Leia o primeiro artigo sobre Artistas cancelados das décadas de 1970 e 80, sobre Dom & Ravel, clicando aqui.

O cancelamento e posterior apagamento de Wilson Simonal, ocorrido no início da década de 1970, foi um episódio tão vergonhoso quanto o de Dom & Ravel. É considerado, pelos estudiosos em música brasileira, como o primeiro cancelamento ocorrido na Música Popular Brasileira.
Ele foi boicotado pela própria classe artística, imprensa e opinião pública, sob a acusação de ser um delator (”dedo-duro”) a serviço do regime militar - que depois se provou falsa, sem provas e totalmente mentirosa.
Acusação totalmente baseada em fake news, que causou a destruição da reputação, e da vida, de um artista popularíssimo. Um cancelamento e apagamento de um músico da história da MPB, que durou mais de 30 anos.
O motivo da queda
Em 1971, vivendo o auge absoluto de sua carreira como o maior popstar negro do país, Simonal desconfiou que seu contador, Raphael Viviani, estava desviando dinheiro de sua empresa. Para resolver a situação, o cantor recorreu a amigos que eram agentes do DOPS (Departamento de Ordem Política e Social), a polícia política da ditadura.
Os agentes levaram o contador para a sede do DOPS, onde ele foi torturado para confessar o suposto desfalque financeiro.
Quando o caso veio a público, Simonal foi processado e condenado por extorsão mediante sequestro. Durante o processo legal, para tentar se defender e se livrar da acusação de cumplicidade, Simonal alegou que o contador era “subversivo” e declarou apoio público ao regime militar. Para piorar, agentes do próprio DOPS arrolados como testemunhas declararam em juízo que Simonal era um “informante” do órgão.
O Linchamento Moral e o Ostracismo
A resposta da classe intelectual e artística (majoritariamente de esquerda e contrária à ditadura) foi imediata e implacável. Veículos de grande influência cultural na época, como o jornal alternativo O Pasquim, rotularam Simonal como um traidor e colaborador direto da ditadura militar.
Diferente de outros artistas, o boicote a Simonal foi total e definitivo. Ele teve contratos cancelados, suas músicas pararam de tocar nas rádios, perdeu contratos publicitários milionários e a TV Globo o baniu da programação.
Foi isolado pelos colegas da classe artística, músicos e compositores recusavam-se a gravar com ele ou a permitir que ele interpretasse suas canções.
Fim da carreira
O cantor entrou em profunda decadência financeira, depressão e alcoolismo. Ele passou o resto da vida tentando provar que, apesar do erro grave no caso do contador, nunca havia delatado nenhum colega de profissão. Morreu no ostracismo em 2000.
Anos após a sua morte, investigações históricas e documentos analisados pela Comissão de Direitos Humanos da OAB confirmaram: não há registros de que Simonal tenha entregado ou denunciado artistas aos órgãos de repressão.
Reabilitação e limpeza da imagem
A reabilitação de Wilson Simonal começou a se consolidar quase uma década após a sua morte, impulsionada tanto por um julgamento simbólico de direitos humanos quanto por um filme impactante que expôs as nuances e contradições do seu "cancelamento".
Em novembro de 2003, três anos após o falecimento do cantor, o Conselho Federal da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) encerrou um processo que pedia a sua reabilitação moral. A inocência de Simonal foi comprovada, e declarada por unanimidade quanto à acusação de delator.
A OAB concluiu que o cantor foi vítima de um “linchamento moral” amplificado pela imprensa e por preconceito racial e social, agravado pelo fato de ele não se posicionar politicamente na época. O julgamento, embora tardio, serviu para limpar oficialmente o seu nome perante a história do país.
O Documentário
“Simonal - Ninguém Sabe o Duro Que Dei” (2009)
Dirigido por Cláudio Manoel, Micael Langer e Calvito Leal, o longa-metragem “Simonal - Ninguém Sabe o Duro Que Dei” foi o grande divisor de águas para que o público em geral revisse o caso. Atualmente, a produção está disponível em plataformas como a Netflix Brasil.
O filme não “absolve” Simonal do erro cometido contra o contador Raphael Viviani (que dá seu depoimento detalhado no filme sobre a tortura sofrida). Porém, o filme separa bem a agressão criminal da acusação infundada de “espião do regime”.
Um dos pontos mais impactantes do filme são as entrevistas com intelectuais da época, como o cartunista Ziraldo e o jornalista Jaguar, figuras centrais do jornal O Pasquim. Eles admitem em frente às câmeras que a patrulha ideológica contra Simonal foi implacável e que, ao carimbarem o cantor com o rótulo de “dedo-duro”, decretaram uma sentença de morte artística sem verificar a veracidade do boato.
O filme faz justiça à genialidade musical de Simonal. Apresenta registros raros de suas performances eletrizantes, mostrando como ele foi um dos maiores showmen da história da música brasileira, como quando “regeu” a plateia de cerca de 30 mil pessoas no ginásio do Maracanãzinho, no show de abertura do músico Sérgio Mendes, em 1969.
O movimento musical da Pilantragem
O movimento da Pilantragem surgiu na segunda metade dos anos 1960, e foi criado por Wilson Simonal e pelo produtor Carlos Imperial. O estilo misturava o samba e a bossa nova com influências do soul, do funk norte-americano, do jazz e do rock da Jovem Guarda, sempre com uma postura extremamente descontraída, humorística, com o balanço da malandragem carioca.
A proposta era criar uma música pop brasileira, urbana e puramente voltada para a diversão e o entretenimento, sem o tom político ou a intelectualidade que dominavam os festivais da MPB na época.
Usava e abusava de gírias da noite carioca, ternos elegantes, o conceito do “bicho” ou do “malandro de gravata”. Contagiava o público com o ritmo, próprio de hits como “País Tropical” e “Sá Marina”, interpretados por Simonal de maneira cativante.
Porque Simonal foi odiado?
A postura autoconfiante, autônoma e “metida a esperta”, que não admitia meias-voltas nem malabarismos verbais, muito forte em Simonal, talvez tenha atraído a inveja e o desprezo, especialmente da chamada “intelectualidade de boteco” carioca. Que não admitiu um negro autoconfiante, que chegava a ser arrogante em determinados momentos, que não baixava a cabeça nem se autovitimizava. E seu maior “pecado”: não abraçou a ideologia de esquerda.

