Professor da Unicamp traduz obras clássicas da ciência inéditas em português
As traduções dão acesso direto às ideias de pensadores como Newton, Coulomb, Ampère e Weber; publicações estão disponíveis gratuitamente

Democratizar o acesso ao conhecimento científico é a missão do professor da Unicamp André Assis, professor do Instituto de Física Gleb Wataghin (IFGW) e responsável por várias traduções para o português e para o inglês de obras clássicas de autores da física.
Arquimedes, Isaac Newton, Coulomb e Ampère e Wilhelm Weber são autores cujas obras foram traduzidas pelo docente.
Seu trabalho mais recente são as “Obras de Weber sobre Eletrodinâmica Traduzidas e Comentadas”, publicadas em quatro volumes, em 2025, pela editora canadense Apeiron. Assis já havia editado, com auxílio de colegas alemães e americanos, a tradução comentada do alemão para o inglês. “É a maior obra que já traduzi e a que deu mais trabalho”, disse.
Em 2022, o professor também publicou a tradução comentada, do francês para o português, das obras de Coulomb sobre balança de torção, eletricidade e magnetismo.
Até recentemente, muitas dessas obras não dispunham de versões nem em inglês, a exemplo do trabalho de Ampère, publicado originalmente em 1826, que ganhou tradução comentada para inglês e português, em trabalho conjunto com João Paulo Chaib, ex-aluno de doutorado de Assis.
“No caso do eletromagnetismo, segue-se a linha da Teoria de Campos de [Michael] Faraday e [James Clerk] Maxwell, dois ingleses. A linha francesa e a alemã foram abandonadas”, argumentou o professor.
Assis já recebeu dois prêmios Jabuti na categoria “Ciências Exatas”, em 1996 e em 2012, com os livros “Eletrodinâmica de Weber” e “Eletrodinâmica de Ampère”. O primeiro é um livro sobre a teoria de Weber, e o segundo, uma tradução comentada do francês para o português da obra mais relevante de Ampère, intitulada “Teoria dos fenômenos eletrodinâmicos”.
A maioria das obras está disponível gratuitamente em um website (clique para acessá-lo), mantido pelo professor e tem como público-alvo estudantes de ensino médio e de graduação nas áreas de física e engenharia, além de interessados em história da ciência.
Disputa entre abordagens
Assis leciona na Unicamp desde 1989. Há quase 40 anos, realiza pesquisas na área de fundamentos da física, eletrodinâmica de Weber e mecânica relacional. Durante a graduação na instituição, o docente teve o primeiro contato com os autores cujas ideias busca disseminar.
“Existiam questões na teoria padrão que não me satisfaziam, então encontrei meu caminho nos livros de história da ciência – foi como descobri Weber e a força de Ampère entre elementos de corrente [que descreve a interação mútua entre dois trechos de fios condutores percorridos por corrente], temas que não são estudados nos livros didáticos”, relatou.
O professor destacou que a ausência de traduções dessas obras dificultou seu acesso a elas e, por vezes, gerou deturpações pedagógicas. “Isso é o que acontece com Ampère: aquilo que a gente chama de ‘Lei Circuital de Ampère’, ele mesmo nunca escreveu. Agora, as pessoas podem ler as próprias palavras do físico francês e ver que, na primeira página da obra, ele está lutando contra aquilo que é defendido nos livros didáticos.”
De acordo com Assis, a possibilidade de ler as fontes originais e confrontar as ideias é revolucionária para a formação cidadã e científica dos futuros cientistas, permitindo que os pesquisadores formem e defendam suas próprias convicções.
Esse movimento também auxilia no entendimento de que a produção do conhecimento científico não é linear, mas ocorre em meio a um processo de disputa de ideias. “São ciclos. Às vezes, uma ideia antiga renasce com modificações.”
Exemplo disso, de acordo com o professor, é a Teoria Heliocêntrica (que propõe que o sol está no centro do Sistema Solar, e os planetas giram ao seu redor). “É uma teoria da época de Arquimedes, mas que foi abandonada. Levou dois mil anos até aparecer Nicolau Copérnico [que apresentou o modelo matemático heliocêntrico no século XVI] e retomar essa ideia, que hoje é a teoria que seguimos.”
Assis publicou, juntamente com Ceno Pietro Magnaghi, a tradução comentada do grego para o português da obra “O Método de Arquimedes: Análise e Tradução Comentada”. “Nessa obra fundamental, Arquimedes mostra como utilizou a física para deduzir resultados puramente matemáticos. Em particular, utilizou a lei da alavanca para calcular, pela primeira vez na história, o volume e a área de uma esfera. É um texto que ficou perdido por dois mil anos”, explicou.
Diferente do caso do biólogo britânico Charles Darwin, Isaac Newton - nome igualmente célebre - ainda não tivera sua obra traduzida integralmente para o português, explica Assis.

Ciência na prática
O professor traduziu “Principia: Princípios Matemáticos de Filosofia Natural”, obra de Newton de 1687 que contém as famosas três leis do movimento e a lei da gravitação universal. “Ela é considerada por diversas autoridades como a maior obra científica de todos os tempos.” Também traduziu “Óptica”, que relata as experiências de Newton com prismas, sua teoria das cores, a construção do telescópio refletor, entre outros. “O telescópio do tipo newtoniano não tem lentes, só espelhos, e é usado por satélites como o Hubble e o James Webb”, ressaltou.
Assis ainda trabalhou com os artigos do físico amador inglês Stephen Gray (1666-1736), contemporâneo de Newton, em parceria com Sílvio Luiz Bragatto e João José Caluzi, resultando na publicação de “Stephen Gray e a Descoberta dos Condutores e Isolantes: Tradução Comentada de Seus Artigos sobre Eletricidade e Reprodução de Seus Principais Experimentos”. Nessa obra, os autores também reproduziram os experimentos de Gray com materiais de baixo custo. “Isso é muito interessante para mostrar que boa parte dessas experiências pode ser feita com material acessível, assim como alguns experimentos de Newton”, disse o docente, que se dedica a projetos dentro dessa temática.
Assis pontuou que esse material em português pode ser aproveitado por professores do ensino médio para a aplicação em sala de aula. “Isso enriqueceria muito o ensino de física no Brasil.”



