Bitucas de cigarro são o lixo mais comum do planeta
Estima-se em 4,5 trilhões de unidades descartadas por ano
Estudo de revisão compila dados científicos de 55 países e revela níveis alarmantes de contaminação em ambientes urbanos e aquáticos; nem áreas protegidas e remotas escapam totalmente do problema; "A indústria do tabaco durante décadas difundiu a ideia de que o filtro seria biodegradável", diz pesquisador (imagem: P. Schreiner/Pixabay)
Nada menos do que 4,5 trilhões de bitucas de cigarro são descartadas incorretamente todos os anos, formando uma das faces mais onipresentes – e menos percebidas – da poluição ambiental global. Isso significa em torno de 550 bitucas lançadas anualmente no ambiente para cada habitante do planeta.
Um amplo levantamento compilou dados de 130 estudos científicos realizados em 55 países entre 2013 e 2024 e revela que esses pequenos resíduos atingem densidades médias de 0,24 bitucas por metro quadrado em ambientes urbanos e aquáticos. É como encontrar uma bituca a cada quatro metros quadrados. Picos extremos no mundo ultrapassaram 38 bitucas por metro quadrado em praias e áreas costeiras altamente frequentadas e populosas. A massa total das bitucas descartadas anualmente no ambiente é da ordem de 766,6 milhões de quilos.
O estudo mostra ainda que áreas ambientalmente protegidas – principalmente aquelas com regras mais restritivas – conseguem reduzir a contaminação em até dez vezes quando comparadas a locais sem qualquer tipo de proteção legal. Mesmo assim, nem parques nacionais ou reservas marinhas escapam totalmente do problema, uma vez que as correntes marítimas podem levar para essas localidades lixo descartado muito longe delas, seja em praias seja em áreas urbanas.
A revisão, fruto da parceria entre pesquisadores vinculados à Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), à Universidade Estadual Paulista (Unesp), ao Instituto Nacional de Câncer (Inca), à Johns Hopkins University, nos Estados Unidos, e à Universidad San Ignacio de Loyola, no Peru, constitui a mais abrangente síntese já produzida sobre a distribuição global das bitucas e suas implicações ambientais. Artigo a respeito, tendo como primeiro autor o engenheiro ambiental Victor Vasques Ribeiro, doutorando do Instituto do Mar da Unifesp, foi publicado no periódico Environmental Chemistry Letters. Ele descreve em detalhe os padrões espaciais, os chamados hotspots de contaminação, e o efeito do grau de proteção ambiental na redução do problema.
“Os contaminantes químicos presentes na bituca espalham-se rapidamente, ainda mais quando em contato com a água do mar. Em poucas semanas, esse material tóxico é liberado no meio ambiente, podendo ser letal para várias espécies aquáticas”, diz Ribeiro. Os cigarros contêm mais de 7 mil compostos químicos, dos quais ao menos 150 são tóxicos. Mas o problema não termina aí: o miolo do filtro é composto por um polímero, o acetato de celulose, que, como outros plásticos, permanece por um tempo enorme no ambiente, fragmentando-se em microplásticos que contaminam organismos marinhos e podem retornar aos humanos quando esses organismos são consumidos.
Além do impacto ambiental, o estudo também dialoga com o debate sobre saúde pública e o papel do filtro na história do cigarro. Para André Salem Szklo, da Divisão de Controle do Tabagismo do Inca, que orientou o estudo de revisão, a existência do filtro foi usada historicamente como argumento de marketing. “Passa a ideia de que, com filtro, o cigarro seria um produto mais saudável, favorecendo, portanto, a iniciação e a manutenção do comportamento de fumar. Mas isso não se sustenta. Com a introdução dos filtros, aumentou, inclusive, um tipo específico de câncer de pulmão, ligado a partículas finas”, conta.
Szklo chama a atenção para a narrativa veiculada pela indústria do tabaco sobre a responsabilidade individual nesse descarte no ambiente. “É importante não culpabilizar o fumante. A indústria do tabaco durante décadas difundiu a ideia de que o filtro seria biodegradável. Isso influenciou e influencia o comportamento. A verdade é que somente existe a contaminação por bitucas porque existe uma indústria que lucra com a venda de cigarros.”
“Se as pessoas entendessem que estão jogando uma bomba química quando descartam uma bituca, talvez não agissem com tanta normalidade”, acrescenta Ribeiro.
