Informar sobre benefícios à saúde em rótulos influencia escolhas alimentares?
Prevenção de saúde cardiovascular, óssea, muscular, metabólica, digestiva e ocular, além de promessas relacionadas ao bem-estar geral estão entre as alegações presentes nas embalagens

Informações nos rótulos de alimentos e bebidas que destacam benefícios à saúde influenciam positivamente o comportamento do consumidor, aumentando a percepção de valor do produto e a disposição de pagar mais por ele. No entanto, a decisão de compra também é afetada por fatores individuais e contextuais, como estado de saúde da pessoa no momento da compra, faixa etária, conhecimento nutricional, preço, sabor e acesso à marca.
A conclusão é de um estudo conduzido por pesquisadores da USP sobre o impacto das chamadas “alegações funcionais e de saúde” nas escolhas alimentares. Entre as mais comuns, estão aquelas associadas à saúde cardiovascular, óssea, muscular, metabólica, digestiva e ocular, além de promessas relacionadas ao bem-estar geral. Propriedades antioxidantes e anti-inflamatórias, desempenho cognitivo e mental, suporte ao sistema imunológico e prevenção de doenças também foram citadas.
Segundo a orientadora da pesquisa, a professora da Faculdade de Saúde Pública (FSP) da USP Elizabeth Aparecida Ferraz da Silva Torres, os consumidores estão cada vez mais atentos à composição nutricional dos alimentos e tendem a considerar as alegações funcionais e de saúde um diferencial no momento da compra. Especialista em Nutrição e Ciência e Tecnologia de Alimentos, a pesquisadora afirma que “compreender como essas alegações influenciam o comportamento e as escolhas do consumidor é fundamental para orientar regulamentações, políticas públicas e estratégias de comunicação que incentivem hábitos alimentares mais saudáveis e também as práticas da indústria alimentícia”.
O estudo incluiu a revisão de 71 artigos publicados entre 2019 e 2024 em bases de dados científicos de mais de dez países. O objetivo foi compreender como as pesquisas sobre alegações de saúde em alimentos têm evoluído. Os resultados estão no artigo The Role of Health Claims on Consumer Behavior and Food Choice: a Narrative Review, que tem a nutricionista Helena F. Martins Tavares como primeira autora.
Comportamento multifatorial
Com base em teorias do comportamento, a pesquisa indica que as alegações não produzem o mesmo efeito em todos os consumidores. “A decisão de comprar ou consumir um produto não depende apenas da informação presente no rótulo, mas também de fatores psicológicos, sociais e perceptivos que influenciam a interpretação dessas mensagens”, explica Helena Tavares.
Dentre esses fatores estão o grau de escolaridade, idade, gênero, o tempo disponível para compra (mais ou menos apressado), a finalidade do produto – se para o consumo próprio ou de familiares –, a presença de doenças pré-existentes e o estado emocional, além da percepção do consumidor sobre a marca ou empresa responsável pelo produto.
Para a nutricionista, alegações funcionais e de saúde bem elaboradas podem apoiar escolhas alimentares mais saudáveis quando alinhadas às capacidades cognitivas e aos estados motivacionais dos consumidores.
Alegações de saúde no comportamento do consumidor
Regulações
Nos últimos anos, a maior conscientização dos consumidores sobre a relação entre alimentação e saúde impulsionou o mercado de alimentos funcionais – com a proposta de trazer efeitos benéficos à saúde, além de suas funções nutricionais básicas. No Brasil, a regulamentação dessas informações fica a cargo da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), responsável por estabelecer normas e prevenir fraudes.
“A regulação tem como objetivo garantir que as informações apresentadas ao consumidor sejam verdadeiras e baseadas em evidências científicas”, relata Helena Tavares. Para que seja possível afirmar que um alimento traz benefícios à saúde, é necessário realizar estudos científicos que comprovem a eficácia e a segurança de seus componentes, como nutrientes, probióticos ou outras substâncias bioativas. Os estudos passam por avaliação de órgãos reguladores, de acordo com as normas estabelecidas em cada país. Somente após essa análise e aprovação é permitido utilizar alegações de saúde em rótulos, materiais promocionais ou outras formas de comunicação.
As pesquisadoras reforçam ainda que as referências funcionais e de saúde em alimentos têm papel estratégico na percepção e nas escolhas dos consumidores, mas seu efeito depende de múltiplos aspectos, incluindo clareza da informação, interpretação individual, motivações e contexto de consumo.
“Quando baseadas em evidências científicas e regulamentadas adequadamente, essas mensagens podem incentivar hábitos alimentares mais saudáveis, orientar políticas públicas e guiar práticas responsáveis da indústria alimentícia”, avalia a professora Elizabeth Torres.
Matéria: Ivanir Ferreira | Jornal da USP.






