O jornalista Reinaldo Azevedo, relator do STF no site Metrópoles, tem observações curiosas sobre geopolítica. Em um post recente, ele mostrou-se de certa forma um tanto quando desentendido sobre os EUA e criticou o ponto de vista da direita brasileira sobre a China, mas que ele chama de ‘extrema direita’. Escreveu o relator:
“Neste ponto, alguém poderia pôr um reparo: ‘Ah, mas é Lula quem se refere a Trump como aquele que tenta se meter nas coisas do Brasil. Bem, em primeiro lugar, ele não tenta; ele realmente se meteu. O ‘inimigo externo’ apontado pela extrema direita é, ora vejam, a China, justamente nosso maior parceiro comercial”. (Está no artigo intitulado “A domiciliar para Bolsonaro e a campanha que soma o ‘mártir’ ao ‘mito’”).
Para começo de conversa, não faz sentido resumir os EUA a Donald Trump, como o colunista tenta fazer. É uma leitura até boba. Mas a China é e será um país autoritário, com um governo que usa estratégias um tanto quanto doentias para tentam cooptar aliados aos seus propósitos, com ações cruéis, porém sutis.
Leia o que escreve na Revista Crusoé outro colunista, Márcio Coimbra, CEO da Casa Política e presidente-executivo do Instituto Monitor da Democracia:
“É fundamental que lideranças comerciais e diplomáticas, especialmente no Brasil, reconheçam Taiwan e outros países que almejam reconhecimento, como Kosovo, pelo que efetivamente são: nações soberanas na prática e parceiros indispensáveis na teoria.
A complacência com o ocorrido em Camarões é o primeiro passo para a normalização de uma política de extorsão diplomática”. (Do artigo “China captura a OMC” – na revista virtual Crusoé)
Coimbra está preocupado com o uso da política chinesa de investir muita grana em países que precisam de recursos financeiros para se desenvolver e depois passar a controlar sua diplomacia e fazer política externas com mãos alheias e amarradas. É o caso de Camarões, que forçou a retirada da diplomacia de Taiwan da última reunião da OMC, depois que o país da África resolveu sugerir que o país asiático perdesse seu status de independência à China, considerando-o uma “província da China”. Fica claro que é o serviço sujo feito por terceiros (China) a fim de fortalecer o império chinês às custas dessa delinquência de Camarões.
Ou seja, Reinaldo Azevedo confunde uma questão circunstancial, relacionado a um país democrático, a uma questão estratégica, de um país autoritário. Azevedo está crescidinho o bastante para entender essa diferença, mas me parece que ele escreve mesmo na condição de relator de Gilmar Mendes.
Por que essa impressão? Porque em um novo post ele defende que o ponto final à CPMI do INSS, dado pelo STF, está corretíssimo e não podia ser diferente. “E que ressoe com firmeza as palavras ditas por Gilmar sobre o vazamento ilegal de dados promovido pela CPMI — parte deles sem nenhuma relação com a investigação —, de maneira industriada, o que Viana chegou a tratar como ‘um bem para a sociedade’. Trata-se de crimes. E, se crimes são, têm de ser punidos”.
Como jornalista, Azevedo é um grande assessor.
Esta é sua conclusão, depois de explicar que houve desrespeito à Artigo 58 da Constituição: “Como lembrou o ministro Flávio Dino — no que poderia ter sido o escancaramento de uma tautologia, mas era só um esclarecimento necessário —, houvesse uma prorrogação ao arrepio de Mesas Diretoras (Câmara, Senado ou Congresso), então iria para o lixo parte do Artigo 58: afinal, nesse caso, não haveria ‘prazo’ — um dos três requisitos para instalar uma CPI”, afirmou Azevedo.
Afronta à Constituição por parte dos senadores envolvidos na investigação ao pedirem a prorrogação do prazo para a CPMI, claro. No entender de Azevedo, os ministros não fizeram nada além de recolocar ‘os pingos nos is’ (esta frase é apenas uma brincadeira com Azevedo). Azevedo não cita em nenhum momento sequer que os ministros terão sempre um caminho legal, jurisprudencial ou constitucional para barrar qualquer questão que possa envolvê-los, como estão fazendo. Gilmar Mendes, o sábio da Corte a inspirar o colunista, tirará sempre da cartola uma pérola para proteger os seus Mas agem muito contrário disso quando querem punir seus inimigos. Azevedo sabe de tudo, mas escreve como um assessor e não como um jornalista.



