Cirurgia bariátrica passa a ser permitida a partir dos 14 anos
Procedimento é indicado apenas para jovens com obesidade grave
Especialista da USP explica os critérios e cuidados para realização de procedimento cirúrgico que possui características diferentes das cirurgias em adultos

O crescimento da obesidade infantil tem sido alarmante. Dados do SUS mostram que uma em cada três crianças e adolescentes de 10 a 19 anos apresenta excesso de peso. Para combater essa ocorrência preocupante, o Conselho Federal de Medicina (CFM) atualizou normas que permitem a realização de cirurgias bariátricas em adolescentes de 14 e 15 anos com obesidade grave, uma das alternativas adotadas desde abril de 2025. A medida, no entanto, exige cuidados e atenção.
Conhecida popularmente como “cirurgia de redução de estômago”, a bariátrica é um procedimento para tratar obesidade em grau severo. Ela atua reduzindo o formato original do estômago, dificultando a absorção das calorias dos alimentos. O cirurgião pediátrico Evandro Luís Cunha de Oliveira, que atua no Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (FMRP) da USP, explica como funciona a técnica em jovens.
“Com relação à cirurgia bariátrica infantil, não há muita diferença na técnica ao que se faz em adultos. O que se aplica em crianças é o processo restritivo, ou seja, diminuímos o tamanho do estômago, sem atrapalhar a absorção dos alimentos, diferentemente da intervenção disabsortiva, em que o intestino delgado é desviado, fazendo com que o alimento passe no organismo em um trecho menor, dificultando a captação de nutrientes”, explica.
Ele menciona que, para ser submetido ao procedimento cirúrgico, é necessário seguir protocolos rígidos, estabelecidos pela deliberação médica brasileira. “A nova Resolução do CFM nº 2.429/25 no Brasil é muito clara quanto ao processo. O adolescente se torna elegível para cirurgia a partir dos 14, desde que tenha índice de massa corporal acima dos 40 ou 35 e possua comorbidades.”

O médico ainda diz que os pais precisam estar conscientes de todos os riscos e que outras intervenções de tratamento devem ser realizadas antes de optar pelo processo cirúrgico. “É importante lembrar que, antes da indicação da cirurgia, outros tratamentos para emagrecimento precisam ter sido tentados. Além disso, é fundamental que os pais estejam cientes dos riscos, como a deficiência de nutrientes (ferro, vitamina B12, cálcio e vitamina D), impactos no desenvolvimento físico, especialmente ósseo, e possíveis complicações cirúrgicas, como infecções, sangramentos e trombose”, enfatiza.
Processo cirúrgico
Apesar das novas mudanças na resolução do CFM, os índices de cirurgias em crianças e adolescentes ainda são baixos. “A incidência de cirurgia bariátrica em crianças e adolescentes no mundo gira em torno de 1% a 5%, sendo considerada baixa. Aqui em Ribeirão Preto, o Centro de Tratamento de Obesidade Infantil da Unimed atendeu mais de mil crianças e somente quatro passaram pela bariátrica, isso representa 0,4%, estando dentro da estatística mundial”, explica Oliveira.
Para passar pela intervenção cirúrgica, o jovem deve ser monitorado por uma equipe multidisciplinar, aponta o especialista. “O adolescente deve estar sendo acompanhado por um endocrinologista, nutrólogo e psicólogo, para só então pensar na possibilidade de cirurgia. Tudo precisa passar por uma análise minuciosa.”
Mesmo com todas as precauções, ele garante que a cirurgia é segura. “Hoje, a cirurgia bariátrica em crianças e adolescentes é tão segura quanto a sua aplicação em adultos.” Porém, o médico adverte que o jovem terá que passar por acompanhamento durante toda vida. “Sendo a criança e adolescente um ser em desenvolvimento, ela terá que ser acompanhada de perto, desde a sua indicação cirúrgica até por muitos anos na vida adulta. Os médicos sempre devem estar atentos aos níveis nutricionais desses pacientes, para não ocorrer nenhum problema”, ressalta.
Pós-operatório
O cirurgião pediátrico destaca que o pós-operatório está ligado a mudanças de rotinas alimentares. “No pós-operatório imediato, o paciente vai ter uma restrição alimentar e terá que seguir uma dieta prescrita, devido ao corte feito no estômago. Passando essa fase, a alimentação é a normal de casa, mas o paciente não irá conseguir ingerir alimentos em grandes quantidades.”
Oliveira também acrescenta os impactos positivos no bem-estar social. “Em um dos pacientes que realizei o procedimento, ele pesava 140 kg e perdeu mais de 40 kg, hoje ele se tornou um adolescente mais feliz e sorridente”, finaliza.



