O pesquisador Guilherme Pereira-Filho coleta amostras de rodolitos no litoral brasileiro: diversidade desconhecida (foto: Zaira Matheus/Arquivo LABECMar)
Quem encontra um rodolito na praia ou no fundo do mar pode pensar que se trata apenas de um pedaço de rocha sem vida – nada mais distante da verdade. Essas estruturas duras e rosadas são formadas por algas calcárias vivas aglomeradas, que servem de abrigo e berçário para muitas espécies oceânicas. De acordo com um novo estudo publicado na revista Biological Conservation, em apenas dois bancos de rodolitos no Brasil é possível encontrar de 0,2% a 1% de toda a diversidade marinha conhecida mundialmente.
Os autores estudaram o Banco dos Abrolhos, na Bahia – que detém a maior área recoberta por rodolitos do mundo, com cerca de 20 mil km² –, e a Ilha da Queimada Grande, em São Paulo, onde o banco possui apenas 1 km². A partir da análise de materiais coletados no mar, foram identificadas mais de 450 espécies de algas e invertebrados habitando a superfície e o interior dessas “pedras vivas”.
“Considerando que são conhecidas cerca de 200 mil espécies marinhas no mundo, as 450 identificadas nesses dois bancos de rodolitos representam 0,2% de toda essa biodiversidade”, comenta Pedro Longo, primeiro autor do trabalho, realizado como parte de seu pós-doutorado no Instituto do Mar da Universidade Federal de São Paulo (IMar-Unifesp), com bolsa da FAPESP.
Mas o número de espécies presentes nos dois bancos de rodolitos pode ser ainda maior. Parte dos nódulos coletados foi triturada e o material resultante submetido à técnica de metabarcoding. Esse método de análise molecular extrai o DNA de todos os organismos presentes na amostra simultaneamente. Ao sequenciar pequenos trechos desse material genético e compará-los com bancos de dados globais, a técnica funciona como um “leitor de código de barras” biológico: os cientistas conseguem identificar cada espécie que compõe a mistura, revelando formas microscópicas, larvas ou pequenos animais que ficam escondidos no interior da rocha e que passariam despercebidos nas análises visuais tradicionais.
Com a aplicação da técnica, os pesquisadores identificaram 1.837 “assinaturas genéticas” únicas – chamadas tecnicamente de ESVs. O problema é que nem todas puderam ser associadas a uma espécie conhecida. Isso ocorre porque o DNA de muitos desses organismos ainda não está catalogado nos bancos de dados públicos, impedindo que os cientistas façam o cruzamento de informações para nomeá-los.
No cenário menos conservador, em que cada uma dessas 1.837 ESVs seria uma espécie, as estimativas indicam que essas duas áreas podem abrigar até 1% da biodiversidade marinha global conhecida. Além da alta diversidade de algas e invertebrados associada aos rodolitos, 21 gêneros identificados nunca haviam sido observados antes na costa brasileira ou mesmo no oceano Atlântico. Algumas sequências podem mesmo representar espécies ainda não descritas pela ciência.
Pesquisador Pedro Longo durante atividades de laboratório para a produção de sequências de DNA de organismos associados a bancos de rodolitos (imagem: Arquivo LABECMar/Unifesp)
Megadiversos
Uma vez que os bancos de rodolitos estão espalhados pelo fundo do mar de um polo a outro do planeta, de águas rasas até 200 metros de profundidade, a biodiversidade dessas formações pode estar entre as maiores do planeta, o que a enquadraria entre os chamados ecossistemas megadiversos.
Para se ter uma ideia, a área estimada ocupada pelos bancos de rodolitos no mundo é de cerca de 4 milhões de km², 20% maior do que a dos recifes de coral, ecossistemas megadiversos que dão suporte a cerca de 25% das espécies marinhas. A Amazônia, outra referência de ecossistema megadiverso, abriga em torno de 10% da biodiversidade global.
“Estudos anteriores do nosso e de outros grupos de pesquisa mostram que, regionalmente, os bancos de rodolitos chegam a abrigar 30% da biodiversidade. Por isso é importante conhecermos melhor esses hábitats a tempo de protegê-los”, alerta Guilherme Pereira-Filho, professor do IMar-Unifesp que coordenou o estudo, apoiado pela FAPESP por meio de dois projetos (16/14017-0 e 24/18865-2).
Uma mostra de quão desconhecidos são esses ambientes foi a baixa disponibilidade de sequências genéticas depositadas em bancos de dados para comparação com as encontradas no estudo. Esses repositórios, abastecidos por pesquisadores do mundo todo, servem como referência para os cientistas identificarem espécies. Das quase 17 mil espécies marinhas que ocorrem no Brasil, apenas 3.700 possuem sequências de DNA depositadas.
Um dos objetivos do grupo é construir um banco de referências de sequências genéticas para os indivíduos coletados nos bancos de rodolitos, que também contribuirá para a melhor compreensão da biodiversidade marinha brasileira.
