
A 36ª cerimônia de premiação dos trabalhos mais engraçados da ciência, o Ig Nobel, ocorreu no dia 3 de setembro de 2026, em Zurique, na Suíça, e colocou em evidência estudos científicos que, de acordo com a organização, “primeiro fazem as pessoas rirem, e depois pensarem”. Ao total, foram classificadas pesquisas bem-humoradas em dez categorias diferentes. Na categoria biologia, foi laureado um grupo de brasileiros, representado por João Miguel Alves-Nunes, pesquisador do Instituto de Biociências (IB) da USP e primeiro autor do trabalho intitulado Study of defensive behavior of a venomous snake as a new approach to understand snakebite.
Na pesquisa, 117 cobras participaram dos experimentos: 75 adultas, 13 jovens e 29 recém-nascidas. A intenção foi investigar o comportamento defensivo das serpentes e sua relação com a ocorrência de acidentes ofídicos. O estudo mostra que tamanho, sexo, estágio de vida da cobra, temperatura, horário e, principalmente, o tipo e o local de contato com o animal influenciam a ocorrência de uma mordida defensiva.
Na tentativa de explicar como e por que o bote ocorre, o estudo utilizou indivíduos da espécie mais relevante em ofidismo no Brasil, a Bothrops jararaca, envolvida em cerca de 90% a 99% dos casos de acidentes com cobras. A jararaca inocula um veneno com ação proteolítica, capaz de degradar tecidos e causar hemorragia e necrose local.
O estudo também encontrou uma associação entre esses padrões comportamentais e os registros de acidentes em São Paulo. Para isso, os pesquisadores cruzaram os resultados dos experimentos com dados epidemiológicos de acidentes por Bothrops no Estado, incluindo registros de 2009 a 2022 e dados de 422 jararacas envolvidas em acidentes entre 1969 e 2005.
João Miguel Alves-Nunes, primeiro autor da pesquisa, afirma que sempre gostou da ideia desse prêmio e que, quando veio, foi uma verdadeira festa. “Lembro de falar uma vez com um amigo: ‘Você sabia que existe um prêmio de loucura científica? Já pensou, ganhar isso um dia seria da hora’. Mas foi um daqueles papos de corredor, tomando café, que depois você esquece”, conta o pesquisador à reportagem.
O estudo reúne uma situação experimental inusitada — provocar jararacas para descobrir quando elas mordem — a uma pergunta de interesse para a saúde pública: quais fatores aumentam a probabilidade de um encontro entre humanos e serpentes terminar em uma mordida? – Foto: Rafael Menegucci/ Wikimedia Commons
O espanto como princípio da ciência
A alta ocorrência de acidentes com esses animais motivou os pesquisadores a investigar as causas do bote. Para isso, porém, foi preciso provocar as cobras milhares de vezes.
“Nesse trabalho, fizemos tudo que um pesquisador de serpentes não faz: eu quis que o bicho atacasse a gente”, afirma Alves-Nunes.
João e sua equipe simularam encontros entre uma pessoa e as serpentes, com e sem contato físico. Os animais reagiram à aproximação de diferentes formas. No experimento com contato, os pesquisadores usaram uma bota de segurança para tocar levemente diferentes regiões do corpo da cobra – cabeça, meio do corpo e cauda.
O método, que acabou gerando mais de 40 mil situações de resposta defensiva das cobras, resultou em acidentes graves que levaram João Miguel algumas vezes ao hospital. “Eu fui picado quatro vezes, e em uma delas eu fiquei em estado de risco de vida. Desenvolvi alergia ao soro e desenvolvi alergia ao veneno. Esse tipo de pesquisa que estressa o animal acaba expondo mais o pesquisador”, afirma.
Mas essa ousadia foi justamente o que fez o estudo receber o Ig Nobel. A situação experimental inusitada, somada a uma pergunta curiosa, acabou levando a uma discussão séria sobre epidemiologia, prevenção de acidentes e a relação das serpentes com ameaças.
Para João Miguel, o processo de construção do conhecimento científico parte de um lugar muito parecido com o espanto admirativo que, segundo Aristóteles, é o princípio da ciência. O Ig Nobel, para ele, é uma grande celebração das perguntas inusitadas que valem a pena ser investigadas simplesmente porque existe curiosidade científica sobre o assunto, sem considerar, necessariamente, suas possíveis aplicações.