Além disso, ficou rico por seus méritos, e ainda ostentava suas conquistas: como declarou a O Pasquim, em entrevista de julho de 1969, intitulada como “Não sou racista”, ele morava em uma mansão, tinha um mordomo, e comia caviar, afirmando que tinha direito de usufruir do dinheiro que ganhou com seu próprio talento. Tudo devidamente debochado pelos entrevistadores. Para eles, ostentar sinais externos de riqueza era uma postura burguesa e alienada em plena ditadura militar.
A partir de 1971, o jornal começou a enterrar a reputação de Simonal quando o cartunista Henfil o enterrou simbolicamente no Cemitério dos Mortos-Vivos, na coluna com o personagem Cabôco Mamadô, uma charge política onde, de forma extremamente ácida e rancorosa, decretava a “morte” de artistas que, para ele, tinham colaborado com o regime militar.
Além de Simonal, Henfil enterrou, entre muitas outras celebridades, Pelé, Zagallo, Clarice Lispector, Rachel de Queiroz, Carlos Drummond de Andrade, Gilberto Freyre, Flávio Cavalcanti, J. Silvestre, Roberto Carlos, Dom & Ravel, Elis Regina, Clarice Lispector, Nelson Rodrigues, José de Vasconcelos, Tarcísio Meira, Marília Pêra, Hebe Camargo, além, é claro, dos empresários das comunicações Roberto Marinho (Grupo Globo), Adolpho Bloch (Grupo Manchete) e Octavio Frias de Oliveira (Grupo Folha), além do jornalista David Nasser e do economista Roberto Campos; mas esta lista é só um resumo. O “Cemitério dos Mortos-Vivos” de O Pasquim durou de 1971 a 1974.

(Anos depois, Henfil se declarou arrependido de ter pesado a mão e não ter percebido o poder de sua influência sobre o público, admitindo que muitos dos artistas e celebridades que declararam apoio ao regime militar foram pressionados e torturados psicologicamente, como Geraldo Vandré, para efetivar este apoio público; e que, “enterrando” várias destas celebridades, massacrou reputações e carreiras profissionais, levando muitas delas à miséria; mas disse ter se arrependido somente de dois “enterros”: os de Clarice Lispector e Elis Regina).
Se Simonal voltou a ocupar o seu devido lugar de destaque na história da MPB, não foi, decerto, pelas mãos da intelectualidade boêmia de O Pasquim ou seus sucessores.
Deduzo que seja inveja um dos sentimentos que os colaboradores do jornal de oposição mais ferrenha ao regime tenham sentido em relação ao intérprete de “Meu limão, meu limoeiro”. Nesse espírito de reflexão, encerro o artigo lembrando o episódio sobre o qual Millôr Fernandes (que trabalhou no jornal e sustentou-o sozinho durante um dos períodos mais negros de perseguição política) comentou, quando Ziraldo e Jaguar (duas das maiores estrelas de O Pasquim) receberam indenizações milionárias da Comissão de Anistia do Ministério da Justiça, em 2008, em “reparação” às perseguições políticas que os dois sofreram durante a ditadura: “Então eles não estavam fazendo uma rebelião, mas um investimento”.
Nota: Millôr, coerente com sua postura, nunca entrou com pedido de indenização, como fizeram Ziraldo, Jaguar e a família de Henfil, entre outros colaboradores de O Pasquim.





