
Pesquisadores da Universidade Federal do ABC (UFABC) e da USP analisaram estudos científicos sobre a presença em polímeros sintéticos, os plásticos produzidos pela indústria, do bisfenol A (BPA), um componente altamente nocivo à saúde humana. O trabalho aponta que não há evidências da presença do bisfenol no processo de produção de cinco polímeros: PET, PE, PP, PS e PVC. No entanto, os autores enfatizam que essa ausência não serve como indicador de segurança dos plásticos, recomendando a adoção de estratégias de rastreabilidade digital e gestão de resíduos.
As conclusões do trabalho, descrito em artigo da revista científica Polymers, foram apresentadas em coletiva de imprensa realizada na Escola Politécnica (Poli) da USP na manhã desta quinta-feira (10). De acordo com o estudo, os polímeros sintéticos estão entre as classes de materiais estrategicamente mais importantes na sociedade contemporânea. Sua baixa densidade, propriedades ajustáveis, estabilidade química e compatibilidade com a fabricação contínua em larga escala permitiram sua integração em setores essenciais, como embalagens de alimentos, transporte, energia, construção civil, saúde e bens de consumo.
O professor da UFABC, Derval Rosa, informa que os polímeros analisados foram escolhidos por fazerem parte do cotidiano, sendo eles responsáveis por mais de 90% do total de plásticos presentes no mercado. O trabalho consultou mais de 700 artigos e alguns especialistas da área para compreender as rotas de sínteses desses materiais. “Foram ponderados não só a matéria-prima, como também o sistema de aditivação e a produção da resina”, explicou Rosa na coletiva.
O estudo levou em conta as condições a que os materiais estavam sendo submetidos, como a temperatura e o pH. “De forma sistemática, mostramos que os mecanismos envolvidos nas reações ocorridas em rotas convencionais, como também alternativas dos seis materiais poliméricos estudados, não produzem nem emitem como subproduto a molécula de BPA”, afirmou Derval Rosa. O professor alertou que o modo de fabricação e o uso inadequado do material podem impactar os resultados.
Um dos pontos discutidos na coletiva foi o impacto dos rótulos “Livre de BPA” (BPA-Free). Segundo os autores, a aplicação desse selo em materiais que intrinsecamente nunca possuíram a substância em sua composição — como garrafas PET, mamadeiras e embalagens de polipropileno — acaba por alimentar a “quimiofobia” na sociedade e induzir o consumidor ao erro, sugerindo um perigo inexistente em produtos concorrentes que não ostentam a mesma etiqueta.
“Não podemos generalizar. Eventualmente, determinado material plástico pode ter BPA. Algum, mas não todos. O que nós estamos garantindo com essa pesquisa é que todos esses polímeros estudados não têm a presença de BPA”, ressaltou Rosa. O professor destacou a importância da comunidade científica se voltar para a sociedade, identificando questões emergentes, para que investigações de interesse social possam ser realizadas. Para ele, o objetivo deve ser informar e auxiliar na desmistificação de crenças gerais que circulam sem fundamentação científica.
O estudo
A pesquisa relata que, entre os polímeros sintéticos, o polietileno tereftalato (PET), o polietileno (PE), o polipropileno (PP), o poliestireno (PS) e o policloreto de vinila (PVC) dominam a produção global e constituem o núcleo da cadeia de valor dos plásticos. Sua presença generalizada em aplicações que envolvem exposição direta de seres humanos e do meio ambiente coloca esses materiais no centro de estruturas regulatórias e debates sobre a percepção pública, tornando-os sistemas altamente representativos para a avaliação tanto de avanços tecnológicos quanto de questões de segurança.
Mudanças regulatórias recentes na União Europeia, nos Estados Unidos e no Brasil têm colocado maior ênfase na segurança química, na transparência e na rastreabilidade como requisitos fundamentais para a produção e o uso de polímeros, relatam os pesquisadores. O Brasil regula os polímeros por meio da Resolução RDC n.º 56/2012 da Agência Nacional de Vigilância Sanitária para materiais em contato com alimentos. Esses principais órgãos e estruturas regulatórias atualizaram normas sobre materiais em contato com alimentos, restrições de aditivos, testes analíticos e certificação, exigindo uma avaliação mais rigorosa de substâncias com potencial de migração e uma melhor detecção de substâncias não adicionadas intencionalmente.
