Como seu bebê usa as mãos para antecipar e ajustar movimentos
Desde os primeiros meses de vida, por meio do gesto de apertar, bebês percebem efeitos de suas ações e vão agir de forma cada vez mais intencional no ambiente

Na Escola de Educação Física e Esporte (EEFE) da USP, a pesquisadora Yasmim Barbosa dos Reis, sob orientação do professor Edison de Jesus Manoel, investigou como bebês de 1 a 3 meses organizam os movimentos das mãos durante o comportamento de apertar. O objetivo foi analisar se essas ações já apresentam controle prospectivo, isto é, se são orientadas antecipadamente em relação ao que o bebê percebe e ao efeito que seu ato produz. Os resultados confirmaram que o comportamento de apertar já apresenta organização prospectiva desde o primeiro mês de vida, evidenciando que os bebês são agentes ativos em sua relação com o mundo.
Desde os primeiros dias de vida, os bebês exploram o mundo e a si mesmos por meio do movimento – mais especificamente, com as mãos. Ao tocar, apertar, segurar e abrir e fechar os dedos repetidamente, eles experimentam possibilidades, percebem estímulos e constroem suas primeiras formas de interação com o ambiente. Longe de serem movimentos aleatórios, essas ações fazem parte de uma investigação constante que sustenta as primeiras experiências de aprendizagem, contato e descoberta.
A pesquisa também identificou que essas ações variam conforme a experiência e o contexto ambiental, especialmente quando há consequências produzidas pelo próprio movimento. Os achados reforçam a importância das mãos como ferramenta inicial de exploração e oferecem novas evidências para compreender o desenvolvimento motor e cognitivo na primeira infância. “A mão não atua apenas como instrumento de manipulação, mas também como meio de reconhecimento das características e propriedades dos objetos”, afirma a pesquisadora.
O comportamento exploratório é uma das primeiras manifestações da agência nos seres vivos: a capacidade de agir sobre o mundo e produzir mudanças a partir de suas ações. Nos bebês, isso aparece por meio de movimentos espontâneos que permitem experimentar possibilidades, perceber efeitos e construir relações com o ambiente. Tais gestos mostram que, desde o início da vida, eles participam ativamente da própria experiência.
Ligado a esse processo está o controle prospectivo, que se refere à capacidade de orientar o movimento com base no que se pretende alcançar e no que se antecipa como resultado da ação. Nos primeiros meses de vida, esse controle ainda está em desenvolvimento e se refina progressivamente com a experiência perceptivo-motora e com a maturação do sistema nervoso. Assim, os movimentos passam a ser mais organizados e permitem que o bebê ajuste seus gestos a partir das informações que recebe na exploração.
Seres ativos no mundo
Nesse contexto, o comportamento do apertar não é apenas reflexo mecânico e involuntário, mas um gesto que ocupa um papel essencial nas primeiras experiências exploratórias do bebê, integrando percepção e interação. “O comportamento de apertar pode ser entendido como uma forma de exploração manual, fundamental para a construção de repertórios motores mais complexos ao longo do desenvolvimento”, explica Yasmim Barbosa dos Reis.
Para investigar o comportamento de apertar, o estudo acompanhou 30 bebês de 1 a 3 meses de idade, saudáveis e nascidos no tempo ideal de gestação. Os participantes foram divididos em grupos por dias de vida e avaliados individualmente em um ambiente silencioso e controlado. Durante a coleta, os bebês permaneceram acomodados em uma cadeira inclinada e em frente a um monitor de computador.
A observação foi realizada com o auxílio de uma pequena barra cilíndrica posicionada na palma da mão do bebê. O objeto era equipado com um sensor capaz de registrar a pressão exercida a cada aperto, acompanhando em tempo real a força e a duração do gesto. No início e no final da sessão, os bebês passaram pela fase basal, em que nenhum estímulo visual foi apresentado no monitor. Esses momentos funcionaram como referência para analisar o comportamento espontâneo do apertar, sem interferências externas.
Entre essas etapas, os bebês participaram de duas situações distintas. Na fase não contingente, um vídeo de uma mulher sorrindo e dizendo “oi” era exibido diante deles, mas independentemente do movimento realizado com as mãos. Já na fase contingente, o mesmo vídeo era acionado como consequência direta do aperto feito pelo bebê. Com isso, a pesquisa poderia analisar se os bebês percebiam a relação entre sua ação e o efeito produzido no ambiente – e se essa descoberta influenciava a forma como eles exploravam o objeto com as mãos.
Momento da intervenção com o bebê acomodado em uma cadeira e em frente a um monitor (à esquerda) e captura de tela do vídeo apresentado aos bebês durante a intervenção (à direita) – Imagens: Extraídas da dissertação
Pequeno gesto, grandes descobertas
Os resultados do estudo mostraram que o gesto de apertar vai além de um movimento aleatório ou apenas um reflexo. Ao perceberem que sua ação produzia um efeito no ambiente, os bebês passaram a explorar o objeto de maneira mais organizada e intencional. Isso reforça que eles aprendem desde cedo a relação entre ação e reação, participando ativamente do mundo ao seu redor.
Além disso, as análises das intervenções evidenciaram que cerca de 75% dos movimentos observados nos bebês apresentaram características de controle prospectivo. Ou seja, os bebês demonstraram capacidade de planejamento, ajustando o gesto de apertar conforme a experiência vivida e antecipando os efeitos do próprio movimento. “Nossos resultados indicaram que o aperto pode apresentar um padrão característico e sensibilidade ao contexto, sugerindo que esse comportamento não se limita a uma resposta automática, mas constitui uma forma de exploração”, comenta a pesquisadora.
Ao investigar um gesto que, aparentemente, é simples, e também recorrente na primeira infância, a pesquisa contribui para ampliar a compreensão sobre o desenvolvimento motor de bebês de 1 a 3 meses de idade. O gesto de apertar oferece pistas sobre como eles exploram o ambiente, aprendem com as consequências e passam a agir cada vez mais de forma antecipatória e proposital. A pesquisa contribui para evidenciar que o controle prospectivo participa diretamente da descoberta do mundo e da aprendizagem corporal desde o início da vida.
O trabalho é descrito na dissertação de mestrado Controle prospectivo nas ações manuais de bebês de 1 a 3 meses de idade, disponível no Banco de Teses da USP neste link: https://teses.usp.br/teses/disponiveis/39/39136/tde-03072026-102535/pt-br.html
Matéria: Livia Borges | Jornal da USP.





