Estou relando a pontinha do dedão do pé para entrar nesta água, já faz um tempo. Confesso, ela me dá ânsia de vômito. De longe, ela parece cristalina, mas toda vez que vou entrar, ela fica turva, escura, suja.
Coragem, vamos lá.
Quero falar sobre política. Ainda me enjoam os ecos de um mundo lá fora, que se chama Brasília, São Paulo, Rio de Janeiro. Chegam-me notícias velhas de que estão usando o dinheiro que nos forçam a pagar, via impostos, a pretexto de cuidar do Bem Comum, para:
• comprar móveis novos para um palácio
• presidentes de mais de um poder da República confraternizarem em churrasco de fim de semana
• comprar apoios políticos (quer notícia mais velha que essa?)
• Contornar pela tangente assédios morais e sexuais antes condenados pela esquerda como exclusivos da direita;
• E seguem os relatos de como a Vaca está se divertindo no Brejo.
Decido não falar de política partidária. Não me interessam esses vai-e-véns de conchavos e alianças, mesmo quando inéditos (tipo Lula + Edir Macedo), me dão sono, bocejos, já sei quem vai tomar ferro com isso tudo.
Somente passo os olhos por sobre estas notícias, mas não me aprofundo. Sim, me coloco a par delas, mas uma vez ou duas por mês já é o suficiente para me colocar a par dessas não-notícias de políticos que fazem o que fazem há pelo menos duzentos anos.
Não acompanho mais as minúcias das movimentações do dia-a-dia do apoio que o presidente precisa ter no congresso, quem será o próximo presidente do Senado ou sobre o roubo da verba da merenda escolar em Sergipe.
Estas não-notícias são esquadrinhadas por sites especializados. Para mim, apertar a tecla “F5” do computador, para saber se chegou alguma atualização nestes sites tornou-se uma doença, um tipo particular de masoquismo. Sim, já tive minha época de me torturar desta forma.
Com o tempo, percebi que saber quais são os movimentos para anular a Lava Jato, mas também saber a cor da cueca do Gilmar Mendes ou do Rodrigo Pacheco confere uma ilusão de movimento de um país que não se mexe nem sai da moita: eppur si non si muove (“por si não se move”).
Indignar-se contra os desmandos dos poderosos é legítimo. Babar raivoso contra os desmandos dos poderosos já é de outra ordem, é outra coisa.
Percebi com o tempo que tenho que me ocupar de outros assuntos, e não só a “salvação nacional através das redes sociais”. Senão esses políticos e suas vidas mesquinhas ocupam, como já ocuparam, os lugares da minha alma os quais eles não poderiam estar.
Como escreve Winston Smith, no romance distópico 1984, de George Orwell, existe um lugar dentro de cada um, com cerca de cinco centímetros cúbicos de volume, ao qual “eles” não têm acesso físico.
Eles podem embaçar a nossa visão, turvar nossa vista com a raiva que nos causam, com as promessas não cumpridas, os desvios de dinheiro público, enriquecimento ilícito, processos judiciais ganhos com canetadas arbitrárias e não fundamentadas, privilégios e mordomias, lavagens de dinheiro, serviços públicos ruins, péssimos ou inexistentes.
Mas não vou mais deixar eles entrarem aqui e fazer morada.
O Xandão pode espernear, mas não consegue cancelar o que vai aqui dentro, eu irei acessar mentalmente todos os twitters que ele não quer, e pensarei durante dias a fio: X, X, X, X, X, X, X, X, X, X, X, X, X, X, X, X...
(Pensando bem, dias a fio não, alguns minutos já tá bom).
Ele não pode entrar aqui e fazer morada.
Não há multa nem cancelamento que cancele minha mente, meu espírito, minha alma, como queiram chamar esses cinco centímetros cúbicos.
Quem vai morar aqui são outros, escritores, músicos, artistas, santos e pecadores, filósofos, e também pessoas queridas que nem produziram nenhuma arte ou ação política partidária, talvez alienadas (diga ou pense o que quiser) como eu, mas que tem um lugar na minha rede, junto ao coqueiro que dá coco e à brisa que balança o esfarrapado pendão de minha terra.
Quer dizer que não dá para fazer nada? Ficamos de mãos atadas, como as mãos com curativo falso do Pablo Marçal?
Que fazer? Votar em um candidato melhor nas próximas eleições?
(Não me faça rir.)
Votar no “menos pior”? Votar nulo? Votar em branco?
Amigos já me cancelaram porque eu disse que ser democrata e ao mesmo tempo apontar erros no sistema eleitoral vigente não são posturas conflitantes. Não se trata de adotar urna com voto de papel no lugar de urnas eletrônicas, como os Mini Mitos cacarejam; falo de outra coisa, faço uma pergunta para a qual eu também não tenho resposta.
Que adianta termos uma votação honesta, com apuração feita com lisura e probidade, se os candidatos continuam os mesmos bandidos de sempre?