A preocupação com o bisfenol A (BPA) em produtos plásticos vem crescendo, impulsionada por sua classificação como desregulador endócrino e pelos seus possíveis efeitos à saúde humana. O BPA é um precursor na produção de materiais de policarbonato e sistemas epóxi. No entanto, os pesquisadores observam no trabalho que, apesar da crença de que todos os plásticos contêm BPA, há evidências de que os polímeros usam em sua elaboração mecanismos catalíticos ou radicalares e não envolvem BPA nem geram intermediários bisfenólicos.
O artigo mostra que, com base na literatura disponível e nas rotas de síntese analisadas, os bisfenóis, notadamente o bisfenol A (BPA), não são reagentes intrínsecos nem unidades estruturais constituintes na produção industrial convencional de PET, PE, PP, PS e PVC. As poliolefinas, como o PE e o PP, são produzidas por meio da polimerização de monômeros olefínicos simples catalisada por complexos de coordenação ou metalocenos, resultando em cadeias principais de hidrocarbonetos apolares nas quais estruturas bisfenólicas são quimicamente irrelevantes.
De modo semelhante, o PS é obtido pela polimerização radicalar do estireno, e o PVC, pela polimerização do cloreto de vinila. Em ambos os casos, as relações estrutura-propriedade resultantes, como temperatura de transição vítrea, rigidez e processabilidade, são determinadas por grupos fenila ou cloro, e não por frações bisfenólicas. O PET, embora seja um poliéster aromático, é sintetizado convencionalmente a partir de ácido tereftálico, ou tereftalato de dimetila e etilenoglicol. Portanto, ele permanece quimicamente distinto dos policarbonatos à base de BPA.
Do ponto de vista industrial, avanços em catálise, intensificação de processos e tecnologias de reciclagem, incluindo sistemas que se aproximam de níveis elevados de maturidade tecnológica, viabilizam rotas de produção mais eficientes e matérias-primas secundárias de maior qualidade. No entanto, o estudo salienta que desafios relacionados à pureza da matéria-prima, à infraestrutura de triagem e à escalabilidade dos processos permanecem como barreiras fundamentais para a implementação plena de sistemas circulares.
“É claro que essa questão do policarbonato precisará de um pouco mais de cuidado. A gente vai ter que fazer, também, uma aproximação com os produtores, de maneira que a gente consiga entender quais são essas tecnologias produzidas e usadas no Brasil”, afirmou Derval Rosa. “E, mais que isso: se há ou não, de fato, BPA residual. Essa é a grande questão.”
A pesquisa ressalta que a ausência de BPA na síntese de polímeros não deve ser interpretada como um indicador isolado de segurança do material, uma vez que esta continua dependente da formulação, das condições de processamento e dos cenários de uso real. O artigo conclui que garantir a segurança e a sustentabilidade contínuas dos polímeros de grande escala depende não apenas de um projeto químico robusto e da conformidade regulatória, mas também do desenvolvimento de cadeias de valor integradas que combinem reciclagem avançada, rastreabilidade digital e sistemas aprimorados de gestão de resíduos.
Participaram da pesquisa Derval dos Santos Rosa, primeiro autor do artigo, Alana Gabrieli Souza e Sueli Aparecida de Oliveira, do Centro de Engenharia, Modelagem e Ciências Sociais Aplicadas (CECS) da UFABC, Hélio Wiebeck e Manoel Lisboa da Silva Neto, do Departamento de Engenharia Metalúrgica e de Materiais (PMT) da Poli.
O artigo Safety and Innovation in Conventional Plastics: A Review of Polymer Synthesis and Emerging Technologies, publicado na revista Polymers, pode ser consultado neste link: https://www.mdpi.com/2073-4360/18/8/1007
Matéria: Júlio Bernardes e Emmanuelita Emmanuel | Jornal da USP.