“Eu acho que o processo que levou às maiores descobertas da ciência também mereceria um Ig Nobel. Da forma que eu vejo, todo trabalho científico tem uma pitada de loucura”, afirma.
Ousadia e retratação
O artigo define a mordida como um comportamento antipredatório de defesa, acionado diante de uma ameaça, que, no caso das serpentes peçonhentas, pode resultar no envenenamento de seres humanos durante um encontro com o animal – Foto: Arquivo pessoal / João Miguel Alves-Nunes
Apesar disso, o artigo premiado foi retratado pela Scientific Reports, revista onde havia sido originalmente publicado. A retratação ocorre quando um artigo é formalmente retirado da literatura pela revista depois da publicação, geralmente porque foi identificado algum problema grave. No caso em questão, a Scientific Reports declarou ter identificado problemas éticos relacionados à metodologia do estudo.
Mesmo retratado, porém, um artigo ainda pode gerar discussões científicas e chamar atenção para questões relevantes à comunidade científica.
“A notícia da retratação foi um choque, porque o trabalho foi aprovado por comissões éticas antes da publicação. Mas vários pesquisadores internacionais entenderam a situação, alguns jornalistas quiseram trabalhar com o estudo e, depois, veio esse prêmio. De certa forma, isso amenizou a situação”, conta Alves-Nunes.
O artigo continua na página da Scientific Reports, mas agora aparece explicitamente como “Retracted Article”, com um link para a nota de retratação. Na prática, o aviso sinaliza que a publicação não deve ser considerada uma fonte científica confiável para sustentar suas conclusões. Isso não significa necessariamente que os dados ou resultados do trabalho sejam falsos. Ainda assim, artigos retratados podem ser citados quando a própria retratação é relevante para a discussão, desde que sua condição seja claramente indicada.
E o Ig Nobel vai para…
O evento, criado pela revista de humor científico Annals of Improbable Research (Anais da Pesquisa Improvável), pretende ser uma espécie de paródia do Prêmio Nobel – premiação criada em 1901 para reconhecer contribuições notáveis em diferentes áreas do conhecimento.
Este ano, pela primeira vez, o evento foi realizado fora dos Estados Unidos, onde costumava reunir cientistas do mundo inteiro em um teatro da Universidade Harvard, sempre lotado para o Ig Nobel. Os trabalhos ganhadores são considerados inusitados, engraçados ou “malucos” dentro das áreas de ciência, medicina, finanças, tecnologia e outras. O lema é “fazer as pessoas rirem e, depois, pensarem”.
Os vencedores são selecionados pelo Ig Nobel Board of Governors, formado por cientistas – entre eles laureados com os prêmios Nobel e Ig Nobel –, jornalistas de ciência, atletas, autoridades públicas e outras personalidades. Para completar o ritual, no último dia de deliberações, um transeunte aleatório é chamado para ajudar a decidir quem leva o prêmio. Afinal, se uma pesquisa consegue fazer cientistas, jornalistas e outras figuras ilustres rirem e pensarem, nada mais justo do que colocar a decisão nas mãos de alguém que simplesmente estava passando por ali.

Apesar do tom de brincadeira, a celebração reconhece pesquisas internacionais de alto calibre e usa o bom humor para colocá-las em evidência. Um exemplo disso é o caso do físico holandês Andre Geim, que ganhou seu Ig Nobel no ano 2000 e, dez anos depois, também recebeu o Prêmio Nobel.
Na USP, João Miguel Alves-Nunes continua trabalhando com animais peçonhentos de interesse médico, mas agora principalmente com aracnídeos. “No doutorado, eu estudo possíveis estados emocionais em aracnídeos. A gente quer ver se eles apresentam indícios de dor, de ansiedade ou de medo, diante de uma situação onde existe uma ameaça iminente, como quando o predador já está vindo para cima e o animal precisa fazer alguma coisa”, conta.
Recentemente, ele e três colegas brasileiros publicaram outro artigo sobre a influência de estímulos sensoriais na frequência e na precisão dos ataques de serpentes.
O trabalho Study of defensive behavior of a venomous snake as a new approach to understand snakebite está disponível neste link: https://www.nature.com/articles/s41598-024-59416-6#Sec8
Matéria: Sthephany Oliveira | Jornal da USP.





