídia, que cancelava ou não os chamava para participarem de programas de TV, não terem suas músicas tocadas nas rádios, terem contratos cancelados com gravadoras e minguarem agendamentos de shows.
Esquecimento em várias ações, coordenadas socialmente para apagar a sua presença na história da música brasileira. A não ser quando se contam determinados episódios, como a Ditadura Militar, e se associam seus nomes como exemplos de “o que não se deve fazer”. Em outros casos, o artista simplesmente sumiu, e não aparece em lugar algum.
O caso mais contundente desse tipo, sem dúvida, é o da dupla Dom & Ravel; mas também aconteceu com Wilson Simonal, Geraldo Vandré e, pasmem, até com Elis Regina e o dramaturgo Nelson Rodrigues. Vamos falar deles em outros artigos: neste, falaremos da dupla que até hoje é conhecida e difamada pela esquerda como terem se “vendido” como compositores de “hinos e jingles do regime militar”… o que não é verdadeiro, ao menos na parte da venda das músicas.
Dom & Ravel
O maior “pecado” da dupla de irmãos cearenses foi o de terem composto o hit “Eu te amo, meu Brasil”, que foi um sucesso na interpretação do grupo “Os Incríveis”, em 1970. Segundo eles, a canção foi composta sem nenhuma intenção de louvar o regime militar, e sim, a de celebrar em sua letra, e no ritmo de uma marchinha, as coisas simples que o brasileiro gostava: o futebol, o carnaval, a mulher brasileira, a natureza e a religiosidade. Eles aproveitaram o ufanismo que se vivia na época por causa da conquista do Tri, pela Seleção Brasileira de Futebol, na Copa do Mundo de 1970.
Mas em depoimentos de anos posteriores, os irmãos sempre juraram que nunca receberam um único centavo do governo militar, e as músicas foram usadas pelo governo sem autorização dos autores. Segundo Netinho, líder dos “Incríveis”, “Eu te amo, meu Brasil” foi “confiscada” pelo governo militar.
Mesmo assim, foram acusados de “adesistas” e “vendidos”. Para piorar a situação, os militantes lembraram que uma canção da dupla já havia sido adotada pelo regime um ano antes como hino do Mobral (Movimento Brasileiro de Alfabetização), “Você também é responsável”, também interpretada pelo grupo “Os Incríveis”.
“Eu te amo, meu Brasil” foi utilizada como uma espécie de hino, em propagandas da TV, cinema e rádio, bem na época em que o governo do presidente Geisel adotava o slogan “Brasil: ame-o ou deixe-o”.

Navegando no sucesso das duas músicas, Dom & Ravel emplacaram ainda um sucesso em 1971, “Obrigado ao Homem do Campo”, que também mantinha o tom ingênuo e louvatório ao brasileiro: "Obrigado ao homem do campo, pelo leite, o café e o pão / Deus abençoe os braços que fazem o suado cultivo do chão...”. Que, para a desgraça dos músicos, foi também confiscada pelo governo para promover o “milagre econômico” de Geisel.
Quando os crimes da ditadura, como torturas e desaparecimentos foram sendo revelados, a classe artística, a imprensa alternativa e os estudantes de esquerda passaram a ver Dom & Ravel como "dedos-duros", "puxa-sacos" ou "filhotes da ditadura". Eles foram boicotados por emissoras de rádio independentes, organizadores de festivais e duramente criticados ao vivo na TV por formadores de opinião. Ninguém do meio intelectual queria ser associado a eles.

Em 1974, desesperados com o rótulo de bajuladores, os irmãos decidiram provar que não eram alienados e lançaram a canção "Animais Irracionais". A letra fazia uma crítica contundente às profundas desigualdades e injustiças sociais do Brasil. A tática, se é que se pode chamá-la assim, não surtiu efeito: Ao criticar a situação do país, os militares viram a música como subversiva. A censura passou a vigiar a dupla, que começou a sofrer interrogatórios. Sem o apoio da esquerda e agora rejeitados pela direita, a dupla caiu em um limbo comercial completo, tendo dificuldade, em seus últimos anos, de serem contratados para shows e gravarem discos, além de terem suas músicas barradas nas execuções em rádios.

Suas carreiras foram definitivamente enterradas. Dom faleceu de um câncer de estômago, em 2000, com 56 anos; Ravel viveu os últimos anos de vida cego, vítima de um glaucoma, e faleceu vítima de um infarto fulminante, aos 64 anos, em 2011.
Embora Dom tenha sido entrevistado para o livro "Eu não sou cachorro, não: música popular cafona e ditadura militar" (2002), de Paulo César de Araújo, e suas carreiras e histórias tenham sido abordadas, a dupla nunca foi reabilitada.