Teremos os candidatos mais votados de verdade, mas eles terão toda a legitimidade para continuar nos roubando, nos achacando e nos distribuindo migalhas, enquanto se divertem e gozam às nossas custas.
Pensa aí um pouco.
É triste, uma resposta possível à pergunta é:
Nós votamos em bandidos porque nós brasileiros gostamos de bandidos, de malandros, de issshperrrtos, de pessoas que nos passem a perna.
Somos todo um povo que gosta de gurus, de coaches, de salvadores da pátria. Todos com os mesmo tipo de argumentos daqueles vendedores de pomadinha que cura até câncer.
Eles nos fascinam, queremos no fundo ser como eles, que se aproveitam dos otários para levar vantagem em tudo. E no final, sempre conseguem driblar a lei, e fogem da punição.
E então, retorno à alma.
Para fugir desse círculo vicioso sadomasoquista, cada um poderia cultivar a sua alma, como se cultiva uma horta.
(Estarei fazendo o que acabei de criticar, um argumento tipo Pablo Marçal? Calma. Tome fôlego. Respire. Prossiga.)
Nesta era de atacadões, hipermercados e comida pronta descongelada no micro-ondas ou comprada via ifood, parece um contrassenso.
Mas, como dizia um velho repórter de TV, “vem comigo”.
Lembro-me do quintal de uma casa onde morei, e que levou anos para arrumar, porque eu e minha esposa queríamos ali plantar nossas verduras, legumes, e ainda ter espaço para as galinhas.
A alma do brasileiro parece-se muito com esse quintal: com entulho por toda a parte. Cavoucando para fazer canteiros, achei cacos de tijolos, telhas, lixo, até mais ou menos um metro de fundura.
Como dizem políticos, especialistas e todo mundo por aí: falta educação neste país. Não sei se falta, não ao menos no sentido que o brasileiro entende por educação. Brasileiro se convence com duas coisas, quando se fala de educação: equipamentos caros, principalmente se forem de informática, e a tal da “educação em tempo integral”.
Computadores, tablets, projetores multimídias e notebooks, sistemas de informática com conteúdo exclusivo e o baralho a quatro, até as escolas públicas do estado de São Paulo já têm, que dirão as particulares, mesmo as as “meia-bocas”.
A educação em tempo integral é um grande projeto mentiroso. As matérias que preenchem o tempo da educação integral são farofas do tipo “protagonismo juvenil” e “projeto de vida”. Onde os alunos passam o tempo vendo filmes que não entendem e não são explicados, onde “matam o tempo”
Os professores, coordenadores e diretores das escolas não tiveram formação para viabilizar de forma decente o projeto da educação em tempo integral. Os professores, por mais que reclamem e não tenham culpa desse estado de coisas, ganham muito mais do que merecem. Sei de tudo isso porque sou professor e tenho todos os meus filhos estudando em escola pública. A educação não melhorou, mas na escola deles está saindo computador pela tampa. E os professores continuam escrevendo palavras erradas nas lousas, nos cartazes, nos avisos escritos que nos mandam.
Estoura na escola os desejos de uma sociedade que não quer educação. Nossa alma coletiva não quer o esforço da “bunda na cadeira” de precisar estudar; nossa alma verde-e-amarela quer levar o prêmio sem ter trabalho.
O brasileiro quer mesmo churrasco todo fim de semana, cerveja, sexo fácil, TV de trocentas polegadas, ficar rico com a loteria ou o Tigrinho, carro novo e futebol. Merecemos de verdade um presidente que se elege prometendo picanha para todos, e que gosta mesmo é de cabrita.
Não será a tecnologia que irá limpar o quintal sujo da alma brasileira. Porque se lançarmos sementes sobre o terreno entulhado, não vai nascer nada.
É preciso limpar a alma, como limpamos o terreno em que pretendemos plantar. Cavoucar e tirar o entulho, afofar a terra, adubá-la, arrumar os canteiros, colocar as estacas para as plantas trepadeiras treparem e as telas para os passarinhos não comerem as sementes, e só depois, semear.
Isso demanda trabalho, e não é feito do dia para a noite. E cansa.
Mas depois de alguns meses, colhemos cabeças de repolho, pés de couve, alface, almeirão e rúcula. Gordas beringelas, abobrinhas, grandes abóboras. Maracujás, chuchus, buchas. Pepinos. Pimentões. (Cenouras e cebolas não vingaram. Nem melancias.)
O terreno da alma brasileira, que precisa ser peneirado e limpo antes de ser semeado, tem que ser trabalhado com a enxada da cultura.
Enquanto formos o País onde a maior expressão musical é o funk carioca, seu maior artista plástico é Romero Britto, e querer ser jogador de futebol como Neymar ou youtuber influencer como Felipe Neto as maiores aspirações profissionais de nossos jovens, não limparemos o terreno, nossa alma será lama suja.
Prometo, a quem interessar possa, desenvolver esta opinião rabugenta, antipática e rocambolesca, na semana que vem. Não percam.
Continua.