O número de 4,5 trilhões de bitucas que chegam anualmente aos ambientes urbanos e aquáticos não foi produzido diretamente pela nova revisão, mas por uma compilação feita pela Organização Mundial da Saúde (OMS). Ribeiro lembra que, globalmente, são fumados cerca de 12 trilhões de cigarros por ano. “Uma fração enorme acaba nos oceanos, para onde quase todas as águas convergem”, afirma. Praias concentram grande circulação de pessoas, turismo intenso e consumo recreativo – fatores que favorecem o descarte inadequado. Mas não é apenas por isso que aparecem como as áreas mais contaminadas: elas também funcionam como verdadeiros “sumidouros” de resíduos sólidos. Bitucas descartadas no interior das cidades ou até em regiões distantes podem ser carregadas pela chuva e pelos rios até o mar. Além do impacto ambiental direto do descarte dos cigarros fumados (bitucas), a produção e o consumo de cigarros emitem 84 milhões de toneladas de gás carbônico na atmosfera a cada ano.
A análise global mostrou forte concentração de hotspots – áreas críticas que integram os cerca de 5% mais contaminados entre todos os locais monitorados no mundo – em 17 países, localizados principalmente na América do Sul, no Oriente Médio e no Sudeste Asiático. Em praias do Golfo Pérsico, por exemplo, já foram medidas mais de 38 bitucas por metro quadrado. Na América do Sul, praias do Chile, Brasil, Uruguai e Equador aparecem repetidamente entre os locais críticos, em alguns casos com mais da metade de todo o lixo coletado composto por bitucas de cigarro.
Os autores do estudo criaram o Índice de Contaminação por Bitucas de Cigarro (ICBC), indo da classificação “ausente” para a de “extremamente alta”. Faltam dados publicados para a maior parte da América do Norte, da África, da Ásia Central e Oriental e para toda a Oceania, o que dificulta comparações globais.
Status da contaminação por bitucas em diferentes regiões do planeta. Os pontos vermelhos, os mais contaminados, se espalham por 17 países. A maior parte da América do Norte, da África, da Ásia Central e Oriental e toda a Oceania aparece em branco. Isso se deve à falta de dados publicados nessas regiões (imagem: Victor Vasques Ribeiro)
Ao cruzarem os registros com mapas internacionais de unidades de conservação, os autores identificaram 165 áreas protegidas monitoradas em 37 países. Mesmo áreas oficialmente criadas para conservar a natureza não estão imunes à contaminação por bitucas. A densidade média em áreas protegidas foi quase cinco vezes menor do que em áreas desprotegidas e, nas categorias mais restritivas de proteção, a redução foi maior. “Mesmo assim, hotspots foram encontrados dentro de áreas protegidas, que incluem parques e reservas, principalmente onde há turismo intenso ou fiscalização limitada. A simples designação legal não basta. Principalmente diminuição geral do número de fumantes, mas também infraestrutura, fiscalização e educação ambiental fazem diferença”, comenta Ribeiro.
Para Szklo, não é possível discutir contaminação por plásticos sem considerar o enorme impacto negativo das bitucas sobre os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável estabelecidos pela Organização das Nações Unidas (ONU). “Estamos falando do item mais descartado do mundo. Em alguns lugares, mais da metade do lixo de uma praia é composta só por bitucas. Já houve casos em que praticamente 100% dos resíduos eram filtros. Como pensar um tratado global contra o plástico ignorando o fortalecimento da implementação de medidas de redução do tabagismo previstas na Convenção-Quadro para o Controle do Tabaco da Organização Mundial da Saúde?”, enfatiza.
Os pesquisadores defendem que as informações levantadas pelo estudo subsidiem negociações internacionais, como o tratado da ONU contra a poluição plástica, além de medidas locais, como a proibição de fumar em praias e parques, campanhas educativas, melhoria da gestão de resíduos e, principalmente, maior responsabilização da indústria do cigarro.
O estudo recebeu apoio da FAPESP por meio de Bolsa de Doutorado para Ribeiro, sob orientação de Ítalo Braga de Castro, e de Auxílio à Pesquisa – Jovens Pesquisadores concedido ao segundo autor, Lucas Buruaem Moreira.
O artigo Global cigarette butt contamination: a review pode ser acessado em: link.springer.com/article/10.1007/s10311-026-01897-0.
José Tadeu Arantes | Agência FAPESP






