Catando pulgas em aspas alheias.
Ora, direis, o que soa mais alvissareiro: aspas ou aspones? Miríades solertes dos guardiães inefáveis da lusa guarda, irrompam em furor.
No meu labor de cada dia, pesquiso sítios eletrônicos de venerandos (ao menos, no hipotético, hipnótico e hipossuficiente Mundo das Ideias) institutos, faculdades, centros de pesquisa, de patamares superiores ou pós-superiores.
As aspas de ouro, segundo a lenda gaúcha do Rio Grande do Sul (sim, há gaúchos em outros países, especialmente na Suazilândia), pertencem a um touro mítico. “Aspa” é sinônimo de “chifre”, “galhada”, “guampa”, no linguajar regional riograndense. Na lenda, representam felicidade e prosperidade eternas. Fazem parte da cabeça do touro (como todo bom par de chifres… de bichos, quero dizer), um animal indomável e incaçável. As aspas tipográficas, ao contrário das aspas de ouro, ninguém mais as quer. O caso é que, como a felicidade eterna, indomável e inalcançável, é coisa que colocaram na sua cabeça.
Eia, estarrecido estaco, nos tempos que correm, ao detectar que as publicações em tais endereços desprezam mais e mais a norma culta, na faina diária do manejo do idioma pátrio.
Se não em todas as linhas, literais ou editoriais, persiste ainda, herdada de furores intempestivos de uma década já sessentona, uma rebeldia sôfrega em ignorar aspas, travessões, ampersands (saberá o leitor o que são?), e em alguns casos, sinais diacríticos e outros sinais de acidentes de percurso. As lacunas mais doídas (e não “doidas”, assinalo o acento [e não o “assento”] agudo) permeiam títulos indiscriminados, desde livros (que, parece, são familiares ao seu público), até nomes rombudos de artigos, aves crocitando nomes imensos como psitacídeos tronitroantes. Tais títulos passeiam, impávidos colossos ou não, como avatares de saberes insuspeitos, livres, leves e soltos nos relvados de parágrafos locutórios ou remissivos. A informalidade, ali, é mato.
Afinal, que pretendo com este solilóquio? Tal como Xanto ou Balio, de um Aquiles combalido em era inoportuna, por que insisto em tal cavalo de batalha – como dizia um amigo antigo, proceder ao que parece aos incautos uma “catação de pulgas em pêlo alheio”?
Aquiles e Pentesiléia. Como estão relacionados ao presente texto? Ignoras? Confesse que não leu nada ainda, só está passando o olho pelas figuras… te peguei.
Algum ouvido não será mouco à indagação: o que expressa uma aspa? Qual é o seu lugar no mundo contemporâneo?
(Na verdade, uma aspa sozinha não faz verão; andam sempre aos pares, com tal intuito foram concebidas; só nos servem se usadas como luvas de pelica ou pares de óculos [“pares de óculos” ou “óculos” dão na mesma; ninguém há de imaginar um só óculo, embora tal exista. Os óculos, se expressos na língua, por si só redundam; assim como não fecha sentido uma bota, apenas, de sete léguas, em matemática mais precisa seria uma bota de três léguas e meia].)
Na mesmíssima plaga, incluirei os parênteses, os colchetes e chaves, que se imiscuíram na matemática para não perderem a importância nem a pose – já que a língua escrita, com gosto inaudito, prescinde cada vez mais desses personagens gramaticais.
Dirão os pragmáticos, vibrando na mesma corda, os estraga-prazeres perenes de idealistas platônicos: para que servem as aspas? (E, de roldão, os sinais de pontuação supramencionados?)
Conjecturo que, por serem sinais de tempos sem educação, não na escrita, mas de tempos idos, perdidos no matagal dos tempos, mas de triste recordação, em que tantos, enredados em umbrais de conspirações hoje consagradas nestas mesmas academias onde garimpo as novidades sobre as ciências da nação, furibundos brandem as quebras dos vasos das regras das gramáticas, lançando ao solo Cegallas, Pasquales, Almeidas, Cunhas, para serem justos e equânimes com aqueles que nunca souberam quem são Cegallas, Pasquales, Almeidas e Cunhas.
E por isso, permitem, abrindo a porteira da Diversidade (outra flâmula, ao frontispício, anuncia nome opcional: “Demagogia”), que falem e escrevam herrado, elado, erado, errádo.
Se novos cartapácios, missivas e alfarrábios pudessem ser escritos na contemporaneidade, acorrentados estaríamos em novas cadeias, nos confrontando com tais regras não-regulamentares. Mas, quem disse que não? A regra, aqui e agora, é ser anômico. O que chega, outrossim, a ser anêmico – mesmo com sobejo excesso de “sangue bão”.
E nem tratamos das entrelinhas – terreno fértil da imaginação desses justiceiros, que eles tomam como campo do real, visível e concreto. Cujo defeito (e razão de ser do justiceiro, diga-se) é o de se ocultar nas fímbrias dos motes e dos conceitos.
Olha o que o ChatGPT acha do meu texto.
Poderão postar-se as aspas entre sentidos ocultos, entre uma litotes e uma catacrese?
Nem é da competência, nem da vocação, nem da vontade idiossincrática dessa nova nobreza, retomar um par de peças tão arqueológicas, curiosas numa vitrine de museu, mas tão inútil quanto uma tamboladeira em tempos de Corote Pedra 90. As aspas, para eles, podem ser enfiadas num lugar sem sol, numa sombra tão inalcançável quanto um buraco de minhoca – digo o de uso geral, o cósmico, e não o particular, privado.
Conquanto seja da minha alçada opinar, cada qual utilize seu buraco do jeito que mais lhe seja proveitoso, de maneira rastaquera, chã ou indevassável. Alvíssaras.
Buraco negro. Imagem meramente ilustrativa. Embora, tratando-se de um buraco negro, nada que dele se possa dizer será “mero”. Enfim, você entendeu.