“É importante conhecermos melhor esses hábitats a tempo de protegê-los”, alerta Pereira-Filho (IMar-Unifesp), que coordenou o estudo (foto: Zaira Matheus/Arquivo LABECMar)
Algas e invertebrados
A pesquisa apontou a existência de quatro potenciais novas espécies de algas. Entre os achados está o gênero Dissimularia sp., que possui apenas quatro espécies conhecidas no mundo, todas restritas ao oceano Pacífico, sugerindo que o exemplar brasileiro pode ser inédito na ciência. Além dessas possíveis descobertas, a análise identificou algas que já são conhecidas em outras partes do globo, como o Atlântico Norte e o Caribe, mas que foram registradas pela primeira vez no Atlântico Sul.
Entre os invertebrados, as análises moleculares foram particularmente efetivas em detectar material de organismos sésseis, aqueles que vivem fixados a um substrato e não se locomovem de forma autônoma, como esponjas, ascídias e briozoários.
Foram feitos três novos registros de esponjas para o Atlântico Sudoeste, Pione vastifica, Protosuberites denhartogi e Hooperia anfractuosa, sendo este último o primeiro registro para todo o Atlântico.
O trabalho encontrou ainda material genético significativo de pequenos animais marinhos, como os vermes nematoides e nemertíneos, além de ostracodos (pequenos crustáceos) e ácaros marinhos. Foram detectadas sequências de animais não diretamente associados com os nódulos individualmente, mas ao ambiente dos bancos, como decápodes (camarões, siris e caranguejos) e equinodermos (estrelas-do-mar, pepinos-do-mar e ouriços, entre outros).
Conservação
Buscar os melhores métodos para medir a biodiversidade e criar modelos para identificar áreas prioritárias para conservação são formas de cumprir os objetivos da Convenção sobre Diversidade Biológica da Organização das Nações Unidas (ONU), cuja 17ª Conferência das Partes (COP17) ocorre em outubro, na Armênia.
“Por isso, aumentar o investimento em pesquisas nos bancos de rodolitos é essencial para permitir estimativas globais robustas de biodiversidade e confirmar se eles são ecossistemas megadiversos, que precisariam de ainda mais proteção. O reconhecimento de hábitats megadiversos, como as florestas tropicais e os recifes de corais, só foi possível após décadas de investimento e de esforços coordenados”, afirma Pereira-Filho.
Os bancos de rodolitos do Brasil ainda são explorados como fonte de calcário, usado na agricultura para “corrigir” solos ácidos, tornando-os alcalinos, por exemplo. A exploração de petróleo no mar também ameaça esses ecossistemas, tanto pelas perfurações no leito marinho como por possíveis vazamentos.
“O Brasil abriga alguns dos maiores bancos de rodolitos conhecidos no planeta e, ao mesmo tempo, está entre os poucos países onde ainda é permitida a exploração do carbonato de cálcio com essa origem. Quando mostramos que uma área relativamente pequena pode concentrar uma parcela tão expressiva da biodiversidade marinha, surge uma questão inevitável: quanto dessa diversidade podemos perder antes mesmo de conhecê-la? Essa questão precisa estar no centro das discussões entre a academia, os tomadores de decisão e um setor privado cada vez mais atento à sustentabilidade, à conservação da biodiversidade e ao impacto de suas atividades no longo prazo”, acrescenta o pesquisador.
Bioprospecção
Além do prejuízo ecológico, a perda dessa biodiversidade compromete a bioprospecção – a busca por organismos e compostos naturais úteis à sociedade. Como aponta um outro trabalho de Pereira-Filho, os ambientes formados pelos rodolitos guardam um vasto potencial para a descoberta de novas moléculas, que poderiam dar origem a medicamentos e inovações biotecnológicas.
Os pesquisadores acreditam que ainda pode haver mais formas de vida nos rodolitos. Num novo estágio do estudo, após remover todas as algas e invertebrados visíveis dos nódulos, eles estão avaliando o potencial de os rodolitos abrigarem estruturas reprodutivas de outras espécies em seu interior.
“Os rodolitos são considerados ‘bancos de sementes’, uma vez que podem abrigar estruturas reprodutivas difíceis de serem detectadas. Além disso, podem abrigar formas ainda desconhecidas do ciclo de vida de alguns grupos, como os cnidários, que podem ser bastante diferentes dependendo da fase de vida em que se encontram. Buscar evidências morfológicas que complementem as informações genéticas apresentadas é uma etapa futura fundamental”, encerra Longo.
O artigo The pink Amazon? Metabarcoding reveals Rhodolith beds as hidden hotspots of global marine biodiversity pode ser lido em: sciencedirect.com/science/article/pii/S0006320726001813.
Fonte: André Julião | Agência FAPESP






